Após anos sem cooperação institucional, Caracas e Washington começaram a construir uma nova relação na área de segurança. A aproximação diplomática inicial está dando lugar a uma coordenação cada vez mais visível entre autoridades judiciais, órgãos de inteligência e forças de segurança para enfrentar algumas das principais ameaças que afetam a Venezuela e a região.
Em poucos meses, essa cooperação já produziu resultados concretos. A extradição, em maio, para os Estados Unidos do empresário colombiano Alex Saab — considerado durante anos um dos principais operadores financeiros do regime de Nicolás Maduro — para responder a novas acusações de lavagem de dinheiro; a operação que culminou na neutralização de Héctor Rusthenford Guerrero Flores, conhecido como Niño Guerrero, líder histórico do Tren de Aragua (TdA), e uma maior coordenação nas fronteiras com a Colômbia refletem uma mudança de abordagem baseada na troca de inteligência, na cooperação judicial e em operações coordenadas contra redes criminosas transnacionais.
“Sem essa troca, teria sido impossível desferir esse golpe devastador contra a criminalidade e a corrupção”, declarou à Diálogo Casto Ocando, jornalista de investigação venezuelano especializado em crime transnacional.
Para Ocando, atacar simultaneamente as estruturas financeiras e operacionais dessas organizações representa uma mudança importante na estratégia contra o crime organizado. “Agora ninguém pode se esconder impunemente”, afirmou.
Atacando a liderança do TdA
A operação que resultou na neutralização de Niño Guerrero constitui provavelmente o exemplo mais visível dessa nova cooperação.
Durante anos, o líder do TdA conseguiu escapar da captura enquanto a organização criminosa expandia suas atividades da Venezuela para vários países da América Latina, Estados Unidos e Europa, tornando-se uma das principais ameaças à segurança do hemisfério.
Segundo reportagens da imprensa, a operação foi precedida por meses de troca de informações de inteligência entre autoridades venezuelanas e americanas, incluindo o uso de recursos avançados de vigilância para confirmar a localização do chefe criminoso antes da operação.
Além da neutralização de um dos criminosos mais procurados da região, a operação demonstra como a troca de informações pode aumentar a eficácia das ações contra organizações que operam em vários países.
Para a população venezuelana, enfraquecer o TdA também significa reduzir a capacidade de uma organização envolvida há anos em extorsão, sequestro, tráfico de pessoas, tráfico de drogas e mineração ilegal.
“Eles reduziram as receitas e os recursos financeiros provenientes dessas atividades ilegais, por exemplo, do tráfico de drogas e do ouro”, afirma Ocando.
Combate às finanças da corrupção
A cooperação também se estendeu ao âmbito judicial.
A extradição de Alex Saab representa um dos casos de maior destaque nos esforços para perseguir redes internacionais de corrupção e lavagem de dinheiro ligadas à Venezuela.
As autoridades americanas sustentam que Saab desempenhou um papel central em esquemas destinados a desviar centenas de milhões de dólares por meio de contratos públicos e mecanismos de evasão de sanções.
Além do caso específico, analistas consideram que esse tipo de cooperação fortalece a capacidade de ambos os países de rastrear ativos ilícitos, desmantelar redes financeiras transnacionais e recuperar recursos desviados pela corrupção.
Para os cidadãos venezuelanos, instituições mais transparentes e maior prestação de contas podem contribuir para que os recursos públicos sejam direcionados para serviços e infraestrutura, em vez de alimentar esquemas de enriquecimento ilícito.
Uma fronteira mais segura
Os avanços também começam a se refletir na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia, que por anos foi um dos principais corredores para o tráfico de drogas, a mineração ilegal, o contrabando e a presença de grupos armados. Após a reunião realizada em abril entre a presidente interina Delcy Rodríguez e o então presidente colombiano Gustavo Petro, ambos os governos intensificaram a coordenação em matéria de segurança e intercâmbio de informações.
Um dos primeiros resultados foi uma maior coordenação entre as autoridades dos dois países em regiões como Catatumbo e o estado de Táchira, onde historicamente operavam o Exército de Libertação Nacional (ELN), dissidências das FARC e outras organizações criminosas.
Segundo Ocando, “os relatórios indicam que os grupos da narcoguerrilha colombiana se retiraram da região”.
Em junho, a Polícia Nacional da Colômbia anunciou o desmantelamento de uma rede de tráfico de drogas ligada ao ELN que utilizava corredores próximos à fronteira com a Venezuela para transportar cocaína para a América Central e a Europa.
Cooperação que beneficia a população
Os benefícios da nova relação bilateral não se limitam ao combate ao crime organizado.
Após o devastador terremoto que atingiu a Venezuela em junho, ambos os países coordenaram esforços para facilitar a chegada de ajuda internacional, operações de busca e resgate e apoio logístico. O episódio demonstrou que os novos canais de comunicação podem servir não apenas para enfrentar ameaças à segurança, mas também para responder com maior rapidez a emergências que afetam diretamente a população.
Embora a cooperação bilateral ainda esteja em um estágio inicial, os avanços recentes indicam uma mudança significativa em relação aos anos anteriores.
A coordenação contra organizações criminosas, o fortalecimento da cooperação judicial e o apoio conjunto em situações de emergência oferecem a possibilidade de melhorar a segurança, fortalecer as instituições e criar condições mais favoráveis para a recuperação econômica e o desenvolvimento do país.
“Acredito que o processo atual representa claramente um avanço. Há motivos para acreditar que a democratização da Venezuela é possível”, conclui Ocando.