À medida que as ameaças transnacionais ampliam seu alcance para além das fronteiras e jurisdições, os países do hemisfério recorrem cada vez mais à cooperação, à interoperabilidade e às alianças de confiança para fortalecer suas capacidades de resposta. Nesse contexto, o Fuerzas Comando evoluiu para além de uma competição de operações especiais para se tornar uma plataforma que promove as relações profissionais, mecanismos de coordenação e o entendimento operacional necessários para enfrentar desafios comuns de segurança.
O Paraguai sediará a edição de 2026 do exercício multinacional, que reunirá forças de operações especiais e altos líderes militares das Américas e do Caribe. Embora a competição seja conhecida por seus exigentes provas táticas, os líderes de segurança concordam que seu valor duradouro reside no fortalecimento das redes de confiança que permitem aos países parceiros atuar em conjunto quando surgem crises.
Organizado pelo Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), o Fuerzas Comando avalia capacidades como tiro de precisão, resistência física, navegação terrestre, combate urbano e resgate de reféns. O exercício também inclui um seminário de liderança sênior, no qual comandantes e autoridades de segurança compartilham experiências e analisam desafios que cada vez mais ultrapassam as fronteiras nacionais.
Espera-se a participação de delegações da Argentina, Belize, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Jamaica, México, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Estados Unidos na edição de 2026, prevista para meados de agosto.
Além da competição

Embora o Fuerzas Comando seja amplamente conhecido por suas exigentes provas físicas e táticas, sua evolução reflete mudanças mais amplas no cenário de segurança regional, afirmou ao Diálogo o General de Brigada Fredy Roberto Oviedo Cáceres, do Exército do Paraguai, comandante das Tropas Especiais e coordenador geral do Fuerzas Comando Paraguai 2026.
“A evolução do Fuerzas Comando reflete a transformação da segurança hemisférica. As organizações criminosas operam por meio de estruturas que integram o tráfico de drogas, a lavagem de dinheiro, o tráfico ilícito, a corrupção, o contrabando e a logística transfronteiriça, adaptando-se rapidamente à pressão estatal”, explicou.
Segundo o Gen Bda Oviedo, essas mudanças também deslocaram o foco do exercício para além da competição em si, direcionando-o para o fortalecimento das capacidades coletivas de resposta. Essas capacidades se baseiam na interoperabilidade, no planejamento coordenado e na preparação conjunta, elementos essenciais para enfrentar ameaças que operam como estruturas regionais interconectadas.
A confiança como multiplicador de força
Para o Gen Bda Oviedo, uma das principais contribuições do exercício reside na construção de relações profissionais entre as forças participantes.
“A confiança entre forças especiais, comandos militares e órgãos de segurança tem tanto peso quanto a habilidade tática. Quando esse vínculo existe, a informação flui mais rapidamente e a reação diante de uma crise é quase imediata. Qualquer falha na coordenação é terreno fértil para o adversário”, afirmou.
Esses laços não se dissolvem quando o exercício termina. “Os contatos profissionais, a credibilidade institucional e o conhecimento mútuo perduram e permanecem como um capital ao qual se pode recorrer para futuros treinamentos ou respostas conjuntas a emergências”, sustentou.
Segundo o Gen Bda Oviedo, o valor dessas relações reside em sua capacidade de complementar e fortalecer as capacidades operacionais. “A vantagem não decorre apenas de contar com unidades altamente capacitadas, mas de articulá-las dentro de uma rede regional que atue de forma coesa. Nesse contexto, a confiança atua como um multiplicador de força: potencializa o que cada país já possui”, afirmou.
Paraguai e a cooperação regional

Organizar o Fuerzas Comando 2026 representa também uma oportunidade para que o Paraguai amplie sua participação na arquitetura de segurança do hemisfério.
“Ser anfitrião do Fuerzas Comando representa uma oportunidade para projetar liderança regional, fortalecer alianças e consolidar o papel do Paraguai na cooperação hemisférica em matéria de segurança”, destacou o Gen Bda Oviedo. A sede, acrescentou ele, posiciona o país “como um ator comprometido com a segurança cooperativa, diante de ameaças cada vez mais móveis e mutáveis”.
O coordenador-geral destacou que a localização do Paraguai, no centro da América do Sul e com fronteiras com a Argentina, a Bolívia e o Brasil, expõe o país a ameaças de caráter transfronteiriço. Essas contingências exigem uma articulação constante entre instituições nacionais e parceiros regionais.
O Gen Bda Oviedo ressaltou que a interoperabilidade promovida pelo Fuerzas Comando se baseia na coordenação entre as forças participantes. “A interoperabilidade não significa uniformidade nem dependência operacional, mas sim a capacidade de agir em conjunto quando as circunstâncias assim o exigirem. E ela produz melhores resultados quando se apoia em instituições sólidas, capazes de garantir a cada país autonomia para resolver suas próprias necessidades de segurança”, explicou.
Construindo uma rede de segurança mais conectada
Para o Gen Bda Oviedo, exercícios como o Fuerzas Comando tornam-se cada vez mais relevantes à medida que as ameaças evoluem e passam a operar em múltiplas jurisdições.
“O objetivo de exercícios como o Fuerzas Comando é que a região deixe de funcionar como um conjunto de capacidades isoladas e passe a operar como uma rede de parceiros que cooperam de forma eficaz. Se as ameaças atuam como sistemas interconectados, a resiliência regional dependerá de manter os laços de confiança, interoperabilidade e coordenação no mesmo ritmo que elas evoluem”, concluiu.
Para os países participantes, o valor do Fuerzas Comando vai muito além dos resultados da competição. O exercício oferece uma oportunidade para fortalecer canais de comunicação, aprimorar a coordenação e consolidar relações profissionais que possam apoiar futuras respostas multinacionais a desafios de segurança compartilhados.