A China tem ampliado de forma consistente sua presença no setor de minerais críticos da América Latina, investindo em lítio, cobre e outros recursos essenciais para tecnologias avançadas, sistemas de defesa, semicondutores e a transição energética. Acompanhadas de investimentos em portos, corredores de transporte e instalações de processamento, essas iniciativas aumentaram as preocupações com a segurança econômica, a dependência estratégica e a capacidade dos países de manter o controle soberano sobre recursos cada vez mais considerados essenciais para a segurança nacional.
Um relatório da Bloomberg indica que a China mantém interesses minerários em 12 países da região, com presença destacada na Argentina, no Brasil, no Equador, na Guiana e no Peru. A Argentina, que abriga alguns dos maiores recursos de lítio do mundo, concentra o maior número de projetos de mineração chineses, enquanto Brasil e Peru figuram entre os principais destinos de investimentos relacionados ao cobre, ao ferro e a outros minerais essenciais para a indústria e a manufatura avançada.
Diversos centros de análise consideram que a América Latina desempenha um papel cada vez mais relevante nas cadeias globais de abastecimento de minerais críticos. Um estudo do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) aponta que a riqueza mineral da região poderia contribuir para diversificar as cadeias de abastecimento e gerar oportunidades para atividades industriais de maior valor agregado.
Giselle Sanabria, especialista em política de desenvolvimento da Universidade Nacional de La Plata, na Argentina, afirmou à Diálogo que a participação chinesa evoluiu muito além da simples compra de minerais básicos.
“Não estamos mais falando de um simples comprador de matérias-primas, mas de um investidor que deseja se envolver nesse território”, afirmou. Essa presença, explicou ela, permite que a China “ganhe atuação direta em outros setores estratégicos da mesma cadeia”.
Da extração à influência estratégica
A participação chinesa vai muito além das operações de mineração. Um relatório do Coletivo sobre Financiamento e Investimentos Chineses, Direitos Humanos e Meio Ambiente (CICDHA) aponta que empresas chinesas ampliaram sua presença em diferentes etapas da cadeia do lítio por meio de aquisições, parcerias e novos projetos na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile e México.
A relevância vai além do lítio. Argentina, Bolívia e Chile — conhecidos como o Triângulo do Lítio — concentram algumas das maiores reservas de lítio do mundo, enquanto o Chile e o Peru figuram entre os países com maiores reservas de cobre, segundo o portal canadense Investing News Network.
Essa expansão reflete o esforço de Pequim para garantir, no longo prazo, o acesso a matérias-primas que sustentam a inovação tecnológica, a produção industrial, a transição energética e a modernização militar. Segundo o Infobae, o acesso ao lítio, ao cobre e ao nióbio faz parte da estratégia da China para fortalecer as capacidades de manufatura avançada e as indústrias ligadas à defesa.
Para Sanabria, essa estratégia responde a objetivos de longo prazo: “É uma tática de segurança energética nacional e, por outro lado, de manter esse controle da cadeia para garantir a própria segurança”.
O processamento concentra o valor estratégico
Possuir uma mina é apenas parte da equação. O processamento e o refino determinam como as matérias-primas são transformadas em componentes utilizados em baterias, semicondutores, eletrônica avançada, sistemas de energia renovável e tecnologias de defesa.
De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), a China lidera o refino de 19 dos 20 minerais estratégicos do mundo e concentra cerca de 70 por cento da capacidade global de refino. A agência acrescenta que a China domina aproximadamente 94 por cento da fabricação mundial de ímãs permanentes de terras raras, componentes críticos presentes em aeronaves, sistemas de mísseis, veículos elétricos e outras tecnologias avançadas.
Essa concentração tem ampliado a preocupação internacional com a resiliência das cadeias de suprimentos de minerais críticos. As recentes restrições impostas pela China à exportação de determinados minerais críticos e tecnologias de processamento reforçaram os receios quanto aos riscos de concentrar etapas-chave dessas cadeias em um único país e impulsionaram os esforços de governos e indústrias em todo o mundo para diversificar os fornecedores.
Sanabria alertou que alguns países poderão enfrentar maiores dificuldades para preservar sua capacidade de decisão sobre indústrias estratégicas.
“Os mais vulneráveis seriam a Argentina e o Peru”, afirmou, identificando a Bolívia e o Chile como países que dispõem de mecanismos de controle sobre seus recursos.
Na sua opinião, um fator costuma passar despercebido: “O aspecto que passa despercebido é que os governos deveriam ser os responsáveis por estabelecer as regras do jogo”.
Infraestrutura estratégica e acesso aos mercados
A crescente importância dos minerais críticos também elevou o valor estratégico da infraestrutura para transportá-los, processá-los e exportá-los. Portos, redes ferroviárias, sistemas energéticos e corredores logísticos conectam cada vez mais as áreas de extração aos mercados internacionais.
O CSIS destaca que a participação chinesa se estendeu além das operações de mineração para essa infraestrutura, refletindo o esforço de Pequim para garantir não apenas o acesso a recursos estratégicos, mas também aos sistemas de transporte que os movimentam.
Outro relatório do CSIS identificou a participação chinesa em dezenas de projetos portuários na América Latina e no Caribe, incluindo 31 portos em operação. Em um depoimento perante a Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China, o centro alertou que esses investimentos permitem a Pequim ampliar seu acesso a recursos estratégicos, mercados comerciais e localizações geográficas relevantes para seus interesses no hemisfério.
Sanabria citou o porto de Chancay, no Peru, como exemplo de infraestrutura projetada para integrar a extração, o processamento, o transporte e a exportação dentro de uma mesma rede logística.
Como esses minerais são essenciais para a manufatura avançada, a infraestrutura crítica e as tecnologias de defesa, as decisões sobre quem os extrai, processa, transporta e exporta têm implicações estratégicas que vão muito além do setor de mineração.
Reforçar a soberania por meio da diversificação
Diante desse cenário, analistas afirmam que os países latino-americanos precisam de estratégias mais coordenadas para proteger seus interesses de longo prazo. Segundo o jornal espanhol El País, os governos podem fortalecer sua posição diversificando suas alianças internacionais, estabelecendo exigências contratuais mais rigorosas e reforçando as capacidades estatais para supervisionar projetos de mineração e de infraestrutura em grande escala. Uma maior coordenação regional também poderia contribuir para harmonizar os marcos fiscais, ambientais e trabalhistas durante as negociações com a China.
O controle dos minerais que alimentam a eletrônica avançada, as baterias, as aeronaves, os sistemas de comunicação e as plataformas de armas influenciará cada vez mais a capacidade industrial e militar, a inovação tecnológica e a autonomia estratégica.
À medida que a China amplia sua presença em todas as etapas da cadeia de valor dos minerais críticos — da extração e do processamento aos portos e corredores logísticos —, os governos latino-americanos enfrentam uma pressão crescente para garantir que esses recursos estratégicos permaneçam alinhados às prioridades nacionais e não a interesses externos. Diversificar parceiros, fortalecer a capacidade de negociação e proteger a infraestrutura crítica tornam-se cada vez mais importantes não apenas para o desenvolvimento econômico, mas também para preservar a soberania sobre ativos que ajudarão a definir o futuro tecnológico e de segurança da região.