Poder brando e portos estratégicos: a expansão da presença midiática da China no Panamá

Nos últimos anos, a China tem acompanhado sua expansão econômica com uma crescente atividade de influência midiática e digital, utilizando a comunicação estratégica como ferramenta para consolidar sua presença em setores-chave como portos, telecomunicações, energia e logística. Por meio de meios de comunicação estatais, embaixadas, redes sociais e parceiros locais, Pequim promove narrativas que a apresentam como um parceiro confiável e um motor de desenvolvimento.

Essas campanhas não buscam apenas melhorar a imagem da China, mas também moldar o ambiente político e social no qual são debatidos projetos ligados a infraestruturas estratégicas. O objetivo é reforçar o consenso em torno dos investimentos chineses e reduzir a atenção pública sobre os possíveis riscos relacionados à dependência econômica, ao controle de infraestruturas estratégicas e a questões de segurança.

“Pequim vem moldando progressivamente o debate público e as orientações políticas de maneiras que desincentivam uma análise crítica das dependências estratégicas, dos riscos para a governança e das preocupações de segurança associadas aos principais investimentos chineses”, explica a Diálogo Martin Vladimirov, diretor de programa do Centro para o Estudo da Democracia, sediado na Europa.

O caso do Panamá, no entanto, revela uma evolução particularmente significativa dessa estratégia. Durante anos, a presença chinesa nos portos de Balboa e Cristóbal foi acompanhada por narrativas centradas na cooperação, na modernização e no crescimento econômico. Após o rompimento do Panamá com a Iniciativa   Cinturão e Rota (BRI) e a decisão da Suprema Corte de declarar inconstitucionais as concessões da Panama Ports Company, o discurso chinês tornou-se notavelmente mais confrontador, gerando preocupação sobre à forma como Pequim poderá reagir futuramente quando seus interesses estratégicos forem questionados na região.

A batalha da narrativa sobre os portos

O navio porta-contêineres Navios Constellation navega sob bandeira da Libéria após deixar o Porto de Balboa, na Cidade do Panamá, em 8 de abril de 2026. Um dia antes, uma subsidiária do conglomerado de Hong Kong CK Hutchison informou que entrou com um pedido de arbitragem contra a empresa de navegação Maersk, em relação às suas operações portuárias no Panamá (Foto: Martin Bernetti/AFP)

A disputa em torno dos portos de Balboa e Cristóbal marcou uma virada na comunicação chinesa no Panamá. Após a saída do país da BRI, o fortalecimento das relações com Washington e a decisão judicial de janeiro de 2026 contra a Panama Ports Company, controlada pelo grupo de Hong Kong CK Hutchison, as mensagens provenientes da mídia estatal chinesa e dos canais diplomáticos assumiram tons muito mais agressivo.

Segundo a narrativa promovida por Pequim, as decisões panamenhas não seriam resultado de uma escolha autônoma, mas consequência das pressões exercidas pelos Estados Unidos. Paralelamente, a CK Hutchison passou a ser retratada como vítima de uma injustiça e de uma violação do Estado de Direito, enquanto as autoridades chinesas têm insistido na necessidade de proteger os “direitos e interesses legítimos da empresa”.

Como observa Vladimirov, “no Panamá, Pequim apresentou as críticas ao envolvimento chinês em infraestruturas estratégicas como motivadas por razões políticas ou pela competição geopolítica”.

Essa abordagem representa uma evolução em relação ao modelo identificado em 2025 por um relatório da Expediente Abierto. O estudo apontava três pilares da comunicação chinesa no país: a China como parceira histórica, graças à presença da comunidade sino-panamenha há mais de 170 anos; como motor do desenvolvimento econômico e de infraestrutura; e como alternativa à influência dos Estados Unidos.

Por meio de uma rede composta pela Xinhua, pela CGTN Español, pela embaixada chinesa e por diversos amplificadores locais, os investimentos portuários e logísticos eram apresentados como instrumentos de crescimento e modernização. A crise das concessões não alterou os objetivos centrais da comunicação chinesa, mas mudou seus tons. Temas como soberania nacional e interferências históricas dos Estados Unidos, já presentes na narrativa anterior, passaram a ocupar posição central no debate.

Segundo Vladimirov, no entanto, essa fase pode ser temporária. “Com o tempo, espero que a China aposte, em vez disso, em incentivos econômicos, parcerias comerciais e compromisso diplomático para preservar sua posição. O Panamá é importante demais como centro logístico e comercial para a China”.

O caso panamenho é particularmente relevante porque reúne infraestrutura logística crítica, conectividade marítima global e uma posição geográfica de importância estratégica para o comércio internacional. Nesse contexto, o debate sobre portos, concessões e investimentos ultrapassa o âmbito econômico e passa a envolver também questões de soberania,  resiliência institucional e  proteção de infraestruturas estratégicas.

Uma estratégia que vai além do Panamá

A experiência panamenha não é um caso isolado. Em toda a América Central e no Caribe, a expansão econômica chinesa tem sido acompanhada por um esforço de comunicação destinado a reforçar sua legitimidade política e social.

Em El Salvador, por exemplo, a construção do novo Estádio Nacional e do píer turístico de La Libertad foi apresentada como uma demonstração concreta da contribuição chinesa para o desenvolvimento do país. A comunicação oficial chinesa também destacou a cooperação com o governo salvadorenho nas áreas de segurança, tecnologia e educação.

Na Costa Rica, por sua vez, a estratégia concentrou-se na diplomacia cultural, nos intercâmbios acadêmicos e no setor de telecomunicações. A controvérsia em torno da exclusão da Huawei e de outros fornecedores chineses da rede 5G nacional tem sido frequentemente retratada pela mídia e por canais alinhados a Pequim como um exemplo de pressão geopolítica.  As autoridades costarriquenhas, entretanto, sustentam que as restrições decorrem de normas de segurança cibernética que exigem que os fornecedores de infraestrutura crítica de telecomunicações sejam provenientes de países signatários da Convenção de Budapeste sobre o Crime Cibernético, requisito que a China não atende.

Ainda mais relevante é o caso de Cuba. Na ilha, a presença chinesa se estende às telecomunicações, por meio do papel desempenhado pela Huawei e pela ZTE nas redes de comunicação; às infraestruturas portuárias e aeroportuárias, por meio da Nuctech; e ao setor energético, onde Pequim investiu na modernização da rede elétrica e na construção de novas usinas solares.  Soma-se a isso uma estreita cooperação midiática entre os meios de comunicação estatais cubanos e chineses, que inclui intercâmbio de conteúdo, coproduções e convergência narrativa.

Infraestrutura e informação

Segundo os analistas, um dos aspectos mais preocupantes da estratégia chinesa é sua capacidade de integrar as dimensões econômica e   informativa. Investimentos e narrativas avançam, de fato, de forma paralela.

Ao mesmo tempo em que amplia sua presença comercial, Pequim consolidou uma rede que envolve embaixadas, meios de comunicação estatais, institutos culturais, universidades, centros de pesquisa e interlocutores locais. Esses atores contribuem para difundir mensagens favoráveis aos investimentos chineses e para reforçar a imagem da República Popular da China como parceira confiável e indispensável para o desenvolvimento regional.

Segundo Vladimirov, a influência chinesa é exercida tipicamente por meio de uma rede de atores que se reforçam mutuamente. “A mídia estatal e as embaixadas estabelecem parcerias com figuras políticas locais e atores do setor comercial para amplificar as narrativas que promovem os investimentos chineses e retratam a China como um parceiro de desenvolvimento confiável.”

Para os especialistas, a principal preocupação é que essas narrativas contribuam para normalizar dependências estratégicas e limitar o debate público sobre os custos geopolíticos, econômicos e de segurança associados ao controle de infraestruturas críticas. Como destaca Vladimirov, “essas dependências podem se transformar, com o tempo, em alavancas econômicas e políticas difíceis de eliminar”.

Para combater a propaganda e as campanhas de influência, conclui o especialista, é fundamental fortalecer a mídia independente e promover mecanismos de verificação de fatos capazes de identificar narrativas enganosas ou coordenadas. Também é necessário ampliar a transparência sobre quem financia e divulga determinados conteúdos, bem como desenvolver capacidades institucionais para monitorar operações de influência estrangeira.

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