As principais figuras do regime venezuelano, incluindo três indivíduos que são procurados pelos tribunais dos EUA desde 2020, são acusadas de participar de uma conspiração narcoterrorista, transformando a Venezuela em uma empresa criminal ao serviço de traficantes de drogas e grupos terroristas e roubando bilhões do país sul-americano.
A lista é encabeçada pelo autócrata Nicolás Maduro, agora alvo de uma recompensa de US$ 50 milhões dos EUA. O Departamento de Justiça dos EUA também apresentou acusações de tráfico de drogas e conspiração para transportar substâncias controladas contra o General Vladimir Padrino, das Forças Armadas Bolivarianas, ministro da Defesa de Maduro, bem como contra Diosdado Cabello Rondón, que atua como ministro do Interior, Justiça e Paz do regime e vice-presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela. Ambos também enfrentam acusações do crime de posse ilegal de armas de fogo e dispositivos explosivos.
Com o passar dos anos, o papel de Maduro na organização criminosa transnacional (OCT) conhecida como Cartel dos Sóis –cujo nome vem da insígnia do sol usada pelos generais venezuelanos em suas dragonas – tornou-se cada vez mais significativo. A influência e o envolvimento direto de Maduro no tráfico de drogas na OCT eclipsam as estimativas anteriores. Em 2025, vários países do hemisfério designaram oficialmente o Cartel dos Sóis como uma organização terrorista. Essa ação reforça a avaliação de que Maduro é o principal líder da rede, uma opinião amplamente divulgada na mídia desde 2020.
A condenação de operadores de alto valor fornece uma corroboração crucial da natureza criminosa do regime. O julgamento bem-sucedido de Carlos Orense Azócar, conhecido como el Gordo, demonstrou as operações da OCT, detalhando como ele conspirou com membros do Cartel dos Sóis e oficiais militares venezuelanos corruptos para transportar toneladas de cocaína. Azocár foi extraditado da Itália em 2022 e posteriormente condenado por tráfico de drogas em um tribunal de Nova York, em dezembro de 2023.
As provas apresentadas durante esse processo revelaram, entre outras coisas, que em 2006 Maduro recebeu US$ 5 milhões de seus parceiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Esses fundos, indica o documento, foram lavados por meio da compra de equipamentos de processamento de óleo de palma, procedente da Malásia.
Ao assumir a liderança do regime da Venezuela em 2013, Maduro teria concordado com o líder máximo das FARC, Luciano Marín Arango, conhecido como Iván Márquez, em continuar fornecendo armas em troca de drogas e treinando grupos armados não estatais em um campo no estado de Zulia, na fronteira com a Colômbia.
Testemunhos judiciais e documentos legais afirmaram ainda que pelo menos uma dessas entregas de armas ao grupo criminoso em 2015 envolveu a participação direta de Diosdado Cabello. Lá, os guerrilheiros receberam metralhadoras, munições e lançadores de foguetes. “Cabello e outros discutiram o fato de que as armas eram um pagamento parcial pela cocaína que as FARC haviam entregue a membros do Cartel dos Sóis”, afirma o documento. Maduro nomeou Cabello como seu ministro do Interior, Justiça e Paz por Maduro em agosto de 2024, colocando um suposto líder do cartel à frente do aparato de segurança do país.
Outros oficiais militares de alto escalão envolvidos nessa estrutura criminosa incluem os generais de brigada Clíver Alcalá Cordones e Hugo Carvajal. O primeiro foi condenado em abril a 21 anos de prisão após assinar um acordo judicial, enquanto Carvajal (antigo czar da inteligência venezuelana) se declarou culpado de acusações de narcoterrorismo e tráfico de drogas em junho de 2025 e aguarda sentença nos EUA.
Estrutura de poder
A organização hierárquica do Cartel dos Sóis não é tradicional. Ela é composta por um corpo de células ilegalmente incorporadas nos principais ramos das Forças Armadas Venezuelanas, incluindo o Exército, a Marinha, a Força Aérea e a Guarda Nacional Bolivariana. De acordo com InSight Crime, organização dedicada ao estudo do crime organizado na América Latina, “Essas células operam de forma autônoma, sem uma estrutura de comando clara, o que dificulta a identificação de uma cadeia de comando clara.”
O Cartel dos Sóis não só formou alianças com as FARC, mas também com dissidentes das FARC e o Exército de Libertação Nacional (ELN), que são os principais fornecedores de drogas na Venezuela, afirman os especialistas. Essas alianças lhes permitem manter um fluxo constante de cocaína e outros produtos ilícitos.
O Cartel dos Sóis tem uma forte presença nos estados fronteiriços com a Colômbia, como Apure, Zulia e Táchira, onde se concentra a maior parte da atividade do narcotráfico. A Guarda Nacional Bolivariana desempenha um papel crucial no controle dessas áreas e na proteção das rotas do narcotráfico, informa InSight Crime.
“O principal papel dos militares venezuelanos envolvidos no narcotráfico é permitir a passagem segura de carregamentos de cocaína e aprovar a chegada e a saída de aeronaves que transportam as drogas para outros países”, acrescenta InSight Crime. Essa organização tem facilitado o contrabando de cocaína para os Estados Unidos há mais de 20 anos, afirmam especialistas.
Segundo Carlos Tablante, ex-presidente da Comissão Nacional contra o Uso Ilícito de Drogas (Conacuid) e ex-membro da Assembleia Nacional Constituinte de 1999 da Venezuela, o que estamos vendo agora transcende uma mera conspiração para traficar drogas, pois se trata de todo um regime incorporado a atividades ilegais, que está “enraizado no poder”.
“O regime venezuelano mantém um Estado criminoso, onde um componente das atividades criminosas é o tráfico de drogas. Mas não sei se é o mais importante ou, de qualquer forma, não era o mais importante quando tínhamos rendimentos provenientes da produção de petróleo e do negócio de câmbio diferencial”, advertiu Tablante à Diálogo em uma entrevista em agosto de 2024.
Com a redução da produção de petróleo, o tráfico de drogas adquiriu maior relevância. “Não tenho dúvidas de que os membros do Cartel dos Sóis são os principais operadores dessa estrutura cleptocrata”, reiterou.
Observação: este artigo é uma versão revisada e atualizada de uma reportagem publicada originalmente em setembro de 2024.


