À frente do Comando Conjunto das Forças Armadas do Equador desde dezembro de 2023, em um momento crítico da história do seu país, o Almirante de Esquadra Jaime Patricio Vela Erazo tem, entre seus muitos desafios, o de manter o ritmo operacional das Forças Armadas, para acabar com os grupos criminosos transnacionais e devolver a segurança à população. Diálogo teve a oportunidade de conversar com o Alte Esq Vela sobre suas prioridades, desafios e a colaboração com os Estados Unidos, entre outros temas, durante a Conferência Sul-Americana de Defesa (SOUTHDEC), realizada no Chile, em agosto.
Diálogo: Alte Esq Vela, o senhor lidera o Comando Conjunto das Forças Armadas do Equador desde dezembro de 2023. Quais foram seus maiores desafios e prioridades até agora?
Almirante de Esquadra Jaime Patricio Vela Erazo, chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Equador: O maior desafio que enfrentei até agora, após oito meses no cargo, foi manter o ritmo operacional das Forças Armadas na luta contra os grupos terroristas e os grupos armados organizados relacionados ao crime organizado transnacional. Nesse contexto, minhas prioridades têm sido exercer uma liderança assertiva com o pessoal, fornecer às forças os meios necessários para sustentar as operações e intercambiar informações com as nações parceiras.
Diálogo: Como os seus quase 40 anos de experiência a serviço da Marinha do Equador o prepararam para esse cargo?
Alte Esq Vela: Durante o serviço em qualquer ramo das forças armadas, a instituição nos oferece capacitação, treinamento e aperfeiçoamento permanentes por meio de diferentes cursos. Da mesma forma, minha permanência em unidades operacionais e administrativas me proporcionou um amplo espectro sobre o planejamento militar para tempos de paz, crise, conflito ou guerra. Atualmente, meu país está passando por um conflito armado não internacional, sem precedentes no hemisfério. As Forças Armadas do Equador estão respondendo a esse desafio com firmeza, compromisso e profissionalismo, que são pilares fundamentais que nossa instituição cultiva em todos nós que fazemos parte dela.
Diálogo: O Equador tem sido assolado por uma onda de violência, o que levou o presidente Daniel Noboa a declarar um “conflito armado interno” em janeiro. Em julho, o presidente Noboa decretou novamente estado de emergência, por terceira vez neste ano. Como tem sido a coordenação com a Polícia Nacional, para neutralizar o crime organizado que ameaça o país e seus cidadãos?
Alte Esq Vela: Desde o início das operações, após a declaração do conflito armado não internacional ou conflito armado interno, foi criado o que chamamos de “Bloco de Segurança”, formado pelas Forças Armadas e pela Polícia Nacional. Os planos que tínhamos separadamente foram atualizados para gerar planos totalmente coordenados, a fim de gerar sinergia nas operações e sermos mais contundentes em nossa luta contra os grupos terroristas e o crime organizado transnacional.
Diálogo: Em março, a Força Aérea Equatoriana recebeu sua primeira aeronave C-130 Hercules, entregue pelos Estados Unidos. Como essa aeronave beneficia as operações das Forças Armadas?
Alte Esq Vela: Essa aeronave, após efetuar a fase de treinamento, tornou-se uma ferramenta muito importante nas operações que realizamos. Transporte de tropas, transporte de materiais, peças de reposição e até mesmo evacuações médicas são as tarefas que o C-130 tem realizado.
Ele completou mais de 158 missões em 172 horas de voo, transportou por todo o Equador mais de 117.372 libras [53.240 quilos], um total de 5.950 passageiros e 26.700 libras [12.111 kg] de drogas apreendidas para serem processadas.
Diálogo: Seu parceiro, a Guarda Nacional de Kentucky, também tem aeronaves C-130 entre seus ativos, o que é vantajoso para os intercâmbios de conhecimentos. Que outros tipos de intercâmbios realizam com seu parceiro dos EUA no âmbito do programa de parceria estatal do Departamento de Defesa dos EUA?
Alte Esq Vela: A cooperação com a Guarda Nacional de Kentucky é benéfica para os interesses das Forças Armadas, promovendo e consolidando, entre outras coisas, a colaboração em questões de treinamento e fornecimento de equipamentos para operações militares em uma ampla gama, bem como em termos de intercâmbio de experiências, capacitação em respostas a desastres naturais, capacitação em resposta a crises etc.
Como exemplo, somente neste ano já tivemos dois intercâmbios de especialistas em território equatoriano; o primeiro foi na Brigada de Forças Especiais “Patria”, onde chegou uma equipe de especialistas em operações em centros de detenção, o que é altamente propício para questões de segurança. O segundo foi com a participação de uma equipe de especialistas em primeiros socorros e atendimentos a feridos em combate na Brigada de Infantaria “Pichincha”, para realizar intercâmbio de experiências e capacitação nessa área.
Diálogo: Os Estados Unidos e o Equador colaboram para combater o narcotráfico e as atividades do crime organizado, especialmente ao longo da fronteira com a Colômbia. Entre os vários instrumentos assinados por Equador e Estados Unidos está o Acordo sobre o Estatuto das Forças, que permite o aprofundamento das relações militares entre os dois países. Como tem sido o apoio dos EUA e, mais especificamente, do Comando Sul (SOUTHCOM), nesse sentido?
Alte esq Vela: Além de qualquer acordo que possa ter sido assinado, acredito que o apoio dos EUA ao nosso país ficou evidente com as contínuas demonstrações de amizade por parte da General de Exército Laura J. Richardson [comandante do SOUTHCOM até 7 de novembro de 2024]. Sem dúvida, seu interesse demonstrado, tanto em sua visita ao Equador, quanto em suas declarações em nível hemisférico, relacionadas ao que está acontecendo em meu país, são prova da importância que ela atribui às nossas relações bilaterais.
Estas são algumas das formas concretas nas quais se manifesta esse apoio:
- Treinamento militar em interdição marítima, inteligência, operações especiais e combate ao crime organizado. Isso permitiu que o Equador fortalecesse sua capacidade de detectar e combater o tráfico de drogas.
- Quanto ao equipamento militar, foram entregues vários equipamentos, como embarcações de patrulha, veículos, armas e sistemas de comunicação, para melhorar a capacidade das forças equatorianas para operar em ambientes desafiadores, como o Oceano Pacífico.
- Intercâmbio de inteligência.
- Assessoria técnica.
Diálogo: Outra ameaça que o Equador enfrenta é a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada (INN). A China é a maior culpada, porque representa uma das maiores ameaças aos ecossistemas marinhos, pois esgota a capacidade dos países de alimentar sua população. Que progressos foram feitos para monitorar e impedir a pesca INN?
Alte Esq Vela: Em termos de pesca INN, conseguimos consolidar o Exercício da Autoridade Marítima “GALAPEX”, que este ano teve sua terceira edição, com a participação ativa de vários países da região, bem como da Europa, Ásia e até mesmo de organizações como a União Europeia e o Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC). Buscamos enfrentar esse flagelo de forma regional e temos feito grandes progressos nessa luta, entendendo que, possivelmente, dentro dessas ações ilícitas, outras atividades ilegais podem estar escondidas. Trouxemos para esta reunião [SOUTHDEC] uma iniciativa para incrementar o intercâmbio de informações sobre a frota pesqueira de bandeira estrangeira, que permanece no hemisfério sul ocidental, desde o domínio marítimo da Argentina até o Equador, especialmente perto das Ilhas Galápagos, passando pelos domínios marítimos do Chile e do Peru.
Diálogo: Que progressos foram feitos quanto à defesa cibernética?
Alte Esq Vela: Em 2020, o Equador foi aceito como membro permanente do Fórum Ibero-Americano de Defesa Cibernética (FIC), através do qual participamos de sessões para articular ações que permitam fortalecer a segurança hemisférica do ciberespaço, além de compartilhar informações sobre ameaças cibernéticas comuns, que afetam os Estados membros. Em 2021, fizemos parte do Fórum de Defesa Cibernética da Junta Interamericana de Defesa, bem como da Equipe de Resposta a Incidentes de Segurança Informática das Américas (CSIRT) e do Comitê Interamericano contra o Terrorismo (CICTE-OEA), instrumentos por meio dos quais se consolida a cooperação regional no âmbito da defesa cibernética.
A partir de 2021, o componente de defesa cibernética foi incluído no Memorando de Entendimento (MOU), que permite que o Comando de Defesa Cibernética faça parte do programa de capacitação da Guarda Nacional de Kentucky. No âmbito desse programa, as Forças Armadas são treinadas em táticas, técnicas e procedimentos de defesa cibernética, onde o Equador foi considerado sede de dois exercícios cibernéticos em 2023 e 2024, como parte do exercício multinacional Resolute Sentinel.
Durante as operações internas, o Comando de Defesa Cibernética conseguiu desmantelar várias redes de dados em centros de detenção, as quais são usadas por grupos criminosos organizados, conhecidos como terroristas, para cometer crimes transnacionais por meio do espaço cibernético.
Graças ao apoio de um especialista em infraestrutura crítica dos EUA, o Comando de Defesa Cibernética desenvolveu em 2023 a infraestrutura crítica digital do setor de defesa e a metodologia para catalogar a infraestrutura crítica digital do Estado, que está atualmente em desenvolvimento com 16 órgãos estatais.


