Irã aumenta presença na América Latina em aliança com o crime organizado

Irã aumenta presença na América Latina em aliança com o crime organizado

Por Diálogo
setembro 14, 2021

O Irã aumentou sua influência na América Latina com uma dupla ameaça: ideologia extremista e aliança com grupos criminosos. Segundo os analistas, Teerã mantém negócios ilícitos com a Venezuela, apoia a penetração do grupo terrorista Hezbollah na região e se beneficia da mineração ilegal.

“O crime organizado é uma peça fundamental na exportação do jihadismo, especialmente quando a própria
República Islâmica está sob fortes sanções”, disse à Diálogo Luis Fleischman, professor de Sociologia em Palm Beach State College, Flórida, e especialista em Relações Internacionais.

Fleischman explica que as atividades do Irã têm três componentes principais: criminoso, estratégico e de propaganda. “Os próprios barcos, aviões e empresas de transporte iranianos são utilizados para traficar drogas e álcool, contrabandear petróleo, lavar dinheiro e realizar tráfico de armas.”

Da mesma forma que o Irã recebe dinheiro da produção de ópio no Afeganistão, fornecendo armas para os talibãs em troca, na América Latina o país enviou armas e dinheiro para a Venezuela, afirmou Fleischman. “A Venezuela é um enorme narcoestado que se associou com o Irã para promover suas próprias atividades criminosas.”

O Teerã também se beneficiou com a venda ilícita de ouro do regime de Nicolás Maduro. De acordo com o especialista em segurança Douglas Farah, o Irã recebeu US$ 500 milhões em lingotes de ouro de Maduro em troca de mais de 1,5 milhão de barris de petróleo e reparos nas instalações da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA). “Face ao endurecimento das sanções internacionais [a Caracas e Teerã], o Irã agora se tornou o parceiro preferido de Maduro para a venda de ouro ilícito”, disse Farah em um relatório publicado no dia 13 de agosto de 2020 pelo Conselho do Atlântico.

Um trabalhador da petrolífera estatal venezuelana PDVSA agita uma bandeira iraniana enquanto o petroleiro de bandeira iraniana Fortune atraca na refinaria El Palito, em Porto Cabello, no estado de Carabobo, norte da Venezuela, no dia 25 de maio de 2020. (Foto: AFP)

Apoio ao Hezbollah

O componente criminoso das atividades do Irã na região inclui o apoio ao grupo terrorista Hezbollah. “Nas últimas décadas, o Hezbollah construiu uma máquina de lavagem de dinheiro e narcotráfico multimilionária e bem engendrada na América Latina”, disse Emanuele Ottolenghi, pesquisador sênior da Fundação para a Defesa das Democracias, em um relatório publicado no dia 14 de julho de 2021 pela instituição.

Segundo Ottolenghi, uma das principais figuras dessa rede criminosa é o cidadão libanês Nasser Abbas Bahmad, que em 2016 fundou no Paraguai uma organização que traficava cocaína da Cidade do Leste. A droga era camuflada em contêineres de carvão exportados para países como Argentina, Espanha e Malásia.

Bahmad abandonou o Paraguai em dezembro de 2017, sem deixar vestígios, e sua organização foi desmantelada em janeiro de 2021 por organismos de segurança no Brasil, Paraguai e Estados Unidos.

“A história de Bahmad mostra como o Hezbollah estabeleceu sua maior organização de lavagem de dinheiro na América Latina”, disse Ottolenghi, que estima que o Hezbollah movimente pelo menos US$ 300 milhões anuais através de sua ampla rede de negócios ilegais na América Latina. O grupo terrorista recebe outros US$ 700 milhões por ano do Irã, segundo um relatório de 2018 do Departamento do Tesouro dos EUA. “É provável que a cifra real seja várias vezes maior”, acrescentou.

O Hezbollah também arrecada fundos na América Latina através de uma rede informal de famílias libanesas. “A tomada de controle por parte do Hezbollah da comunidade xiita local não é única. Com a ajuda do Irã, o que ocorreu na Tríplice Fronteira [Argentina, Brasil e Paraguai] ocorreu em toda a diáspora libanesa xiita”, ressaltou Ottolengui. “Mas a Tríplice Fronteira, com sua economia ilícita multimilionária, oferece uma oportunidade única para lavagem de dinheiro.”

Estratégia e propaganda

O componente estratégico das atividades do Irã na região significa uma ameaça direta à segurança dos EUA, adverte Fleischman.

A República Islâmica também utiliza propaganda para convencer e cooptar comunidades locais. “O Irã tentou ganhar influência na região entre as massas, transmitindo a mensagem de que a luta do islã e a luta dos movimentos sociais e políticos pela justiça social na América Latina são idênticas”, disse Fleischman.

O analista explica que o Irã usa clérigos e mesquitas que espalham o conceito denominado ‘islã nacional e popular’, para construir uma ponte entre o islã e os movimentos populistas revolucionários na América Latina. O objetivo é criar uma versão latino-americana do islã, adaptada às circunstâncias de cada país.

O islã poderá ser o “vermelho” ou comunista na Venezuela e em Cuba e seria “plurinacional” (pró-indígenas) na Bolívia e no Equador, explicou o especialista. “Alguns grupos indígenas se identificaram com o Hezbollah e inclusive adotaram seu nome. Um exemplo disso são os índios Wayuu Guajira, que criaram uma ramificação do Hezbollah”, acrescentou Fleischman.

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