A Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) da China, lançada em 2013 para impulsionar seu desenvolvimento global, tem feito progressos na América Latina. No entanto, 12 anos após, o entusiasmo inicial deu lugar a um crescente escrutínio sobre as condições financeiras, a transparência e os impactos socioambientais dos projetos.
Pelo menos 150 países em todo o mundo aderiram à BRI, que canalizou investimentos para portos, ferrovias, estradas e infraestrutura energética, em sua maioria operados por empresas estatais como COSCO Shipping e China Merchants Port. Na América Latina, a China também expandiu sua presença cultural, diplomática e militar, segundo indica o think tank Council on Foreign Relations (CFR).
De acordo com os especialistas, o objetivo de Pequim é expandir sua influência e inserir infraestrutura em países com recursos estratégicos. Desde 2005, o Banco de Desenvolvimento da China e o Exim Bank da China, ambos estatais, emprestaram mais de US$ 120 bilhões a países da região, muitas vezes em troca de recursos estratégicos, indicou o CFR em um relatório. No Forúm da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) em Pequim, Xi Jinping prometeu US$ 9,2 bilhões em crédito para investimentos na região.
As empresas chinesas são conhecidas por aplicar padrões ambientais e trabalhistas baixos, enquanto seu crescente controle de portos e redes de energia representa riscos à segurança. Sua projeção cultural e educacional reforçou sua imagem como um parceiro alternativo, ao mesmo tempo em que fortalece governos autoritários.
“O entusiasmo inicial pela BRI deu lugar a uma fase mais cautelosa, na qual os países estão revisando as condições financeiras, a transparência dos acordos e os impactos socioambientais”, disse Pamela Aróstica Fernández, diretora do think tank Rede China e América Latina (REDCAEM). “Isso reflete um questionamento crescente quanto à relação com Pequim.”
Pelo menos 20 países das Américas assinaram acordos no âmbito da BRI, sendo a Colômbia o último a aderir, em maio. No entanto, o financiamento chinês muitas vezes inclui termos opacos, que geram encargos de dívida capazes de influenciar as políticas nacionais e limitar a autonomia local. Vários projetos associados à BRI também carecem de rentabilidade e muitos não respondem às prioridades de desenvolvimento dos países receptores, nem à agenda internacional.
De aliado a distanciamento
A BRI suscitou preocupações entre alguns governos, levando a mudanças significativas. Em fevereiro, o Panamá notificou Pequim que não renovaria seu memorando com a BRI, tornando-se o primeiro país latino-americano a se retirar formalmente. O governo panamenho questionou os benefícios obtidos desde sua adesão, ressaltando que o acordo não havia produzido resultados tangíveis.
Essa retirada faz parte de uma reavaliação mais ampla. O Panamá está revisando a concessão dos portos de Cristóbal e Balboa, situados na entrada do Canal do Panamá e operados pela empresa CK Hutchison, de Hong Kong. O país também decidiu excluir as empresas chinesas da linha ferroviária planejada entre a Cidade do Panamá e David.
Como exemplo adicional dessa mudança, em junho, o Panamá anunciou a reativação do projeto da Rede Interinstitucional de Micro-ondas, para modernizar as comunicações de suas forças de segurança. O projeto, que conta com o apoio dos Estados Unidos, instalará novas torres em diferentes províncias e substituirá os equipamentos de telecomunicações existentes em 13 lugares, incluindo as torres da Huawei.
“As relações entre a China e a América Latina continuam marcadas por uma forte assimetria, com momentos de inflexão, como a decisão do Panamá de se retirar da BRI”, afirma Aróstica. “A China avaliou o estado das relações na região, definindo em grande parte sua orientação.”
Cautela como estratégia
Ao contrário de outros países que aderiram formalmente à BRI, o Brasil e o México adotaram uma postura cautelosa. De acordo com Aróstica, ambas as nações “buscam preservar sua autonomia, diversificar os laços e evitar uma dependência excessiva, o que reduz a necessidade do financiamento chinês oferecido pela iniciativa”. Isso se deve, em parte, ao fato de que “o México está priorizando seu relacionamento com seu principal parceiro comercial: os Estados Unidos”, acrescentou Aróstica.
No México, pelo menos três projetos com participação da China foram cancelados: o Trem Rápido México-Querétaro, devido à falta de concorrência no processo de licitação, preços excessivos e supostas práticas de corrupção; o centro comercial Dragon Mart, devido a danos ambientais e violações legais; e a Central Hidrelétrica Chicoasén II, devido a conflitos sociais e trabalhistas.
O Brasil, um dos principais receptores dos investimentos chineses, ainda não aderiu formalmente à BRI. De acordo com analistas, o Brasil continua cético quanto aos benefícios da iniciativa.
Os investimentos chineses no Brasil, como o Ferrogrão – uma ferrovia de 933 quilômetros, que conectaria Mato Grosso com o porto de Miritituba, no Pará –, estão causando alarme, devido aos seus impactos em territórios indígenas, áreas protegidas e ecossistemas da Amazônia, bem como ao fortalecimento da influência chinesa em setores estratégicos, informou Infobae.
Da expectativa à revisão
O Equador foi um dos primeiros países da região a aderir à BRI, vendo-a como uma oportunidade para modernizar sua infraestrutura e diversificar suas fontes de financiamento. No entanto, ao longo do tempo, vários projetos apresentaram custos excedentes, falhas técnicas e condições financeiras desfavoráveis.
A usina hidrelétrica Coca Codo Sinclair, construída pela empresa chinesa Sinohydro, a maior do país, enfrentou rachaduras em seus geradores e falhas técnicas desde sua construção, causando apagões e protestos.
De acordo com várias mídias, o governo equatoriano mantém obrigações no valor total de US$ 2,4 bilhões com três bancos estatais chineses, o que levanta preocupações sobre a sustentabilidade fiscal e a dependência de financiamento externo.
Esses fatores levaram o Equador a reavaliar sua cooperação com a China. Embora continue buscando financiamento para projetos de infraestrutura e transição energética, o país está fazendo isso com mais cautela e exigindo mais transparência.
“O caso de Coca Codo Sinclair representa uma lição para a região. É uma mistura complexa: falhas de construção, episódios de corrupção e uma dívida tão alta que o Equador foi forçado a solicitar novos empréstimos, para sair desse ciclo vicioso”, alertou Aróstica. “Esses são fatores que os governos latino-americanos devem considerar, ao avaliar projetos semelhantes.”
Da mesma forma, especificou que a dívida total de mais de US$ 19 bilhões que o Equador mantém com a China “pode condicionar suas políticas energéticas internas. Seria ingênuo pensar que não haveria consequências se essa dívida não for paga”.
“A América Latina deve encarar a BRI com realismo, sem ingenuidade. Os benefícios só serão possíveis se houver contratos transparentes, se as parcerias forem diversificadas e for evitada a dependência de um único parceiro, como a China. Também é essencial fortalecer a capacidade do Estado de avaliar e supervisionar os projetos chineses”, concluiu Aróstica.


