Os projetos da China no Peru vêm alimentando tensões com moradores locais e impactando nas áreas de direitos humanos e meio ambiente. Os casos se dão principalmente onde há maior investimento e exploração da China: em mineração e infraestrutura.
Talvez o caso do Porto de Chancay seja o que mais se destaca. Inaugurado recentemente, em novembro de 2024, e aclamado como um marco na infraestrutura do Peru, o megaporto de Chancay, de propriedade majoritária da empresa estatal chinesa COSCO, atraiu críticas significativas por seu impacto ambiental e social negativo. A construção não apenas danificou a área úmida protegida de Santa Rosa, um ecossistema vital para várias espécies de pássaros, como também destruiu a vida marinha e o habitat com seu processo de dragagem, privando os pescadores das águas das quais dependiam para sua subsistência.
Durante toda a construção do megaporto, os moradores locais também expressaram preocupação com a poluição atmosférica e sonora e com a falta de envolvimento com a comunidade por parte da empresa chinesa, cujas obras danificaram casas e estradas, devido às detonações e explosões para construir a infraestrutura. A construção do porto também prejudicou o turismo de Chancay, pois alterou as correntes de água, afetando as condições de surfe, e contribuiu para a erosão da praia.
“Chancay é um projeto bastante simbólico e de grande importância para a China. A inauguração contou inclusive com a presença de Xi Jinping, presidente da República Popular da China. Trata-se de um megaempreendimento com impactos profundos, sobretudo em comunidades mais vulnerabilizadas, como os pescadores”, diz à Diálogo Laura Waisbich, diretora adjunta de Programas do Instituto Igarapé, um think tank independente do Brasil.
Em um relatório de 2025 para o Instituto da Paz dos Estados Unidos, Juan Pablo Cardenal, pesquisador associado do Centro de Abertura e Desenvolvimento da América Latina, sediado na Argentina, analisou uma série de projetos da China em países da região.
“A presença econômica da China no Peru é baseada em dois pilares – comércio e investimento –, que estão fundamentalmente ligados à mineração. Embora esse sistema gere comércio, receitas fiscais, emprego e infraestrutura, muitos projetos de empresas estatais chinesas são cercados de controvérsia”, diz o relatório. “Vários projetos de mineração chineses no Peru provocaram indignação por causa de seus impactos ambientais, sociais ou trabalhistas.”
Em toda a América Latina, pode-se ver “um padrão de não conformidade do estado chinês com os direitos humanos internacionais e padrões ambientais”. O relatório também destaca a recusa recorrente das autoridades chinesas em interagir com a sociedade civil local para abordar problemas ou melhorar a má reputação das empresas chinesas em relação à responsabilidade social corporativa.
A cidade de Nova Morococha é um exemplo disso. Em 2013, a empresa de mineração chinesa Chinalco relocou a cidade inteira de 5.000 moradores, 12 quilômetros adiante, para abrir espaço para uma mina de cobre. A ação, alardeada na época como uma solução para proteger os moradores da poluição e da degradação ambiental resultantes das práticas de mineração, mais de uma década após mostrou que era uma tragédia.
A Chinalco prometeu reassentar os habitantes em uma nova cidade “construída de zero”, comprometendo-se a fornecer boas moradias, empregos locais, centros educacionais e de saúde, mas a empresa não cumpriu a promessa. O novo local é isolado da rodovia central, foi montado numa área de pântano propensa a inundações, com a população lutando contra a pobreza e o desemprego. Já as famílias que ficaram na antiga Morococha enfrentam assédio diário da Chinalco para deixarem o local, além de tremores constantes, poeira e ruído das explosões.
Joselyn Jaua, uma jornalista peruana que cobre o meio ambiente e as comunidades da região, explicou à plataforma de ativismo social Global Voices que as políticas da Chinalco impactaram profundamente tanto a Velha Morococha quanto a Nova Morococha: “O aumento da pobreza é notório tanto para pessoas realocadas quanto para não realocadas”.
A mina de cobre Las Bambas, na província peruana de Cotabambas, de propriedade da Minmetals Corporation da China (China MMG), que tem um histórico de protestos organizados pelas comunidades locais desde o início de suas operações em 2016, vem enfrentando um descontentamento renovado por parte dos moradores locais que, ao longo de 2024, bloquearam a principal rota de transporte para veículos de mineração, em uma tentativa de fazer com que a empresa atenda às suas demandas por melhores condições de vida. Entre as reclamações estavam pagamentos de indenizações por poluição sonora e poeira e exigências trabalhistas, informou Dialogue Earth.
Anos antes, a empresa estatal chinesa Shougang, que começou a operar uma mina de minério de ferro em San Juan de Marcona, no final da década de 1990, talvez tenha estabelecido um precedente para as ações e controvérsias que cercariam as empresas chinesas no Peru. “O conflito de longa data com a Shougang sobre salários, poluição ambiental e o tratamento dado pela empresa aos moradores da cidade, não combina bem com a visão comemorativa da China sobre seu perfil crescente na América Latina”, escreveu The New York Times em 2010.
Os trabalhadores não só reclamaram dos baixos salários, mas também alegaram que a Shougang havia despejado resíduos químicos no mar. Mais recentemente, em 2023, trabalhadores peruanos alegaram que foram tratados como ‘escravos’. Em vez de investir os prometidos US$ 150 milhões na mina e na infraestrutura da cidade, a empresa optou por pagar uma multa de US$ 14 milhões ao governo peruano por não ter feito isso.
O relatório do Coletivo de Financiamento e Investimentos Chineses, Direitos Humanos e Meio Ambiente, uma coalizão de ONGs, concluiu que as três empresas mineradoras chinesas violaram os direitos humanos de comunidades peruanas no interior do país.
Para Isaac Kardon, pesquisador de estudos sobre a China do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, em Washington, “a América Latina e o Caribe costumam se sentir atraídos pelos investimentos em infraestrutura da China, mas eles têm um preço, porque através deles consolida o acesso a recursos, capta as elites, ganha influência sobre os governos, muda as políticas nacionais a seu favor e mina as normas democráticas, a transparência e os padrões ambientais”.
“A China é um dos maiores parceiros econômicos dos países da região, seja como comprador de commodities, seja como investidor”, diz Waisbich. “A potência do mercado chinês fez com que o comércio regional perdesse vigor; observamos também a desindustrialização (ou reprimarização econômica) em alguns países. No caso de setores estratégicos para a transição ecológica, como energias renováveis e veículos elétricos, observamos uma crescente dependência tecnológica da China (inclusive quando países da região participam das cadeias produtivas, como fonte de minérios)”, concluiu.


