A grave deterioração institucional no Haiti, somada à expansão implacável do controle territorial das gangues, transformou o país em um ponto crucial para as rotas do narcotráfico no Caribe. Essa situação interliga as cadeias de abastecimento da América do Sul com os mercados da América do Norte, através do espaço marítimo caribenho, constituindo um risco crescente para a segurança regional. O Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC) e o Conselho de Segurança emitiram severas advertências sobre essa mudança alarmante na dinâmica criminosa, ressaltando que as gangues agora controlam cerca de 90 por cento da capital e dos pontos marítimos estratégicos.
A erosão sistêmica das capacidades estatais fez com que o Haiti se torne um ponto operacional do tráfico ilícito em grande escala. No início de julho de 2025, foi registrada a maior apreensão de drogas em mais de três décadas, com a confiscação de 1.045 quilos de cocaína na frente da Ilha da Tortuga. Apenas duas semanas após, 426 kg de cannabis foram apreendidos no norte do país, enquanto, no mesmo mês, dois cidadãos haitianos foram presos na Jamaica com mais de 1.350 kg dessa droga, segundo especifica o UNODC.
A cocaína apreendida vinha da América do Sul e tinha como destino o Caribe e os Estados Unidos, acrescentou o UNODC. A agência também documentou cadeias logísticas que chegavam até a Europa. Em agosto de 2025, esse alcance global foi confirmado quando as autoridades belgas apreenderam 1.156 kg de cocaína no porto de Antuérpia, escondidos em um contêiner proveniente do Haiti, após ter sido transbordado em Kingston.
Rotas vulneráveis e controle criminoso
As fronteiras terrestres e marítimas porosas do Haiti, juntamente com sua proximidade com os Estados Unidos, posicionaram o país como um corredor habitual para o narcotráfico. As drogas entram no país por via aérea e marítima a partir da Colômbia e da Venezuela, ou são transportadas por terra através da fronteira com a República Dominicana. Os fluxos ilícitos são facilitados pela grave erosão da presença institucional no Haiti e pelos desafios geográficos inerentes à fronteira de 391 quilômetros, onde muitas rotas ilegais contornam até mesmo os postos de controle mais robustos mantidos pelas autoridades vizinhas.
Armado Rodríguez Luna, membro da consultoria mexicana Nzaya, especializada em segurança, lei e governança, destaca que “o Haiti oferece um ambiente de baixo custo para as economias ilícitas. As gangues que operam no país, historicamente vinculadas ao tráfico ilegal de bens, são facilmente recrutadas, em parte porque carecem de um amplo mercado ilegal interno”. Essa realidade estrutural obriga esses grupos a depender dos rendimentos obtidos ao facilitar o trânsito de mercadorias ilícitas para redes criminosas transnacionais externas.
Rodríguez Luna também destaca que as gangues agora controlam territórios costeiros específicos, como a zona dos Cayos e a Ilha de Tortuga, que servem como “plataformas de armazenamento” logísticas para remessas ilícitas. A geografia fragmentada e o acesso limitado dificultam o patrulhamento sustentado, inclusive para as operações de interdição de alto nível, realizadas pelos Estados Unidos, em coordenação com seus parceiros do Caribe.
Nesse ambiente, os grupos criminosos aumentaram sua influência sobre as rotas marítimas, cobrando pedágios de embarcações que passam e participando de roubos à mão armada no mar. O UNODC também documentou o intercâmbio de armas por drogas, evidenciando o nível de cooperação entre gangues haitianas e redes regionais do crime organizado na Jamaica e nas Bahamas.
Expansão das gangues e ascensão de Viv Ansanm
O Haiti abriga centenas de gangues, mas o panorama passou de facções fragmentadas para um bloco de poder consolidado conhecido como Viv Ansanm (Viver Juntos). Essa coalizão, que uniu os antigos rivais G9 e G-Pep, agora exerce um controle de fato sobre a maior parte de Porto Príncipe e as rodovias vitais que conectam a capital aos portos do norte e à fronteira com a República Dominicana.
A influência dessas estruturas criminosas se expandiu após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021, um crime que ainda permanece sem esclarecimento. Esse vácuo político persistente e a deterioração da segurança interna transformaram a crise haitiana em um catalisador para uma maior estabilidade regional. Viv Ansanm agora ocupa corredores estratégicos usados para o tráfico de drogas, armas e outros contrabandos. Esse domínio territorial permite que eles extorquem as populações locais, sistematizando “impostos ilegais” sobre todo o comércio, ao mesmo tempo em que agilizam o fluxo de narcóticos para os mercados norte-americanos e europeus.
A violência resultante deslocou cerca de 1,3 milhão de pessoas e aprofundou a insegurança alimentar. Além disso, os relatórios indicam que menores de idade representam cerca de 50 por cento dos integrantes das gangues, um indicador alarmante do colapso social que alimenta a expansão do crime.
Resposta internacional
A consolidação do poder das gangues impulsionou uma resposta internacional mais robusta e especializada. Em setembro de 2025, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) autorizou a transição da missão anterior de apoio à Força de Repressão de Gangues (GSF). Este novo mandato foi projetado especificamente para “operações específicas contra gangues, com base em inteligência”, com o objetivo de neutralizar e dissuadir as organizações criminosas.
Os Estados Unidos sustentam essa iniciativa por meio de apoio diplomático e logístico. Em dezembro de 2025, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou que a comunidade internacional havia garantido compromissos com até 7.500 efetivos de diferentes países para a GSF. Para melhorar a eficácia da Polícia Nacional do Haiti (PNH), os Estados Unidos doaram, nesse mesmo mês, um carregamento de 25 novos veículos blindados de transporte de pessoal, com o objetivo de aumentar a mobilidade em teatros de operações de alto risco.
O UNODC também desempenhou um papel fundamental no reforço da soberania haitiana nas fronteiras. Ao longo de 2025, a agência entregou veículos blindados e mais de 350 equipamentos balísticos especializados à POLIFRONT (polícia de fronteira especializada) e forneceu equipamentos de alta tecnologia à Guarda Costeira do Haiti. Esses esforços são complementados por módulos de capacitação intensiva em tecnologias avançadas de varredura e intervenção tática, garantindo que as nações parceiras não apenas forneçam “botas no terreno”, mas também a capacidade profissional para manter a segurança.
Riscos para a bacia do Caribe
Rodríguez Luna alerta que “a expansão do modelo criminoso no Haiti representa riscos crescentes para o Caribe, especialmente para ilhas com capacidades limitadas de vigilância marítima. Apesar do reforço dos controles marítimos e da criação de um “Grupo Permanente de Parceiros”, que inclui Estados Unidos, Bahamas, Canadá, Quênia, Jamaica, El Salvador e Guatemala, ele sugere que o Haiti poderia consolidar-se como um centro funcional para o crime organizado, se a recuperação institucional não for mantida.
Apesar do fortalecimento dos controles marítimos e da cooperação regional, ele acrescenta que “o Haiti poderia consolidar-se como um centro funcional do crime organizado, deslocando as economias ilícitas para territórios com menor capacidade estatal e ampliando os riscos para a segurança regional”.
Segundo o analista, frear a trajetória do crime no Haiti requer uma estratégia de longo prazo centrada na reconstrução institucional e na recuperação sistemática da soberania territorial. Os Estados Unidos e a República Dominicana estão em posição de liderar esse esforço, com o apoio de parceiros regionais, através de investimentos sustentados e assistência técnica.
“O custo da inação já é visível. A crise humanitária se aprofunda e o Haiti reforça seu papel nas economias ilícitas transnacionais”, conclui Rodríguez Luna. “Em um Caribe com capacidades desiguais de vigilância, isso pode ter efeitos persistentes sobre a estabilidade regional e a segurança hemisférica.”


