General de Exército Delgado: “É impossível que um único país enfrente esse tipo de ameaça”

O Equador enfrenta organizações criminosas cada vez mais estruturadas, com vínculos que ultrapassam suas fronteiras e atividades ilícitas que vão do narcotráfico e da mineração ilegal ao tráfico de armas e à lavagem de dinheiro. Diante dessa ameaça, as Forças Armadas do Equador fortalecem suas capacidades operacionais e aprofundam a cooperação com os Estados Unidos e outros países do hemisfério.

À frente desses esforços está o General de Exército Henry Santiago Delgado Salvador, chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Equador desde setembro de 2025. Com mais de três décadas de serviço, o Gen Ex Delgado ocupou cargos como Comandante-Geral do Exército e subsecretário de Defesa Nacional, além de ter atuado como adido militar nos Estados Unidos e representante do Equador junto à Junta Interamericana de Defesa.

Durante sua participação no segundo encontro da Coalizão contra os Cartéis das Américas, realizado no Panamá nos dias 11 e 12 de agosto de 2026, o Diálogo conversou com o Gen Ex Delgado sobre a evolução do crime organizado transnacional, a cooperação regional e as capacidades que o Equador considera prioritárias para enfrentar essas ameaças.

Diálogo: General, o crime organizado transnacional opera por meio de redes que ultrapassam as fronteiras. Com base na experiência do Equador, como essas conexões evoluíram e que desafios representam para as Forças Armadas?

General de Exército Henry Santiago Delgado Salvador, chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Equador: É importante compreender que, quando falamos de crime organizado transnacional, é impossível que um único país enfrente esse tipo de ameaça. Existem relações e vínculos entre diferentes atores, não apenas no continente americano, mas também em outros continentes, liderados por máfias. Falamos da máfia italiana, da máfia albanesa, da máfia russa e das relações que mantêm com os cartéis aqui nas Américas, especialmente o Cartel de Jalisco Nova Geração. Dessa forma, os cartéis do México se relacionam com os grupos armados ilegais na Colômbia e, por meio deles, com os grupos armados organizados no Equador. No entanto, hoje já é possível visualizar inclusive uma relação direta entre esses cartéis existentes no México e os grupos armados do Equador.

Diálogo: As Forças Armadas do Equador acumularam ampla experiência em operações contra esse tipo de organização. Como evoluiu a ameaça do crime organizado no país e que novas dinâmicas criminosas estão observando?

Gen Ex Delgado: É verdade que, nas décadas de 1980 e 1990, já começávamos a enfrentar esses problemas com os grupos armados ilegais da Colômbia que atuavam em direção ao Equador, mas atualmente a situação é completamente diferente. Estamos falando de gangues criminosas que, pouco a pouco, foram se estruturando, organizando, armando e treinando com o objetivo de, por meio do narcotráfico, que é a parte essencial do problema, ganhar estrutura, força e capacidades para tentar dominar determinadas áreas territoriais como resultado do pagamento pelo narcotráfico.

O pagamento pelo narcotráfico se transforma em microtráfico. Eles recebem justamente uma quantidade de droga como pagamento, o negócio começa e daí surge a disputa por territórios entre esses grupos armados organizados, com o objetivo de obter esse sustento ilegal por meio do narcotráfico.

A partir daí, vimos surgir diferentes crimes conexos, porque, hoje em dia, esses grupos armados ilegais da Colômbia, inclusive aqueles que se relacionaram com os nossos, estão diversificando sua economia ilegal. Uma dessas atividades é justamente a mineração ilegal. Por quê? Porque é extremamente rentável. A onça de ouro chegou a valer mais de R$ 21.000 e R$ 26.000, um valor comparável ao de um quilograma de droga, portanto era muito rentável. Há também a facilidade que eles têm para transportar o ouro de um país para outro, porque ele não é fiscalizado da mesma forma que a droga. Por outro lado, para eles é preferível ter ouro, ter barras de ouro escondidas, do que ter dinheiro escondido se deteriorando. Para eles é ainda mais rentável.

Daí também derivam a lavagem de dinheiro, o contrabando de armas, munições e explosivos e o contrabando de combustível. Tudo isso começa a se transformar em crimes conexos. Some-se a isso o tráfico de pessoas. Eles vão para o mar, onde surgem inclusive os “postos de combustível no mar”, pontos de abastecimento em alto-mar destinados a facilitar as rotas do narcotráfico.

Diálogo: Diante de organizações criminosas que continuam desenvolvendo suas próprias capacidades, qual é a importância de as forças de segurança e defesa do hemisfério se manterem um passo à frente?

Gen Ex Delgado: Justamente durante a reunião eu dizia a todos os países: é impossível conceber que as Forças Armadas de cada um de nossos países, preparadas, treinadas, capacitadas e equipadas, ou seja, prontas para enfrentar qualquer tipo de combate, não estejam organizadas em nível continental, enquanto essas gangues criminosas e esses grupos, ou o crime organizado transnacional, como o próprio nome diz, estejam organizados.

Então, isso é inconcebível, ainda mais considerando que são ameaças comuns. Hoje em dia, o impacto dessas ameaças é maior em determinados países, como no nosso caso, do que em outros. No entanto, podemos perceber que cada um dos países precisa começar a se preparar. É preferível que hoje, nessas reuniões que realizamos com o chamado Escudo das Américas, nos organizemos para combatê-los imediatamente e impedir que alcancem maiores capacidades nas Américas.

Diálogo: As organizações criminosas evoluíram e diversificaram suas atividades, e a tecnologia desempenha um papel cada vez mais importante tanto para elas quanto para as forças de segurança e defesa. Como os países aliados podem aproveitar melhor a tecnologia e o intercâmbio de informações para responder a essa evolução?

Gen Ex Delgado: Isso é muito importante, considerando que esses grupos possivelmente têm até um orçamento maior do que muitas das Forças Armadas de nossos países e, logicamente, adotaram tecnologia de última geração para cometer seus crimes.

Isso nos mostra a importância de países como os Estados Unidos — cuja iniciativa aplaudo, assim como os esforços que vêm realizando para unir todos os países — poderem nos apoiar, no âmbito da cooperação internacional, com tecnologias das quais muitos de nossos países ainda carecem para poder identificar essas ameaças. É muito importante compreender que a surpresa e a oportunidade são fundamentais para o êxito no cumprimento das missões.

Esse apoio, não apenas dos Estados Unidos, mas de cada um dos países que dispõem de determinadas tecnologias e as compartilham, seja por meio de informações ou inteligência, ou inclusive fisicamente em diferentes jurisdições ou áreas de operações, é muito importante.

Diálogo: O Equador ocupa uma posição estratégica entre a região andina e o Pacífico Oriental, o que o torna tanto um ponto-chave para o comércio legítimo quanto um alvo para as redes criminosas. Qual é o papel da cooperação marítima e do intercâmbio de informações com os países aliados na proteção desses espaços e no fortalecimento da segurança regional?

Gen Ex Delgado: É fundamental, considerando que essa é uma das principais rotas da droga. Lembre-se de que, levando em conta a produção existente, no nosso caso em Nariño e Putumayo, no lado colombiano, assim como no Peru, segundo maior país produtor de drogas, nós estamos realmente no meio desses dois países.

Eles procuram justamente utilizar essas rotas, principalmente terrestres. Temos identificadas aproximadamente quatro rotas específicas utilizadas para o transporte de drogas, todas direcionadas para a costa, os portos e a saída para o mar, por diferentes meios: seja por meio da contaminação de contêineres ou de lanchas rápidas pelas rotas ao sul e ao norte de Galápagos, com o objetivo de chegar à América Central e, nesse caso, ao México, e inclusive passar para o Atlântico em direção à Europa.

Essa cooperação é fundamental porque também são necessárias tecnologia e capacidades de exploração aeromarítima e detecção que permitam identificar exatamente qual lancha está transportando drogas. Eles também têm seus próprios mecanismos, táticas, técnicas e procedimentos. Esses narcotraficantes se misturam aos pescadores; quando os pescadores saem para o mar, essas lanchas também saem.

Mas é aí que entra a capacidade tecnológica, neste caso com aeronaves de exploração aeromarítima, veículos aéreos não tripulados [UAV] e drones, para determinar qual lancha realmente está transportando drogas, qual é sua trajetória ou rota e inclusive identificar o momento em que se pode agir.

Por isso, também é muito importante o emprego das forças de guarda costeira e de navios com capazes de permanecer no mar por mais de 30 ou 40 dias e equipados com lanchas de interceptação, com o objetivo de interceptar imediatamente as embarcações envolvidas no narcotráfico.

Diálogo: Olhando para o futuro, quais capacidades o senhor considera prioritárias para continuar desenvolvendo junto aos Estados Unidos e outros parceiros do hemisfério, a fim de fortalecer a resposta regional ao crime organizado transnacional?

Gen Ex Delgado: Inteligência. É importante e fundamental compartilhar informações, realizar o levantamento de informações com base nas capacidades que os Estados Unidos possuem, compartilhá-las e permitir que possamos planejar operações contra esse tipo de ameaça.

Também é importante a cobertura do espaço aéreo, com o objetivo de podermos utilizar drones ou UAV com todas essas capacidades das quais falamos anteriormente para determinar, inclusive por meio de imagens térmicas, a localização e a concentração de pessoas, as rotas da droga e centros de armazenamento pequenos, médios e grandes.

E a mobilidade é outra capacidade necessária: mobilidade aérea, mobilidade terrestre e mobilidade marítima, para que possamos bloquear praticamente todo esse processo do narcotráfico através do nosso país e sua saída para o mar.

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