O General de Brigada Werner Kioe A Sen lidera as Forças Armadas do Suriname (SAF) desde o final de 2022. Como o segundo oficial na história das SAF a atingir o posto de general de brigada, ele conseguiu estabelecer a força como um parceiro confiável na segurança regional durante seu mandato. O Gen Bda Kioe A Sen defende a educação como base da prontidão militar, enfatizando a necessidade de contar com um corpo de oficiais com pensamento crítico, capaz de adaptar-se aos rápidos desenvolvimentos globais.
Diálogo conversou com o Gen Bda Kioe A Sen em agosto de 2025, durante sua participação na Conferência de Defesa da América do Sul (SOUTHDEC), em Buenos Aires, Argentina, para discutir sobre a modernização das SAF, o papel fundamental da cooperação internacional e como as forças armadas estão mitigando os desafios operacionais impostos pela crise econômica do país.
Diálogo: O senhor está entrando em seu quarto ano no comando das SAF. O que o senhor considera suas realizações mais significativas e seus maiores desafios até o momento?
General de Brigada Werner Kioe A Sen, comandante das Forças Armadas do Suriname: Nossa conquista mais importante é o desenvolvimento contínuo de nossa liderança estratégica, bem como dos Corpos de Suboficiais (NCO) e Oficiais. O objetivo é ter um quadro mais forte e capaz de lidar não apenas com as ameaças atuais, mas também com as futuras. Vivemos em um mundo que se desenvolve muito rapidamente e é preciso ter um Corpo de Oficiais capaz de lidar com essas mudanças rápidas.
Conseguimos isso implementando novos cursos, como nosso primeiro Curso de Competência para a Equipe, em 2023, que desenvolve futuros líderes. Atualmente, temos nossa segunda classe em andamento e esse programa continuará. Simultaneamente, oferecemos programas acadêmicos para oficiais que concluíram seu treinamento antes da implementação de nossa academia militar em 2019. Esses programas são essenciais, porque os oficiais precisam dessas habilidades acadêmicas para conduzir investigação, desenvolvimento e inovação e, o mais importante, para serem pensadores críticos. Esse investimento em nossa liderança e pessoal é uma conquista fundamental.
O maior desafio que enfrentamos é a crise econômica em andamento, que afeta a eficácia operacional de todas as forças de segurança. Para lidar com isso, trabalhamos em nível interagências, pois ações independentes são ineficientes. Unimos nossos esforços; por exemplo, nossa operação marítima interagências chamada Stingray envolve não apenas as Forças Armadas, mas também a Polícia e a Guarda Costeira. O esforço interagências é uma das coisas que fazemos para mitigar a crise econômica, que continua sendo um dos nossos maiores desafios.
Diálogo: No ano passado [durante SOUTHDEC 2024], discutimos alguns dos últimos avanços das SAF na luta contra as organizações criminosas transnacionais (OCTs), incluindo a operação marítima Stingray, como o senhor mencionou, e a destruição de pistas de pouso ilegais. O que há de novo a esse respeito?
Gen Bda Kio A Sen: Compartilhamos percepções da Operação Stingray com nossos parceiros estratégicos do Escudo da Guiana (Guiana, Guiana Francesa e Brasil). Durante nossa última conferência, decidimos realizar uma operação marítima sincronizada. Recentemente, concluímos uma importante operação conjunta com a Guarda Costeira da França e formalizamos um acordo para compartilhar nossas posições, quando estivermos ativos em nossos respectivos domínios marítimos. Também aprimoramos nossa capacidade marítima, adquirindo uma embarcação de patrulha do Estaleiro Damen. Isso amplia nosso alcance, fornecendo um instrumento melhor para controlar nosso domínio marítimo e proteger a região.
Diálogo: Em maio de 2024, as SAF e o Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM) assinaram um Acordo de Estrutura de Cooperação que destacou várias áreas críticas, incluindo a comunicação estratégica contra as OCTs. Como esse acordo contribuiu para aprimorar a capacidade das SAF de combater as OCTs?
Gen Bda Kio A Sen: É um trabalho em andamento. Temos uma cooperação muito sólida com nossos vizinhos, como o Brasil e a Guiana Francesa, mas também com os Estados Unidos. Temos uma cooperação estreita, que inclui o reforço da capacidade institucional e o intercâmbio de conhecimentos. Esse acordo proporciona formalidade, mas também temos executado uma cooperação robusta com os Estados Unidos há algum tempo.
Diálogo: A missão médica AMISTAD 2025, liderada pelas Forças Aéreas do Sul dos EUA, contou com equipes médicas dos Estados Unidos e do Canadá, que trabalharam ao lado de seus homólogos surinameses. Além do atendimento direto aos pacientes, como essa missão melhorou especificamente a capacidade de assistência humanitária e socorro em casos de desastres (HADR) das SAF?
Gen Bda Kio A Sen: A AMISTAD 2025 foi um gesto de boas-vindas, especialmente para o Ministério da Saúde. Devido às restrições econômicas, nossas instituições públicas francamente não são capazes de atingir todo o território. Todo o apoio que recebemos é bem-vindo, e a AMISTAD foi muito útil. O Ministério da Defesa optou por adicionar mais pessoal médico para apoiar a AMISTAD 2025.
Ao mesmo tempo, desde 2021, temos conduzido nossa própria operação civil-militar chamada “Gran Mati” ou “Grote Vriend” em holandês, que significa “Grande Amigo”. Essa operação fornece apoio à população civil, oferecendo assistência médica, odontológica e oftalmológica. Mais de 4.000 civis receberam apoio por meio dessa operação. Desde 2022, temos a sorte de receber apoio dos Estados Unidos e da Holanda, que fornecem especialistas e meios para apoiar nossa população. A população aguarda ansiosamente por Gran Mati todos os anos; a operação está atualmente em andamento na parte ocidental do nosso país. A AMISTAD complementa e apoia nossos próprios esforços contínuos de HADR.
Diálogo: Como a percepção civil das SAF mudou, devido ao seu apoio aos civis, que vai além da missão principal de segurança?
Gen Bda Kio A Sen: Além de se sentir mais segura, a população tem mais confiança em nós como instituição, porque vê que, com poucos recursos e meios, fazemos o possível para apoiá-la. Nossa visão é defender nossa nação, mas também apoiar nossos cidadãos sempre que possível. Com base nessa visão, conquistamos essa confiança da nossa sociedade, e isso parece ser muito importante nos dias de hoje.
Diálogo: O Programa de Parceria Estatal (SPP) com a Guarda Nacional de Dakota do Sul tem sido uma aliança muito ativa. Quais foram alguns dos intercâmbios ou exercícios de treinamento conjuntos mais valiosos deste ano?
Gen Bda Kio A Sen: Duas coisas vêm à minha mente. A primeira é a conferência anual de planejamento estratégico. É onde nos reunimos e planejamos com dois ou três anos de antecedência, adicionando mais pedras à base que construímos com Dakota do Sul. Essa conferência é valiosa para ambos os parceiros. A segunda coisa é o recente Treinamento de Guerra na Selva, que oferecemos a Dakota do Sul. Esse foi um projeto piloto que estamos avaliando atualmente para integrá-lo à nossa parceria bilateral. O objetivo é fornecer à Guarda Nacional de Dakota do Sul habilidades em técnicas de sobrevivência e guerra na selva. Como o pessoal da Guarda Nacional de Dakota do Sul está frequentemente no Suriname, é valioso para eles saberem como operar em nosso ambiente, que é muito diferente do de Dakota do Sul, pois é tropical, com alta temperatura e muito úmido.
Diálogo: Olhando para o futuro, como planeja aproveitar os recentes sucessos na cooperação interagências, para modernizar a força e prepará-la para as ameaças atuais e emergentes na região?
Gen Bda Kio A Sen: Estamos concentrando-nos em três áreas. A primeira é a interoperabilidade, para que possamos ser destacados junto com nossos parceiros regionais em programas de assistência humanitária, operações e esforços de segurança. Em segundo lugar, devemos continuar a estruturar nosso sistema educacional. O Suriname é uma república jovem com Forças Armadas jovens; recentemente, implementamos cursos de ensino superior. Melhorar o sistema educacional é a direção futura das SAF. Por fim, vamos enfatizar a melhoria de nossas capacidades de HADR. Se observarmos como o clima mudou, veremos que muitos desastres estão por vir e as forças de segurança precisam estar preparadas. Continuaremos a alavancar essas três coisas daqui para frente.
Diálogo: Qual é a sua visão para o futuro das SAF e qual acha que será o seu legado?
Gen Bda Kio A Sen: Minha visão é elevar a liderança e o pessoal das Forças Armadas. Temos a obrigação de fazer isso. Quando há uma crise, a sociedade se apoia em nossa instituição. É preciso ter militares preparados para apoiar a sociedade. É por isso que enfatizo a educação e a capacitação, para preparar nossos líderes militares e as tropas para qualquer ameaça que possa surgir. Por meio da educação, preparamos nossas Forças Armadas para todas as crises.


