O Coronel Lorenzo Agustín Cabrera Burgos, do Exército do Paraguai, é um oficial superior das Forças Armadas do Paraguai, com ampla experiência em operações internacionais, educação militar e cooperação multinacional. Formado pela Real Academia Militar de Sandhurst, no Reino Unido, ele desenvolveu uma carreira marcada pela liderança operacional e pelo fortalecimento institucional, incluindo missões de paz com a Organização das Nações Unidas em Chipre e funções como instrutor e diretor acadêmico no âmbito militar. Atualmente, ele atua como oficial de ligação no Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM), onde contribui para fortalecer a interoperabilidade, a cooperação regional e a coordenação estratégica entre o Paraguai e seus parceiros hemisféricos.
Nesta entrevista exclusiva à Diálogo, o Cel Cabrera reflete sobre o valor estratégico dessa função, os avanços na modernização das Forças Armadas do Paraguai e o papel fundamental da cooperação internacional na luta contra as ameaças transnacionais e no fortalecimento da segurança regional.
Diálogo: Atualmente, o senhor atua como oficial de ligação estrangeiro no SOUTHCOM. O senhor poderia explicar a importância estratégica dessa função e como sua presença em Miami facilita uma cooperação mais ágil entre as Forças Armadas do Paraguai e seus homólogos norte-americanos?
Coronel Lorenzo Agustín Cabrera Burgos, do Exército do Paraguai, oficial de ligação do Paraguai no SOUTHCOM: Como oficial de ligação representante das Forças Armadas do Paraguai no SOUTHCOM, tenho uma função técnica, operacional e estratégica para fortalecer a cooperação, a confiança e a interoperabilidade entre nações parceiras. Minha posição no SOUTHCOM me permite gerenciar e acompanhar diretamente os interesses das Forças Armadas do Paraguai com o principal comando responsável pela segurança hemisférica, bem como junto aos oficiais de ligação de nações parceiras, sócios e aliados estratégicos.
A presença permanente em Miami, Flórida, facilita a coordenação diária e direta com toda a extraordinária equipe do SOUTHCOM, o Grupo Militar dos EUA no Paraguai, e o Comando das Forças Militares, em coordenação com a Adida de Defesa, Militar, Naval e Aeronáutica, agilizando os processos de planejamento e tomada de decisões, para dar respostas mais oportunas e eficazes diante de desafios de segurança compartilhados.
Diálogo: O Programa de Oficiais de Ligação Estrangeiros é frequentemente descrito como uma ponte entre nações. Como esse programa beneficiou especificamente as Forças Armadas do Paraguai?
Cel Cabrera: O programa de oficiais de ligação estrangeiros constitui um mecanismo fundamental para fortalecer a cooperação militar internacional e a confiança estratégica entre nações parceiras. Para as Forças Armadas do Paraguai, os oficiais de ligação e oficiais de intercâmbio de nações parceiras e aliados contribuem para o fortalecimento da capacidade institucional a curto, médio e longo prazo, melhorando os processos de planejamento, interoperabilidade e entendimento doutrinário com as forças aliadas, o que se traduz em uma maior confiança operacional compartilhada.
Em nível pessoal, essa experiência ampliou minha visão estratégica, fortaleceu minhas capacidades profissionais e aprofundou minha compreensão do trabalho conjunto em ambientes multinacionais.
Diálogo: O Paraguai sediará a competição Fuerzas Comando em agosto deste ano. Qual é o valor estratégico para o Paraguai de liderar esta competição multinacional e seu seminário para líderes seniores?
Cel Cabrera: A competição Fuerzas Comando é um exercício de alto valor estratégico, que fortalece a cooperação regional e a interoperabilidade entre forças de operações especiais. Para o Paraguai, liderar essa competição multinacional vai além do prestígio, pois consolida seu posicionamento como um parceiro confiável e um ator responsável em matéria de segurança regional. O evento e o seminário para líderes seniores fortalecem a interoperabilidade, promovem o intercâmbio de experiências e doutrinas e contribuem para a construção de consensos estratégicos diante de ameaças comuns, que afetam a região.
Diálogo: O Paraguai também assumiu o comando do ciclo 2026-2027 da Conferência dos Exércitos Americanos (CAA). Como sua função no SOUTHCOM ajuda a sincronizar as prioridades do Paraguai, como o combate às organizações criminosas transnacionais, com os padrões regionais?
Cel Cabrera: A Conferência dos Exércitos Americanos é um fórum militar internacional, de caráter permanente, integrado e conduzido pelos exércitos do continente americano, para a coordenação e harmonização dos esforços militares em nível hemisférico. Minha função no Comando Sul facilita a articulação direta entre as prioridades estratégicas do Paraguai, como a segurança fluvial e o combate às organizações criminosas transnacionais, com marcos doutrinários e operacionais regionais.
Diálogo: Em dezembro de 2025, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e o ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, assinaram um Acordo sobre o Estatuto das Forças (SOFA) modernizado. Como esse acordo melhora a interoperabilidade?
Cel Cabrera: O SOFA representa um marco legal e operacional atualizado, que fortalece a cooperação militar entre os Estados Unidos e o Paraguai. Esse acordo melhora a interoperabilidade, ao esclarecer aspectos legais, operacionais e logísticos, facilitando treinamentos conjuntos, destacamentos coordenados e apoio mútuo em missões para responder de forma mais rápida e eficaz às ameaças dinâmicas do crime organizado transnacional.
O Paraguai mantém uma política de defesa soberana, complementada por alianças estratégicas baseadas na cooperação e no benefício mútuo.
Diálogo: O Paraguai designou recentemente dos grupos criminosos brasileiros como organizações terroristas. Como essa nova classificação muda a forma como as Forças Armadas do Paraguai podem usar suas forças especiais e sua inteligência, para combater essas organizações?
Cel Cabrera: A designação dos grupos criminosos Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho como organizações terroristas amplia o marco legal e estratégico para a ação das Forças Armadas, responde à natureza e ao alcance da ameaça e fortalece as ferramentas legais e operacionais do Estado para proteger a população. Essa classificação permite um emprego mais integral e coordenado das forças especiais e da inteligência militar, para neutralizar ameaças na luta contra essas organizações transnacionais.
Diálogo: A Marinha do Paraguai está integrando atualmente uma frota de 12 lanchas patrulheiras rápidas. Como essas novas embarcações melhoram a capacidade da Marinha para realizar interdições em corredores fluviais de alto tráfego, como os rios Paraná e Paraguai?
Cel Cabrera: A modernização da Marinha do Paraguai com as 12 lanchas patrulheiras rápidas doadas pelos Estados Unidos fortalece sua capacidade operacional e presencial nos principais corredores fluviais do país. Com isso, incrementam significativamente a mobilidade, a cobertura e a capacidade de interdição em rios estratégicos, como o Paraná e o Paraguai, para controlar e melhorar a dissuasão de atividades ilícitas e responder mais rapidamente a incidentes de segurança.
Diálogo: O Exército também segue um roteiro claro para a modernização, que inclui novos veículos logísticos e de transporte e a chegada, em 2027, de veículos blindados Oshkosh M-ATV 4×4 transferidos dos Estados Unidos. Como essa abordagem em fases reforça a capacidade do Exército para manter uma presença proativa em áreas de alto risco e planejar futuras operações de segurança de fronteira?
Cel Cabrera: A modernização progressiva do Exército com a aquisição de novos veículos logísticos e de transporte, bem como a chegada em 2027 dos veículos blindados Oshkosh resistentes a minas e emboscadas, permite fortalecer a mobilidade, a proteção e a autonomia do Exército. Isso permite manter uma presença proativa em zonas de alto risco, como a tríplice fronteira, e estar prontos para responder de forma eficaz a ameaças emergentes.
Diálogo: O senhor poderia nos fornecer informações atualizadas sobre o estado da Iniciativa de Parceria para a Manutenção no Teatro de Operações (TMPI) no Paraguai?
Cel Cabrera: A TMPI é um programa regional do Comando Sul dos EUA projetado para fortalecer a cultura de manutenção e a capacidade logística das nações parceiras. No Paraguai, a TMPI continua avançando na promoção de práticas sustentáveis de manutenção e no desenvolvimento de capacidades técnicas, através de intercâmbios educacionais e cooperação técnica.
No contexto regional, a TMPI estabeleceu centros de excelência e processos de capacitação, que fortalecem a preparação e a profissionalização dos parceiros em matéria de logística e manutenção, e o Paraguai está em processo de integração a essa rede de melhores práticas.
Diálogo: Qual é a evolução mais significativa o Paraguai em sua parceria com a Guarda Nacional de Massachusetts?
Cel Cabrera: A parceria com a Guarda Nacional de Massachusetts é uma das relações de cooperação mais sólidas e duradouras das Forças Armadas do Paraguai, que já dura 25 anos. A evolução mais significativa foi a transição de uma cooperação centrada no treinamento tático básico para uma relação madura e estratégica.
Atualmente, a colaboração abrange áreas avançadas, como segurança cibernética, resposta a desastres e gestão de emergências, refletindo um alto nível de confiança mútua, interoperabilidade e adaptação conjunta a ameaças e desafios contemporâneos.
Diálogo: De que maneira sua experiência nas forças de paz da ONU influencia seus esforços atuais para unificar a região em uma força mais cooperativa, capaz de enfrentar os desafios de segurança compartilhados?
Coronel Cabrera: A participação em operações de manutenção da paz da Organização das Nações Unidas oferece uma perspectiva prática e estratégica sobre a cooperação internacional em ambientes multinacionais. Minha experiência em Chipre, tanto como parte integrante do contingente, quanto como observador militar da ONU, reforçou a importância da cooperação multinacional, especialmente no gerenciamento de pessoal, intercâmbio de informações e inteligência, planejamento e execução de operações, gerenciamento de logística, bem como assistência humanitária e assuntos civis.
O domínio de idiomas estrangeiros, especialmente do inglês, é uma ferramenta poderosa para facilitar o diálogo, fortalecer a confiança e a interoperabilidade.
Diálogo: Ao se aproximar o fim de sua missão no SOUTHCOM, qual é a lição mais importante que espera levar de volta ao Paraguai?
Cel Cabrera: É para mim uma grande honra, privilégio e, acima de tudo, uma grande responsabilidade representar as Forças Armadas do Paraguai perante o SOUTHCOM. Representa uma experiência estratégica, que consolida o compromisso do Paraguai com a cooperação regional e a segurança hemisférica. A lição aprendida mais importante é a de que a confiança estratégica se constrói com trabalho constante, disciplina, profissionalismo e compromisso com a missão.
Pessoalmente, essa missão também reafirma a importância do apoio da família para sustentar o compromisso profissional em missões exigentes e prolongadas, e é parte silenciosa, mas essencial, do cumprimento bem-sucedido dessa missão no SOUTHCOM, sempre com a proteção e a bênção de Deus.
O Paraguai acredita na cooperação, no respeito mútuo e na liderança responsável, para construir uma região mais segura e estável.


