A evolução do panorama de segurança no Brasil tem sido cada vez mais definida pela transição de facções criminosas nacionais para entidades transnacionais sofisticadas. Embora grupos como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) tenham sido presença constante no diálogo regional sobre segurança durante décadas, a era atual é marcada por um novo nível de profissionalização. Essa mudança exigiu um afastamento do policiamento isolado em direção a intervenções estratégicas em grande escala, baseadas em inteligência.
“O que começou como disputa de poder nos presídios, transformou-se em uma engrenagem multinacional complexa”, escrevem Paulo Bilynskyj, presidente da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados do Brasil, e Marcos Degaut, doutor em Segurança Internacional, em um artigo no jornal Gazeta do Povo.
Segundo os especialistas, essa transnacionalização se deveu à consolidação de facções com comando unificado e capacidade empresarial e à inserção ativa do Brasil em novas rotas globais de entorpecentes e armas.
A necessidade dessa postura proativa foi ressaltada no final de outubro de 2025, quando as forças de segurança brasileiras lançaram a Operação Contenção, uma das mobilizações táticas mais significativas da história do país. Com o objetivo de desmantelar os centros de comando e controle do CV no Rio de Janeiro, a operação envolveu cerca de 2.500 agentes de elite da Polícia Civil e Militar.
O objetivo principal era deter a expansão territorial agressiva do CV e executar mandados de prisão contra a liderança da facção. Significativamente, 30 desses alvos foram identificados como operadores de alto nível de outros estados brasileiros, ilustrando como as favelas do Rio de Janeiro se tornaram um santuário para uma rede criminosa nacional. Durante a incursão, as forças de segurança enfrentaram uma insurgência entrincheirada, que usou barricadas incendiárias e drones armados para lançar explosivos. A apreensão final de 93 fuzis – incluindo modelos AK, AR e FAL – efetivamente desarmou uma ala significativa da estrutura paramilitar da organização.
Enquanto a Operação Contenção tinha como alvo os redutos físicos do crime, a Operação Carbono Oculto, lançada em agosto de 2025, representa a vanguarda da estratégia de “sufocamento econômico”. No que as autoridades descreveram como a maior ofensiva contra a infraestrutura financeira do crime organizado no Brasil, mais de 1.400 agentes tiveram como alvo uma enorme rede de lavagem de dinheiro orquestrada pelo PCC.
A operação expôs como a facção havia feito a transição de uma estrutura de tráfico de drogas para um modelo de conglomerado corporativo, infiltrando-se no setor crítico de combustíveis do Brasil. Ao controlar mais de 1.000 postos de gasolina em 10 estados, o PCC usou uma cadeia de abastecimento verticalizada — incluindo usinas de etanol, uma frota de 1.600 caminhões e um terminal portuário — para lavar bilhões em rendimentos ilícitos.
Nexo transnacional e alianças globais
A expansão dessas organizações não é mais um fenômeno localizado, mas um componente-chave da economia ilícita global. “Hoje, Brasil, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela constituem um eixo criminal contínuo e integrado, de onde partem fluxos ilícitos que alcançam o Atlântico Sul, avançam pela África Ocidental e desembocam em hubs europeus”, afirmam Bilynskyj e Degaut.
Essa interconectividade regional agora está sendo enfrentada com uma defesa igualmente integrada. No centro desse esforço está o aprofundamento da parceria entre o Brasil e os Estados Unidos. Em abril de 2025, a Agência de Investigação de Segurança Interna dos Estados Unidos (HSI) e a Polícia Federal (PF) do Brasil assinaram um memorando de entendimento histórico. Esse acordo estabeleceu uma estrutura robusta para o intercâmbio em tempo real de inteligência de investigação criminal, visando especificamente o tráfico de armas de fogo e as redes financeiras ilícitas que sustentam grupos como o CV e o PCC.
O Brasil também alcançou um papel de vanguarda no policiamento multilateral. Após a eleição de Valdecy Urquiza – o primeiro brasileiro a ocupar o cargo de secretário-geral da INTERPOL –, uma nova Força-Tarefa da INTERPOL contra o Crime Organizado na América Latina foi lançada em junho de 2025. Essa força-tarefa, com sede na região, concentra-se em desmantelar os nós mais perigosos das OCTs. Isso foi reforçado pelo tratado de compartilhamento de dados com a Europol, assinado em março de 2025, tornando o Brasil o primeiro país latino-americano a alcançar um intercâmbio operacional contínuo de dados com a União Europeia, para monitorar atividades suspeitas nos portos do Atlântico.
Uma linha de frente profissionalizada
Os eventos nas favelas do Alemão e da Penha demonstraram as condições extremas em que as forças de segurança brasileiras operam. A ofensiva de outubro de 2025 mostrou uma proficiência tática refinada, projetada para recuperar o território soberano de narcoterroristas fortemente armados. Essa proficiência é resultado de anos de treinamento especializado e da adoção de tecnologias modernas, como inteligência de sinal avançada e mobilidade blindada.
A execução bem-sucedida de quase 100 mandados de prisão – visando não apenas operadores locais, mas líderes de alto valor de vários estados – destaca a eficácia da coordenação interagências moderna, afirmam os especialistas. No entanto, a perda de policiais durante o confronto serve como um lembrete sombrio dos altos riscos envolvidos na recuperação do território soberano de elementos criminosos entrincheirados.
A estratégia
Há um consenso crescente de que o sucesso tático nas cidades brasileiras deve ser apoiado por uma estratégia de “caixa fechada” nas fronteiras. “A cooperação regional é essencial, porque o crime organizado já opera de forma integrada, enquanto os Estados combatem isoladamente com legislações incompatíveis”, afirma à Diálogo o jornalista brasileiro André Caramante, especialista em crime organizado. Ele argumenta que a cooperação estruturada cria um “efeito de caixa fechada”, em que a inteligência compartilhada impediria fugas e o rastreamento coordenado de ativos “sufocaria economicamente as organizações”.
A recente ativação do Grupo de Trabalho Especializado sobre Recuperação de Ativos (GTERA) dentro do Mercosul representa uma medida para congelar o capital criminoso além das fronteiras. Além disso, a renovação do Comando Tripartite com a Argentina e o Paraguai institucionalizou uma estrutura permanente de compartilhamento de inteligência. Isso garante que a profissionalização da polícia em campo seja acompanhada pela agilidade do aparato financeiro e investigativo do Estado.
A atual postura de segurança no Brasil reflete uma avaliação racional de uma ameaça de longa data. Ao tratar a expansão do CV e do PCC como um desafio geopolítico e não como uma simples questão interna, o Brasil está contribuindo para estabelecer um padrão de defesa regional. O sucesso desses esforços depende da coragem contínua das forças de segurança e do compromisso inabalável com uma resposta unificada e sem fronteiras, que conecte as ruas do Rio de Janeiro aos centros operacionais da região, dos Estados Unidos e da Europa.


