El Salvador deu um passo significativo rumo ao desenvolvimento de energias renováveis ao assinar um contrato com a empresa estatal chinesa PowerChina para a construção de um projeto fotovoltaico de 30 MW no município de Conchagua, departamento de La Unión. Mais do que um projeto de geração de energia, o acordo marca a entrada oficial da China no setor de energias renováveis salvadorenho, ampliando a presença de Pequim em mais uma área estratégica para o desenvolvimento de longo prazo do país e reforçando sua crescente atuação em infraestrutura crítica.
O acordo, anunciado em março, contempla o projeto, a construção, o fornecimento, a instalação, os testes e o comissionamento da usina solar, além da construção de uma subestação elétrica de 34,5/115 kV na estratégica baía de La Unión. O projeto representa a primeira participação direta da China em infraestrutura de geração de energia elétrica em El Salvador, incorporando o setor energético a um portfólio mais amplo de investimentos que, segundo analistas, pode aumentar a dependência de longo prazo do financiamento, da tecnologia e da assistência técnica chinesa.
A localização da usina reforça ainda mais sua importância estratégica. Conchagua vem se consolidando como um dos principais polos de desenvolvimento no leste de El Salvador, onde convergem projetos de grande porte, como o Aeroporto do Pacífico e a modernização do Porto de La Unión, realizada por meio da parceria entre a estatal Comissão Executiva Portuária Autônoma (CEPA) e a Yilport Holding. À medida que o leste salvadorenho se consolida como um corredor logístico e comercial de crescente relevância, analistas avaliam que a expansão da presença chinesa em infraestrutura estratégica merece maior atenção devido às suas possíveis implicações para a segurança econômica, a soberania nacional e a influência estratégica de longo prazo.
Estratégia expansiva da China em infraestructura estratégica
A participação da China na região vai além da construção de infraestrutura. Segundo o analista de energia Ramsés Pech, as empresas chinesas buscam participar de toda a cadeia de valor do setor energético, desde a geração até a transmissão, a distribuição e a infraestrutura de apoio.
“Não se trata apenas da aquisição de recursos; é o controle operacional de infraestruturas essenciais”, explicou Pech ao veículo especializado Energía Hoy.
Analistas afirmam que a estratégia chinesa busca assegurar uma presença duradoura em múltiplos níveis da infraestrutura estratégica, em vez de se limitar a investimentos isolados. À medida que as empresas estatais chinesas expandem sua atuação dos setores de transporte e logística para a geração e transmissão de energia, tornam-se cada vez mais integradas a áreas das quais os governos dependem para o crescimento econômico e o desenvolvimento nacional.
A PowerChina e seu histórico na América Latina
A expansão da PowerChina na América Latina é marcada por uma série de controvérsias.
No Equador, a Sinohydro, subsidiária da PowerChina, construiu a usina hidrelétrica Coca Codo Sinclair, que entrou em operação em 2016. O projeto, avaliado em aproximadamente R$ 15,12 bilhões, tornou-se uma das obras de infraestrutura mais controversas da região após a identificação de milhares de fissuras estruturais e o início de processos de arbitragem e negociações por parte do governo equatoriano em razão dos defeitos da obra. O projeto também foi associado à erosão regressiva do rio Coca, que contribuiu para o desaparecimento da emblemática cachoeira San Rafael e para danos à infraestrutura da região.
Na Bolívia, a PowerChina também enfrenta críticas por problemas ambientais e sociais associados aos seus projetos. Em Cochabamba, a construção da usina hidrelétrica de Ivirizu afetou 18 comunidades e destruiu 280 hectares do Parque Nacional Carrasco. Também foram relatados conflitos trabalhistas e questionamentos sobre a qualidade das obras entregues.
Na Colômbia, a empresa também enfrentou disputas contratuais e sanções financeiras relacionadas a atrasos em importantes projetos de energia renovável, reforçando as preocupações quanto à execução de seus projetos.
Crescentes preocupações com a dependência estratégica
O papel crescente da China nos setores estratégicos da América Latina continua gerando preocupações entre analistas de segurança.
María Isabel Puerta, politóloga e doutora em Ciências Sociais, avalia que os investimentos chineses podem gerar riscos de dependência de longo prazo para os países da região.
“As garras do regime chinês buscam enfraquecer os países da América Latina para fomentar a dependência”, afirmou ao Diálogo. Ela também destacou a importância de fortalecer mecanismos legais e institucionais capazes de proteger os interesses nacionais diante de acordos que possam se tornar desfavoráveis no longo prazo.
Padrões semelhantes estão surgindo em outras partes da região. Em Cuba, a cooperação chinesa em projetos de energia solar e energética se expandiu em meio a uma crescente crise energética impulsionada pela deterioração da infraestrutura, pelas carências crônicas e por anos de disfunção econômica sob o regime cubano. Analistas alertam que o papel crescente de Pequim em setores estratégicos pode contribuir para sustentar a resiliência operacional do regime, ao mesmo tempo em que aprofunda a dependência de Havana em relação à China no longo prazo.
A crescente presença da China nos setores de energia, transporte e outras áreas estratégicas da América Latina reflete um esforço mais amplo para consolidar uma influência de longo prazo por meio da infraestrutura crítica. Embora esses investimentos possam oferecer oportunidades econômicas no curto prazo, críticos alertam que uma maior dependência de empresas estatais chinesas em setores essenciais para o desenvolvimento nacional pode criar vulnerabilidades duradouras que afetem a transparência, a autonomia estratégica e a soberania nacional.



