A entrada da montadora chinesa Xpeng Motors no México consolida o país como porta de entrada para veículos com alta integração digital na América Latina. Paralelamente, a expansão dessas plataformas traz riscos relacionados à gestão de dados, à conectividade e ao possível impacto sobre a segurança das infraestruturas e cadeias de abastecimento na região.
A fabricante oficializou em março seu plano para a região, com o objetivo de dobrar as vendas globais até 2026. A estratégia prevê que os mercados internacionais representem 20 por cento de sua receita total, utilizando o lançamento dos modelos G6 e G9 no México como base para sua expansão no hemisfério, informou a agência de notícias Reuters.
Segundo o jornal mexicano El Economista, o mercado mexicano funciona como plataforma para a expansão das montadoras chinesas no continente. Nesse contexto, a Xpeng, com presença em mais de 60 países, projeta vender 2000 veículos elétricos em seu primeiro ano de operação em três estados mexicanos, como parte de sua estratégia internacional.
No plano econômico, o ex-embaixador do México na China e consultor em risco geopolítico, Jorge Guajardo, afirmou ao Diálogo que a importação desses veículos oferece benefícios limitados para a indústria nacional. “O México é uma potência automotiva, mas esses veículos não geram receitas locais. Mesmo com as tarifas vigentes, sua entrada não fortalece o setor produtivo”.
Da mesma forma, ele questionou a eficácia das medidas comerciais atuais. Indicou que a tarifa de 50 por cento é insuficiente diante da redução contínua dos preços no mercado de origem. “Não freou sua entrada nem alterou seus preços no México”, destacou, alertando que continuam pressionando a indústria automotiva nacional e regional.
Capacidades tecnológicas e desempenho operacional
À medida que a operação dos veículos depende cada vez mais de software, sensores, conectividade e processamento de dados, a rápida expansão de plataformas altamente digitalizadas introduz novas considerações operacionais e de segurança cibernética para governos e órgãos reguladores.
“Esses veículos integram sensores, câmeras e sistemas de conectividade capazes de transmitir grandes volumes de informação”, disse Guajardo. “Isso introduz novas preocupações relacionadas ao gerenciamento de informações e da operação de tecnologias conectadas”.
Coleta de dados e exposição de sistemas
As preocupações em torno desses sistemas também se estendem à privacidade e à segurança, informou o meio argentino Infobae. Um veículo de alta gama pode incorporar múltiplas câmeras, radares e sensores capazes de coletar informações do ambiente externo e do interior do automóvel, incluindo sistemas de monitoramento do motorista.
O pesquisador norueguês de segurança cibernética Tor Indstøy, por meio de uma iniciativa independente conhecida como Project Lion Cage, documentou fluxos de dados de veículos elétricos chineses para servidores externos localizados na China. O projeto, centrado em conectividade, arquitetura de software e capacidades de acesso remoto em veículos conectados, alimentou o debate na Europa sobre a gestão de dados e a segurança cibernética em sistemas de transporte altamente digitalizados.
Nesse cenário, Guajardo explicou que “os dados, incluindo padrões de mobilidade e metadados, são um insumo de alto valor para a inteligência. Eles permitem rastrear movimentos, identificar tendências e traçar perfis de usuários”.
Marco legal e expansão regional
O marco legal chinês introduz um elemento relevante na avaliação dessas tecnologias. A Lei de Inteligência Nacional da China estabelece que todas as organizações e cidadãos devem “apoiar, auxiliar e cooperar” com os esforços de inteligência do Estado, de acordo com o texto oficial da legislação.
As montadoras chinesas transformaram a América Latina em um mercado estratégico. Um dos eixos dessa expansão é o megaporto de Chancay, no Peru, operado pela China e em funcionamento desde 2024. A partir dali, prevê-se facilitar a distribuição de veículos chineses e de outros produtos para diversos mercados da região.
Nesse cenário, analistas e especialistas em segurança alertaram que o acesso a dados e o controle do software em tecnologias conectadas podem gerar vulnerabilidades, incluindo riscos ligados à vigilância, coleta de dados e interferência em sistemas.
Guajardo acrescentou que a China mantém restrições à operação de veículos estrangeiros com altos níveis de conectividade em seu próprio mercado. “Se eles não permitem isso internamente, o México deveria avaliar a questão com o mesmo critério. Apenas advertir não basta; assumir uma posição de neutralidade é insuficiente neste contexto”.
Produção local e acesso aos mercados
No México, um dos movimentos mais observados envolve a fábrica COMPAS em Aguascalientes, uma joint venture entre a Nissan e a Mercedes-Benz que encerrou suas operações em maio de 2026. As montadoras chinesas BYD e Geely estão entre as empresas interessadas em adquirir a instalação, segundo a Fundação Andrés Bello.
Guajardo observou que o México carece de um marco regulatório para supervisionar o fluxo e o uso de dados gerados por esses sistemas, o que limita a capacidade institucional de administrá-los. As montadoras chinesas respondem a uma estratégia estatal de longo prazo articulada pelo regime da China.
De acordo com a revista mexicana Expansión, o setor é resultado de anos de planejamento e investimento coordenado. Seu crescimento internacional não responde apenas a critérios comerciais, mas também a uma projeção política e estratégica da China no exterior.
Segurança regional e soberania digital
A expansão de veículos com alta integração digital apresenta desafios para a segurança e a gestão de dados na América Latina. Nesse contexto, a avaliação de tecnologias com aplicações comerciais e capacidades duais ganha relevância para os governos da região.
Por fim, Guajardo destacou que esse cenário reforça a necessidade de fortalecer mecanismos de supervisão capazes de administrar o crescente volume de dados gerado por tecnologias conectadas. À medida que os veículos altamente digitalizados se expandem na América Latina, os governos enfrentarão desafios cada vez maiores relacionados à segurança cibernética, à proteção de infraestruturas e à soberania digital.
“O barato pode sair caro”, advertiu ele, ressaltando que os benefícios econômicos também devem ser avaliados à luz de suas implicações operacionais e de segurança.



