A relação entre China e América Latina, muitas vezes apresentada como uma parceria de benefício mútuo, abrange implicações que transcendem o comércio e o investimento. Sob o discurso do “ganha-ganha”, surgem questionamentos sobre o impacto ambiental, o aumento da dívida externa, o controle sobre infraestruturas críticas e a expansão tecnológica, que poderiam ter consequências significativas para a autonomia regional.
De acordo com o think tank norte-americano Council on Foreign Relations (CFR), Pequim consolidou sua presença na região por meio da “cooperação Sul-Sul”, baseada em comércio, investimento e assistência. Suas iniciativas de poder brando, que inclui intercâmbios culturais, visitas oficiais e programas educacionais, aumentou a proximidade diplomática com vários governos, projetando uma imagem de “parceiro confiável”.
Rosa María Marcuzzi, acadêmica da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autônoma do México, explicou à Diálogo que o Fórum China-Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), criado em 2014, tem sido uma das principais ferramentas utilizadas pelo regime chinês, para consolidar sua influência na América Latina.
“Em sua mais recente reunião, realizada em maio, participaram altos mandatários da região, entre eles os presidentes do Brasil, Chile e Colômbia, juntamente com o presidente chinês. No âmbito do CELAC, foi assinado um novo plano de ação 2025-2027, em áreas como tecnologia, energias renováveis e telecomunicações”, disse Marcuzzi. Embora o fórum projete uma relação estratégica integral, “persiste um déficit comercial” em vários países da região.
A China também condiciona suas relações ao rompimento dos laços com Taiwan, uma pressão que tem sido eficaz em vários países. Sua aproximação com Cuba, Nicarágua e Venezuela reforçou os laços com governos que não se regem por princípios democráticos.
Interesse por recursos e controle logístico
A demanda por recursos naturais impulsiona o interesse econômico da China na região. O Triângulo do Lítio – Bolívia, Argentina e Chile – concentra uma parte relevante das reservas globais desse mineral, fundamental para a indústria tecnológica e militar. De acordo com a mídia mexicana Grupo Fórmula, garantir o acesso ao lítio é estratégico para o desenvolvimento industrial chinês.
No Peru, o porto de Chancay, inaugurado em 2024, de propriedade maioritária da empresa chinesa COSCO Shipping, exemplifica essa expansão. O porto reforça as exportações de matérias-primas estratégicas e produtos agrícolas da região. Além disso, foi classificado como um espaço que poderia abrigar tanto atividades comerciais, como militares.
A China investiu em mais de 129 portos no planeta e controla pelo menos 17 portos latino-americanos, como parte de uma estratégia logística global, de acordo com a revista europeia de assuntos exteriores Modern Diplomacy. Esse controle lhe permite exercer pressão sobre governos locais, obter vantagem sobre concorrentes ocidentais e requerer informações sensíveis sobre os movimentos regionais, consolidando assim sua presença geopolítica em áreas ricas em minerais.
Vladimir Rouvinski, diretor do Departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade ICESI, na Colômbia, disse à Diálogo que, se a tendência atual continuar, “em dez anos será impossível desvincular-se da China”. Ele alertou que vários governos da região “não estão considerando as lições de outros países que cederam setores estratégicos, o que poderia gerar sérios riscos no futuro”.
Financiamento, dívida e tratados bilaterais
O investimento e o financiamento diretos da China, canalizados principalmente por bancos estatais, são destinados a projetos de infraestrutura e energia. Em muitos casos, são asseguradas condições que garantem o acesso a recursos naturais, como o petróleo. A Venezuela tem sido a principal destinatária, seguida pelo Brasil, de acordo com o CFR.
Embora esses investimentos apresentem condições mais flexíveis, eles geraram riscos de superendividamento. Em vários países, foram iniciados processos de renegociação. No Chile, por exemplo, há alertas sobre uma crescente dependência econômica.
A China assinou tratados de livre comércio com Chile, Costa Rica, Equador, Nicarágua e Peru. As negociações com o Uruguai não prosperaram, devido à postura do Mercosul, acrescentou. Mais de 20 países, incluindo recentemente Colômbia e Equador, aderiram à Iniciativa do Cinturão e Rota, com a qual Pequim busca consolidar sua influência global.
“A China adapta sua estratégia de acordo com as condições de cada país”, comentou Rouvinski. “Quando encontra pouca supervisão ou escassa transparência, tende a avançar com acordos menos abertos e condições financeiras mais rígidas, aumentando os riscos de dependência.”
Tecnologia e autonomia digital
A participação de empresas chinesas, como Huawei e ZTE, na infraestrutura digital regional, visível no Brasil, na Colômbia e no México, gera preocupação. De acordo com 3GIMBALS, uma consultoria de inteligência para a segurança nacional, o marco legal chinês facilita a cooperação dessas empresas com agências de inteligência, o que representa riscos para a proteção de dados e comunicações. As redes 5G, centros de dados, serviços em nuvem e cidades inteligentes outorgaram à China acesso à infraestrutura digital da região, detalhou. Essa presença tecnológica pode limitar a capacidade dos Estados de tomar decisões autônomas e sustentáveis no âmbito digital, precisou o site de defesa cibernética.
Na Costa Rica, o caso da Huawei tem sido ilustrativo. Após obter contratos 3G no país em 2009, a empresa tem sido questionada por sua estratégia de destacamento 5G. Manuel Tovar, ministro do Comércio Exterior da Costa Rica, destacou “uma pressão incomum do governo chinês nos processos de licitação”, relatou em entrevista à FDI Intelligence, uma publicação do jornal Financial Times.
Em agosto de 2023, a Costa Rica proibiu fornecedores 5G de países não signatários do Convenio de Budapeste, excluindo todas as empresas chinesas, incluindo Huawei. Apesar disso, em abril de 2024, a Huawei organizou um evento para funcionários do Instituto Costarriquenho de Eletricidade, incluindo um funcionário importante em contratos públicos, gerando questionamentos sobre interesses, informou FDI Intelligence.
“A crescente presença de empresas chinesas em setores estratégicos, como telecomunicações, portos, energia e mineração, deveria ser motivo de atenção para toda a América Latina”, alertou Rouvinski. “A longo prazo, o controle desses ativos pode implicar riscos estratégicos significativos para a soberania regional.”
A integração de sistemas chineses de inteligência artificial e armazenamento de dados reforça a dependência tecnológica da América Latina e amplia a influência da China, afirma 3GIMBALS. Para contrariar, recomenda diversificar fornecedores, impulsionar alianças digitais seguras e fortalecer a cooperação em cibersegurança.
Meio ambiente e tensões sociais
O estudo da Universidade de Oxford China na América Latina destaca que o comércio e o investimento chinês na região têm sido associados à degradação ambiental e a conflitos sociais. Os projetos financiados por Pequim concentram-se em mineração, petróleo e agricultura, em áreas de alta biodiversidade e vulnerabilidade ecológica.
Esses desenvolvimentos intensificam a pressão sobre ecossistemas frágeis, geram tensões com as comunidades locais e contribuem para o desmatamento por meio de infraestruturas associadas, como barragens, estradas e ferrovias.
Alguns governos começaram a responder. No Equador, após protestos contra projetos chineses em Mirador e Río Blanco, foi reforçado o papel do Órgão de Avaliação e Fiscalização Ambiental. No Panamá, as autoridades suspenderam licenças de mineração após mobilizações locais, impulsionando uma revisão do cumprimento ambiental.
Mitigar os riscos
Para evitar relações assimétricas com a China, Marcuzzi sugere que os países da região “fortaleçam suas economias internas, atendam às desigualdades sociais e fortaleçam suas democracias”. Somente com bases sólidas, ressaltou, “será possível negociar com Pequim a partir de uma posição mais equitativa e proteger seus interesses a longo prazo”.
Em última análise, “a chave reside na promoção de um debate público mais profundo e de uma maior conscientização sobre as implicações da colaboração com a China […]”, concluiu Rouvinski. “A falta de questionamento sobre a transparência de seus acordos e a dependência adquirida representam um desafio fundamental que exige atenção.”


