Caos político e social na Nicarágua continua sem trégua

Caos político e social na Nicarágua continua sem trégua

Por Gustavo Arias Retana / Diálogo
setembro 20, 2019

O caos sociopolítico vivido pela Nicarágua desde abril de 2018 não diminui. Os exilados têm medo de regressar ao país, as negociações de paz permanecem paradas, o presidente Daniel Ortega insiste em não deixar seu posto e os grupos paramilitares estão cada vez mais ativos nas ruas de todas as cidades.

Segundo o relatório Global Peace Index 2019, elaborado pela ONG Vision of Humanity da Austrália, essas situações transformam a Nicarágua no país latino-americano onde a paz foi mais degradada em 2018. Entre as causas das instabilidades estão o crime violento, a privação da liberdade, a instabilidade política e a intensidade dos conflitos internos.

“A diminuição da paz na Nicarágua foi causada por uma contínua crise política que começou em abril de 2018, quando os protestos contra a reforma do sistema de pensões foram reprimidos de forma violenta pelo Estado e pelos paramilitares. O movimento cresceu em manifestações mais amplas contra a presidência de Daniel Ortega, com demandas por reformas políticas mais abrangentes, incluindo eleições antecipadas”, diz o relatório.

Fátima Villalta, nicaraguense integrante da Coordenadora Universitária pela Democracia e Justiça da Nicarágua, exilada no México, conversou com Diálogo sobre a situação política que seu país vem enfrentando. “O fato de não serem informados os assassinatos em massa, como os ocorridos em junho ou julho de 2018, não significa que as coisas estejam melhorando. Depois da repressão ficou evidente que a ditadura se instalou com um sistema de punição, vigilância e medo”, disse Villalta.

A Associação Nicaraguense Pró-Direitos Humanos, ONG com sede provisória na Costa Rica, informa que entre abril de 2018 e janeiro de 2019 o país registrou 561 mortos e 4.578 feridos, vítimas da repressão do governo de Ortega. Relata ainda que há 1.336 pessoas consideradas desaparecidas nas mãos dos grupos paramilitares.

Mulheres da associação Mães de Abril protestam por seus filhos assassinados durante manifestações contra Daniel Ortega, na comemoração do Dia das Mães em Manágua, no dia 30 de maio de 2019. (Foto: Inti Ocon, AFP)

“Agora falamos de assassinatos seletivos. Pessoas são assassinadas em situações não esclarecidas; são pessoas envolvidas nos protestos, que foram à Costa Rica e regressaram. Continuamos na mesma; não se pode fazer qualquer tipo de manifestação”, garante Villalta.

Gabriela Castro, ativista e comunicadora da Universidade Centro-Americana da Nicarágua, exilada nos Estados Unidos, acrescenta que protestar na segurança do exílio é a única forma para mostrar os abusos do regime de Ortega.

“Não há dúvida de que tememos pela vida; temos medo do que poderemos passar se voltarmos. Muitos dos que estamos no exílio sabemos que só podemos denunciar os abusos de Ortega estando fora do país”, disse Castro à Diálogo. “É perigoso levantar a voz na Nicarágua. Nós, que estamos em outras nações, somos os que continuamos pressionando para mostrar que na Nicarágua a população está sofrendo, que se vive uma ditadura.”

Quase um ano e meio após o início dos protestos na Nicarágua, o panorama é sombrio. As possibilidades de eleições antecipadas são mínimas e a repressão é a tônica em um país que vê a paz se degradar a cada dia, acrescentou Castro.

“Algumas pessoas voltaram [do exílio] e muitas foram assassinadas, perseguidas, presas. Daniel Ortega é o diretor da Polícia Nacional e ele é o responsável. Os paramilitares, infiltrados nas comunidades, foram os que tiraram as barricadas e atacaram as universidades. Eles vigiam, denunciam e são armados pela Polícia Nacional”, finalizou Villalta.

 

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