A produção de cocaína atingiu níveis históricos na América Latina, impulsionada pela expansão simultânea de cultivos ilícitos na Colômbia, no Peru e na Bolívia. Esse fenômeno é agravado pela expansão de complexos corredores transnacionais de tráfico, que facilitam o movimento de narcóticos por todo o hemisfério. Esse aumento fortaleceu as organizações criminosas, acelerando sua adaptação operacional e apresentando desafios cada vez mais complexos para a segurança na região.
Aumento alarmante na produção
Martín Verrier, secretário da Luta contra o Narcotráfico e a Criminalidade Organizada do Ministério da Segurança Nacional da Argentina, declarou, em dezembro de 2025, à revista latino-americana Pucará Defensa que “nos últimos dez anos, a produção de cocaína aumentou em 500 por cento” na região. Esse número reflete uma década de crescimento ininterrupto; de acordo com o Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC), somente na Colômbia, a área dedicada ao cultivo de coca aumentou mais de 400 por cento entre 2013 e 2023, enquanto a melhoria na eficiência dos laboratórios multiplicou ainda mais a produção final.
Segundo Verrier, o aumento mais significativo foi observado na Colômbia nos últimos três anos, gerando um excedente que alterou a dinâmica tradicional do tráfico. Os carregamentos continuam saindo da região para a América e a Europa, que se tornou o segundo maior mercado depois dos Estados Unidos, segundo o meio de comunicação argentino Infobae.
Fatores que impulsionam a produção colombiana
Daniel Potón, reitor da Escola de Segurança e Defesa da Universidade de Pós-Graduação do Estado, no Equador, explicou à Diálogo que o aumento da produção de cocaína na Colômbia se acelerou a partir de 2013, coincidindo com o início das negociações de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). A saída do grupo de várias áreas de cultivo de coca enfraqueceu o controle territorial existente e deu lugar a uma estrutura mais fragmentada, sustentada por dissidências e novas organizações criminosas.
Essa desestabilização foi agravada pela suspensão da pulverização aérea com glifosato, primeiro nas áreas fronteiriças e depois em nível nacional. Potón destacou que “as estratégias de erradicação manual e substituição de culturas não conseguiram compensar essa perda de capacidade”, enquanto a pandemia mundial reduziu ainda mais a presença do Estado nas áreas rurais e piorou as condições econômicas, favorecendo a expansão das culturas.
“Desde 2021, a produção se concentrou em enclaves específicos, com maior tecnificação e especialização das cadeias do narcotráfico. Esse cenário gerou excedentes sem precedentes, alterou rotas e tempos operacionais e fortaleceu a projeção transnacional das organizações criminosas”, precisou Potón. “A cocaína colombiana é a preferida nos mercados de consumo mais importantes.”
Estrutura do narcotráfico na região
De acordo com o relatório Luta contra o narcotráfico na América Latina, da Comunidade de Polícias da América (AMERIPOL), as redes de tráfico adaptam suas operações às vantagens geográficas específicas de cada país. O Equador e o Panamá atuam como nós logísticos importantes, usados para a contaminação de contêineres e o trânsito marítimo. No Caribe e no Pacífico, lanchas rápidas, rotas costeiras e centros de armazenamento temporário facilitam o transporte da cocaína produzida na América do Sul, enquanto portos como Colón, Esmeraldas e Guayaquil concentram as atividades de coordenação criminosa.
Na Colômbia, as plantações ilícitas continuam localizadas em enclaves históricos conectados a redes transnacionais que integram produção, rotas e mercados. No Peru, o narcotráfico se apoia em áreas de difícil acesso e na vasta rede fluvial amazônica, para transportar carregamentos para a Bolívia e o Brasil, além de utilizar portos e aeroportos para envios para Europa, Estados Unidos e Ásia, através de correios humanos e encomendas, ressalta AMERIPOL.
Entre os atores dominantes com uma sólida presença internacional, estão os cartéis mexicanos (como os cartéis de Sinaloa e Jalisco Nova Geração), o Clã do Golfo, da Colômbia, e o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), do Brasil. Essas organizações costumam trabalhar em colaboração com grupos regionais, como o Tren de Aragua, e gangues locais, que fornecem segurança territorial e distribuição no varejo.
Além disso, incorporaram drones para vigiar rotas, monitorar a presença das forças de segurança e apoiar o transporte de carregamentos de menor volume, especialmente em zonas fronteiriças.
Resposta estatal e colaboração internacional
Diante dessas ameaças em constante evolução, os Estados latino-americanos intensificaram a cooperação operacional e o intercâmbio de inteligência. Uma pedra angular desse esforço é a Força-Tarefa Conjunta Interagencial Sul (JIATF-South), componente do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), que coordena ações multilaterais de detecção e interdição nos âmbitos marítimo e aéreo, para interceptar carregamentos ilícitos e enfraquecer as organizações criminosas transnacionais.
Com base nisso, foi lançada a Operação Lança do Sul (Operation Southern Spear), liderada pelo SOUTHCOM, como um marco de colaboração para combater as organizações de narcotraficantes e aumentar a segurança regional. Essa abordagem enfatiza as operações baseadas na colaboração, com foco na integração perfeita da inteligência multinacional e no fortalecimento da consciência do ambiente marítimo, para identificar e interceptar ameaças em tempo real.
Esses esforços são complementados por operações multinacionais, como a Operação Orion, liderada pela Marinha Nacional da Colômbia. A campanha se tornou uma operação periódica, na qual participam mais de 40 países da América, Europa e África. Os resultados recentes das fases Orion XV e XVI demonstraram um sucesso sem precedentes, com a apreensão de quase 4.000 toneladas métricas de substâncias ilícitas e a interceptação de cerca de 80 semissubmersíveis.
Em nível regional, a Organização dos Estados Americanos (OEA) promove a cooperação entre os Estados membros, através do intercâmbio de melhores práticas, assistência técnica e grupos de especialistas em narcotráfico marítimo, fluvial e portuário, com o objetivo de fortalecer as capacidades nacionais de interdição e coordenação hemisférica.
Fortalecimento da resiliência regional e da coordenação estratégica
O futuro da segurança na América Latina está cada vez mais definido pela capacidade das nações parceiras para integrar suas capacidades defensivas e modernizar suas instituições.
Embora o aumento da produção represente um desafio importante, ele também serviu de catalisador para alcançar níveis sem precedentes de coordenação estratégica em todo o hemisfério.
“Se o aumento da cocaína não for revertido no curto prazo, a região poderia entrar em uma fase de profunda reconfiguração do narcotráfico, marcada por novas formas de produção e distribuição, bem como pelo deslocamento dos centros de gravidade do negócio ilícito”, alertou Potón. “Esse processo estaria acompanhado por um aumento das tensões políticas e por uma maior pressão sobre os países.”
Como conclui Potón, “a proximidade entre o narcotráfico e o poder político continua sendo um risco latente e a infiltração criminosa na política pode aprofundar-se, se as capacidades institucionais e os mecanismos de controle não forem fortalecidos”. Através de esforços coletivos contínuos, a região se empenha em continuar desenvolvendo as capacidades necessárias para mitigar esses riscos e garantir a estabilidade a longo prazo.


