O foco sobre a influência da China em TikTok destaca uma realidade mais ampla: a máquina de propaganda e desinformação do Estado russo, que usa a plataforma para disseminar sua desinformação e narrativas em inglês e espanhol para o público jovem, ressalta uma investigação da ONG Brookings Institution, com sede nos EUA, publicada em 2 de maio.
Desde o início de 2024, as contas ligadas ao regime russo aumentaram sua presença no TikTok. Embora essas contas tendam a ser mais ativas em outras plataformas, o relatório revela que a participação por publicação é maior. A investigação, baseada em dados coletados de 70 contas afiliadas, foi conduzida por Valerie Wirtschafter, investigadora da Brookings.
Wirtschafter disse ao jornal The Washington Post que, enquanto fazia um seguimento das contas, sentiu “como se tivesse visto a evolução do processo e do reconhecimento de que esse é um espaço emergente ao qual eles deveriam dedicar recursos”.
Jovens latino-americanos
Vladimir Rouvinski, diretor do Departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade ICESI, na Colômbia, disse à Diálogo, em 14 de maio, que o relatório da Brookings revela como a maioria dos vídeos vinculados à máquina de propaganda russa em TikTok adota estratégias semelhantes às usadas pela mídia afiliada à Rússia na América Latina, como RT.
A análise da Brookings não implica uma mudança de estratégia por parte da Rússia, mas sim uma tentativa de capitalizar o entusiasmo dos jovens pela plataforma, diz Rouvinski, que observou que TikTok está crescendo significativamente no Brasil e no México, e o Kremlin está procurando capitalizar essa tendência, especialmente diante das políticas de segurança mais rígidas do Facebook e do YouTube.
Lado sombrio
O Senado dos EUA aprovou um projeto de lei em 23 de abril, que exige que a ByteDance, empresa controladora de TikTok, venda a plataforma ou enfrente uma possível proibição do aplicativo no país. TikTok, com milhões de usuários em todo o mundo, está sob escrutínio por causa da segurança dos dados e de seus laços com o Partido Comunista Chinês, informa a plataforma norte-americana Voz da América (VOA).
James Rubin, coordenador do Centro de Compromisso Global do Departamento de Estado dos EUA, uma agência dedicada a detectar e combater a propaganda política e a desinformação, disse à plataforma de notícias argentina Infobae que “a Rússia e a China realizam operações secretas de desinformação na região da América Latina”.
Ele destacou como as redes sociais e a internet antes costumavam ser vistas como ferramentas positivas para a democracia, mas agora seu “lado escuro” é reconhecido, especialmente quando “Moscou e Pequim aproveitam essas tecnologias para influenciar a opinião pública na América Latina, manipulando percepções sobre conflitos como o da Ucrânia, onde a Rússia está realizando uma invasão ilegal e violência indiscriminada”.
É essencial fazer a distinção entre o direito à informação, a liberdade de expressão e o uso indevido dessa liberdade de informação. TikTok é uma plataforma em que os usuários consomem informações. “Reconhecendo sua popularidade e o uso indevido pela mídia russa e chinesa, os Estados Unidos têm todo o direito de proteger a integridade do espaço de informação”, disse Rouvinski.
Conteúdo persuasivo
As narrativas apoiadas pela Rússia estão encontrando um público mais amplo em TikTok do que em outras plataformas, conforme evidenciado pelas altas taxas de participação em cada publicação, informa Brookings. Além disso, a inteligência artificial pode aumentar a produção de conteúdo persuasivo. Isso sugere que Moscou destinará mais recursos para atingir esses públicos, especialmente os jovens.
Além disso, sugere que se deve reconhecer que TikTok é um espaço onde diferentes perspectivas competem, não apenas aquelas aprovadas pela China. Ignorar o escopo do conteúdo aprovado por Moscou permite que essas narrativas circulem sem contestação, o que é arriscado, dada a eficácia dos esforços do governo dos EUA para dizer a verdade e combater a desinformação.
Portanto, o debate público nos EUA sobre essa plataforma é crucial, pois isso pode aumentar o nível de conscientização e compreensão sobre TikTok no mundo. “Sem esse debate e a atenção do público, TikTok poderia continuar operando como tem feito até agora. O acesso a informações verdadeiras é um direito humano fundamental”, concluiu Rouvinski.


