A América Latina ocupa um lugar cada vez mais central na estratégia de abastecimento de ouro da China, que, segundo um número citado pela Fundação Francesa para a Investigação Estratégica (FRS), já poderia representar até 10 por cento das reservas mundiais. Para a China, o ouro é uma ferramenta para reduzir a dependência do dólar e reforçar a segurança dos recursos, pilar do “conceito global de segurança nacional” de Xi Jinping.
“O ouro, como moeda universal que pode circular fora do sistema financeiro mundial, não serve apenas como reserva de valor, mas também como ferramenta para contornar sanções econômicas em caso de crises diplomáticas”, explica à Diálogo o especialista em cadeias de abastecimento ilícitas e exploração criminosa de recursos extrativos, David Soud, responsável por investigação e análise da I.R. Consilium, uma consultoria internacional especializada em segurança global, direito e crimes relacionados a recursos.
O Partido Comunista da China participa diretamente da aquisição de ouro, tanto através do Banco Popular e dos corretores, quanto com políticas que incentivam as compras e a extração no exterior. Essas iniciativas geralmente se baseiam em cadeias de abastecimento opacas, com altos custos ambientais e sociais.
Um exemplo emblemático é o Mirador, um megaprojeto de cobre e ouro localizado a aproximadamente 1.000 metros de altitude na Cordilheira do Condor, na província equatoriana de Zamora-Chinchipe. Considerado um dos maiores depósitos do mundo, abriga 4,82 milhões de onças de ouro e 6,34 milhões de onças de prata. A empresa transnacional chinesa Ecuacorriente S.A. (ECSA), parte do consórcio estatal China Railways Construction Corporation (CRCC)-Tongguan, é a detentora da concessão e foi acusada de corrupção e graves desastres ambientais na China e em outros lugares.
De acordo com um relatório da organização não governamental Acción Ecológica e da Universidade Central do Equador, a expansão do Mirador causou vários problemas: deterioração das estradas, devido ao tráfego pesado, deslocamento das comunidades locais, grave poluição dos rios com repercussões na pesca e na saúde, condições de trabalho abusivas e um clima de violência marcado pelo assassinato, em 2014, do líder indígena shuar José Tendetza.
“O preço coletivo do comportamento predatório que muitas vezes caracteriza a exploração desenfreada do ouro é devastador: prejudica o meio ambiente, compromete a saúde pública e priva os países de receitas fundamentais derivadas dos recursos”, afirma Soud.
Na mesma área, outra empresa de mineração chinesa, a Totalfor, retirou-se repentinamente em maio, deixando dezenas de famílias na ruína, sem pagar os mais de US$ 1,9 milhão que devia às empresas e aos trabalhadores locais. Contratos não cumpridos, cheques sem fundos e danos ambientais transformaram a promessa de desenvolvimento em pobreza e dívidas.
Entre a mineração informal e a ilegal
De acordo com um relatório recente do Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC), a crescente demanda chinesa, que impulsionou os preços para mais de US$ 3.000 por onça, está favorecendo um mercado ilegal de ouro na América Latina. Essa economia ilícita aumenta a instabilidade regional, na qual operam diversos atores criminosos, desde cartéis de drogas, até máfias chinesas, como as tríades e a de Fujian.
Na Bolívia, redes criminosas chinesas se escondem atrás de cooperativas locais, que recebem em troca uma pequena parte dos lucros. No Peru, elas estão transformando a pequena extração artesanal em atividades industriais de alto impacto ambiental, especialmente em Madre de Dios, na Amazônia, em Puno e nos Andes, na fronteira com Equador. O uso de cianeto altamente tóxico é frequente, porque permite aos mineiros extrair duas ou três vezes mais ouro do mesmo mineral do que com o mercúrio.
Também na Guiana e na Venezuela, as autoridades identificaram investidores e operadores chineses como figuras centrais no tráfico ilegal de ouro, com redes logísticas que facilitam seu transporte. No Equador, relatórios recentes ressaltam sua presença nas áreas mineradoras do norte, na província de Imbabura. Entre 2017 e 2024, a extração ilegal de ouro devastou mais de 1.700 hectares da Amazônia equatoriana, especialmente na província de Napo. Análises clínicas realizadas em 2024 detectaram metais pesados no sangue das comunidades indígenas kichwaruna, enquanto a violência aumenta. Em maio passado, 11 militares foram assassinados na província de Orellana, durante uma operação contra grupos armados ligados ao tráfico de ouro.
A rede chinesa de comerciantes internacionais
De acordo com o Observatório de Conflitos Minerais da América Latina (OCMAL), desde 2020 as exportações de concentrados de ouro do Peru dispararam, quase todas com destino à China. Em 2024, elas atingiram quase 400.000 toneladas, no valor de US$ 884 milhões, 20 vezes superior ao total de 2019.
Os principais exportadores não são empresas mineradoras, mas comerciantes internacionais, que compram o concentrado de terceiros, sem declarar sua origem no momento do envio. Entre os principais operadores no Peru estão a IXM, controlada pelo consórcio chinês CMOC, e a Humon Latin America, parte do grupo Humon, que opera fundições na China.
“Algumas empresas chinesas que exportam, por exemplo, minério bruto ou concentrado são subsidiárias ou estão intimamente ligadas a empresas chinesas especializadas na extração de minerais críticos”, diz Soud.
Os concentrados de ouro são, na verdade, multimetálicos. Por isso, segundo o especialista, muitas vezes, quando são exportados, apenas o metal principal, como o ouro, é declarado, o que permite que outros elementos preciosos que eles contêm, incluindo terras raras e minerais críticos, sejam enviados para a China. De acordo com OCMAL, os concentrados de ouro também chegam ao Peru de países vizinhos, como Equador, Colômbia e Bolívia, por meio de comerciantes chineses como IXM, que utilizam os depósitos do porto de Callao como centro logístico, para depois enviar os carregamentos, juntamente com os de origem peruana, para a China.
Também são utilizadas mulas chinesas para transportar concentrado de ouro para o seu país e, nos últimos meses, ocorreram várias apreensões em aeroportos brasileiros, sendo Hong Kong um dos destinos mais frequentes.
“O concentrado de ouro se presta perfeitamente à lavagem de dinheiro: parece areia, não tem referências de preço reconhecidas, é difícil de identificar para a maioria dos funcionários de alfândegas e pode ser facilmente faturado de forma fraudulenta ou declarado de forma imprecisa”, diz Soud. Essa opacidade e seu uso para crimes financeiros representam um desafio fundamental para a segurança regional.
Para prevenir o comércio ilícito de ouro, segundo o especialista, são necessários incentivos concretos para a regularização dos pequenos mineradores, um controle estatal mais rigoroso dos portos e das zonas de livre comércio e uma vigilância mais estreita dos fluxos de minério bruto e concentrado.


