Seis interdições marítimas em menos de duas semanas no Pacífico Oriental estão colocando em evidência uma parte crítica da infraestrutura do narcotráfico de Los Choneros: as embarcações que abastecem redes criminosas no mar e permitem que elas operem em vastas extensões oceânicas.
Em 28 de agosto e nos dias 2, 3, 5, 7 e 8 de setembro, forças dos Estados Unidos interceptaram, em águas internacionais, embarcações equatorianas que, segundo informações de inteligência, funcionavam como postos flutuantes de reabastecimento em apoio ao grupo terrorista Los Choneros. Autoridades norte-americanas e equatorianas afirmaram que as operações foram realizadas em conjunto, como parte da cooperação antinarcóticos em andamento entre os dois países.
Fontes equatorianas e veículos de comunicação identificaram cinco das principais embarcações como Los Tres Hermanos, Conquista 2, OM2, María Candelaria e Montecristi.
O Ministério da Defesa Nacional do Equador vinculou as embarcações à infraestrutura marítima de Los Choneros. Segundo a pasta, a embarcação interceptada em 28 de agosto pertencia à organização terrorista e havia operado como posto de reabastecimento para atividades de narcotráfico, enquanto a embarcação interceptada em 2 de setembro “era utilizada para sustentar operações criminosas no mar”. Posteriormente, o Ministério identificou a María Candelaria, interceptada em 5 de setembro, como outro suposto posto flutuante de reabastecimento ligado a Los Choneros, utilizado para abastecer embarcações menores envolvidas no tráfico ilícito de drogas. O Ministério atribuiu as ações contra as embarcações em águas internacionais ao seu “aliado”, o Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM).
As interdições ocorreram em meio à intensificação da campanha equatoriano-norte-americana contra a infraestrutura, as finanças, a liderança e as redes logísticas que sustentam organizações criminosas transnacionais. Dias antes da primeira interdição, forças policiais e militares equatorianas realizaram operações simultâneas contra Los Choneros e Los Lobos em cinco províncias costeiras, com o apoio do SOUTHCOM e da Administração Federal Antidrogas dos EUA (DEA).
As ações também ocorreram após meses de operações marítimas entre o Equador e os Estados Unidos, enquanto os países que participam da Coalizão das Américas contra os Cartéis (ACCC) avançam em direção a uma maior coordenação contra redes criminosas transnacionais.
Ataque à logística
O foco vai além da apreensão de carregamentos individuais de cocaína.
Em 20 de agosto, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos sancionou 15 alvos sediados no Equador e identificou 10 embarcações como bens bloqueados em conexão com uma rede de tráfico de cocaína cujos integrantes estavam ligados a Los Choneros e Los Lobos.
Segundo o Departamento do Tesouro, uma frota que operava nas proximidades de Manta sob a fachada de empresas pesqueiras legítimas apoiava o tráfico de cocaína pelo Pacífico Oriental. As embarcações forneciam combustível, alimentos e assistência médica a lanchas rápidas carregadas de cocaína em pontos coordenados no mar, enquanto algumas monitoravam a atuação das forças de segurança. Pelo menos uma embarcação também transportava carregamentos de várias toneladas de cocaína.
O Departamento do Tesouro afirmou que a rede transportava clandestinamente milhares de quilogramas de cocaína por mês da América do Sul para o México, onde organizações criminosas mexicanas, como o Cartel de Sinaloa e o Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG), encaminhavam a droga para distribuição nos Estados Unidos.
As sanções fazem parte do que o Departamento do Tesouro descreveu como uma abordagem baseada em redes, destinada a atingir não apenas as lideranças criminosas, mas também os facilitadores e a infraestrutura que viabilizam as operações de narcotráfico.
A identificação dessas redes de apoio no mar depende fortemente de inteligência. O ministro da Defesa Nacional do Equador, Gian Carlo Loffredo, afirmou que as operações marítimas conjuntas começam antes de as forças entrarem em ação.
“As operações conjuntas começam, primeiro, com informações prévias de inteligência e, segundo, com o reconhecimento da embarcação”, disse Loffredo à televisão equatoriana em 28 de agosto.
Pressão sobre as redes criminosas
As ações marítimas fazem parte de uma pressão mais ampla sobre a infraestrutura criminosa que sustenta Los Choneros e outras organizações criminosas transnacionais no Equador.
Essa pressão se estendeu para além de Los Choneros. Em 9 de setembro, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, anunciou a designação de Los Tiguerones, grupo sediado no Equador, como Organização Terrorista Estrangeira e Terrorista Global Especialmente Designado. O Departamento de Estado vinculou o grupo ao narcotráfico e a outras atividades ilícitas, bem como a ataques contra civis, agentes de segurança e jornalistas. As designações somam Los Tiguerones às organizações criminosas equatorianas já designadas pelos Estados Unidos, entre elas Los Choneros, Los Lobos e Chone Killers.
Em 26 de agosto, a Polícia Nacional do Equador, em coordenação com a Procuradoria-Geral do Estado e com o apoio da DEA e do SOUTHCOM, realizou as operações Jericó e Factoría contra Los Choneros e Los Lobos em Guayas, Manabí, Santo Domingo de los Tsáchilas, El Oro e Esmeraldas. As operações foram resultado de investigações que duraram mais de um ano.
As autoridades detiveram 43 pessoas e apreenderam 2,5 toneladas métricas de drogas, mais de R$ 5,09 milhões em dinheiro, 21 veículos, uma aeronave e armas de fogo. Também identificaram duas pistas clandestinas e apreenderam combustível e outros materiais logísticos.
A Polícia Nacional do Equador descreveu as operações como “um golpe direto nas economias do crime organizado”, por meio da intervenção em bens, recursos, armas, veículos, dinheiro, substâncias controladas e meios logísticos supostamente utilizados para sustentar atividades criminosas.
“A DEA tem orgulho de apoiar esse esforço ao lado das forças militares dos Estados Unidos, trabalhando ombro a ombro com as forças de segurança equatorianas para desarticular as redes criminosas, os recursos e a infraestrutura que alimentam o narcotráfico internacional”, afirmou o diretor da DEA, Terry Cole. “Esta operação demonstra o que nossas nações podem alcançar por meio de uma cooperação sólida e contínua contra o narcoterrorismo.”
O Almirante de Esquadra Francis L. Donovan, do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, comandante do SOUTHCOM, situou as operações no contexto de seu impacto mais amplo sobre as organizações criminosas. “Essas operações representam um duro golpe contra a logística, as finanças e a liderança de uma rede ilícita regional que disseminou corrupção e violência por todo o Hemisfério Ocidental”, afirmou o Alte Esq Donovan.
Dois dias depois, a campanha avançou para o mar com a interdição do Los Tres Hermanos.
Cooperação no mar
As operações marítimas entre o Equador e os Estados Unidos se expandiram significativamente em 2026. Loffredo afirmou em agosto que a cooperação com os Estados Unidos havia triplicado a capacidade de interdição marítima do Equador.
No início do ano, a Operação Pulpo utilizou uma plataforma marítima dos Estados Unidos, o U.S. Ship Special Mission (SSM), um modelo de cooperação sob o controle tático da Força-Tarefa Conjunta Interagencial Sul (JIATF-Sul), para embarcar e mobilizar equipes equatorianas a centenas de milhas no Pacífico Oriental. Informações de inteligência fornecidas por meios norte-americanos, equatorianos e de outros países parceiros apoiaram a missão, enquanto o pessoal equatoriano realizou abordagens e inspeções sob autoridade legal equatoriana.
Em uma interdição a aproximadamente 180 milhas náuticas do Equador, forças equatorianas apreenderam 2.062 quilogramas de cocaína transportados em três embarcações que operavam de forma coordenada.
“O SSM permite que as forças equatorianas projetem seu impacto operacional a mais de 200 milhas náuticas da costa”, afirmou um alto funcionário equatoriano após a operação.
Essa cooperação marítima continuou nas operações mais recentes. Em cada uma das interdições, as pessoas a bordo foram retiradas antes de as embarcações serem afundadas. O SOUTHCOM afirmou que as pessoas a bordo da embarcação interceptada em 28 de agosto foram escoltadas em segurança até o Equador, enquanto aquelas retiradas durante as interdições de 2, 3, 5, 7 e 8 de setembro foram transferidas em segurança para as autoridades equatorianas.
Posteriormente, a Marinha do Equador confirmou o retorno de tripulantes envolvidos nas operações. Vinte e oito tripulantes da Conquista 2 e da OM2 chegaram a Manta a bordo de uma embarcação da Guarda Costeira equatoriana em 4 de setembro. Após a operação de 5 de setembro, a Marinha confirmou que uma unidade da Guarda Costeira recebeu os 26 tripulantes da María Candelaria e os transportou em direção a Manta. Outros oito tripulantes da Conquista 2, que haviam deixado a embarcação em quatro pequenos barcos, foram localizados por uma unidade da Guarda Costeira equatoriana em 5 de setembro e levados para um porto seguro.
Das operações bilaterais à ação regional
A campanha contra a logística marítima ocorre enquanto o Equador e seus parceiros ampliam o foco de operações bilaterais para uma ação regional coordenada por meio da ACCC.
Durante a segunda reunião da coalizão, realizada no Panamá em agosto, líderes de defesa e segurança analisaram as rotas, a logística, os atores e os métodos utilizados pelas organizações criminosas transnacionais.
“Identificamos quais são as ameaças que estamos combatendo como região, quais são os atores que geram essas ameaças, quais são as rotas, a logística que utilizam e seu modus operandi”, disse Loffredo ao Diálogo após a reunião. “Também estabelecemos os pontos críticos onde vamos atacar cada uma dessas estruturas, em cada uma das cadeias logísticas que possuem no narcotráfico.”
Essa abordagem já pode ser observada no Pacífico Oriental.
O SOUTHCOM afirmou que as recentes interdições “cortam um ponto crítico” na cadeia logística dos narcotraficantes e contribuem para os objetivos da ACCC e da Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental (JTF-WHEM).
“Estamos tomando medidas decisivas para desmantelar e destruir sofisticadas redes logísticas utilizadas por narcoterroristas para traficar drogas e disseminar violência por todo o Hemisfério Ocidental”, afirmou o Alte Esq Donovan após a operação de 2 de setembro. “Esta operação demonstrou as capacidades de elite e a precisão da Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental, que está de prontidão na região para aplicar fricção sistêmica total sobre essas redes.”
Para o Equador, a Coalizão amplia para um grupo maior de parceiros regionais uma abordagem que já vem sendo utilizada com os Estados Unidos.
“Já vínhamos realizando ações conjuntas com os Estados Unidos, mas agora faremos isso como uma equipe regional que enfrenta a ameaça”, disse Loffredo ao Diálogo.
As operações recentes ilustram a amplitude da infraestrutura que agora está sendo alvo dessas ações. Em questão de semanas, as autoridades agiram contra redes financeiras, empresas e embarcações vinculadas ao narcotráfico; apreenderam drogas, armas, dinheiro, veículos, combustível, uma aeronave e outros ativos logísticos; e retiraram embarcações que, segundo as autoridades, abasteciam operações de narcotráfico no mar.
Como Loffredo disse ao Diálogo após a reunião da ACCC, o objetivo é atuar contra as diferentes partes das redes que sustentam o crime organizado.
“Este é o momento de acabar com esse mal de uma vez por todas”, afirmou.