Diante da expansão e da crescente sofisticação das organizações criminosas transnacionais (OCT) na América Latina, os governos da região estão intensificando a cooperação para combater essas redes e suas atividades ilícitas. À medida que os grupos criminosos operam além das fronteiras e diversificam suas atividades, do tráfico de drogas aos crimes ambientais, as respostas nacionais isoladas têm se mostrado insuficientes, impulsionando uma transição para abordagens mais coordenadas e baseadas em inteligência.
Um exemplo dessa tendência é a aliança entre a Interpol e o Brasil, formalizada no início de 2026, que resultou na criação de uma força-tarefa regional, sediada em Buenos Aires, reunindo forças policiais e agências de segurança sul-americanas para aprimorar o intercâmbio de informações, coordenar operações e atingir as estruturas logísticas e financeiras que sustentam as redes criminosas.
Diversas operações realizadas graças a essa cooperação evidenciam o valor da inteligência compartilhada e da coordenação operacional, como no caso da operação Guyana Shield, em dezembro de 2025. A intervenção levou à prisão de cerca de 200 pessoas envolvidas no tráfico ilegal de ouro entre o Brasil, a Guiana Francesa, a Guiana e o Suriname. Foram decisivos os controles e as apreensões realizados conjuntamente por agentes dos diferentes países, em particular ao longo dos rios fronteiriços Oiapoque e Maroni, onde operações espelho coordenadas em ambos os lados da fronteira permitiram interromper os fluxos ilícitos.
Essa colaboração se baseia em um modelo que integra o intercâmbio de dados — permitindo cruzar informações sobre fluxos financeiros e movimentos transfronteiriços — e uma abordagem multicrime, que conecta o tráfico de drogas aos crimes ambientais e outras atividades ilícitas. “Este novo paradigma desloca o foco das apreensões pontuais para o desmantelamento estratégico das estruturas logísticas e do poder econômico das redes criminosas”, declarou ao Diálogo Roberto Uchôa, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
A Amazônia: convergência de economias criminosas
A Amazônia tornou-se um espaço-chave onde essas dinâmicas convergem. De acordo com um estudo publicado em abril de 2026 pela iniciativa Amazônia 2030, intitulado Da exploração ilegal dos recursos naturais ao tráfico internacional de cocaína: padrões de violência na Amazônia brasileira, a violência na região está cada vez mais ligada à expansão de redes criminosas que operam por meio de múltiplas economias ilícitas.
O relatório destaca uma mudança na forma como a violência é gerada e sustentada. Até 2017, as facções criminosas representavam 29 por cento das mortes associadas a fatores de risco identificados pelo estudo em pequenos municípios da Amazônia legal brasileira. Entre 2018 e 2023, essa proporção aumentou para 56 por cento, refletindo o peso crescente do crime organizado nos padrões de violência na região.
Essa evolução está intimamente relacionada à transformação das vias fluviais amazônicas em corredores estratégicos do tráfico. Após a política brasileira de interdição aérea introduzida em meados da década de 2000, as rotas do tráfico de drogas deslocaram-se progressivamente para os rios, reforçando a importância estratégica de áreas remotas onde a presença do Estado é limitada. Essas rotas sustentam não apenas o tráfico de drogas, mas também a mineração ilegal, o desmatamento e outras formas de crimes ambientais, gerando economias ilícitas sobrepostas que se tornam mais difíceis de desmantelar.
Entre as organizações mais ativas no controle das rotas fluviais amazônicas está o Comando Vermelho (CV). “O CV estabeleceu alianças diretas com produtores de coca e fornecedores de armas, buscando garantir o controle das rotas fluviais e terrestres para abastecer o mercado interno brasileiro e as rotas internacionais, em particular ao longo do rio Solimões na região amazônica”, explica Uchôa.
As zonas de fronteira continuam sendo especialmente vulneráveis, utilizadas tanto para contornar controles quanto para transferir mercadorias ilícitas entre grupos criminosos. Nesse contexto, mecanismos como o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia (CCPI-Amazônia), sediado em Manaus, ganharam relevância crescente ao apoiar operações conjuntas e facilitar o intercâmbio de inteligência entre os países da região.
“A evolução desses mecanismos marca a transição de uma cooperação meramente reativa para uma inteligência estratégica integrada”, declarou Uchôa. “O CCPI-Amazônia, com sede em Manaus, é emblemático porque institucionaliza o intercâmbio de dados em tempo real entre os países da bacia amazônica”.
Ao mesmo tempo, os países da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) vêm combinando cada vez mais esforços policiais e militares para enfrentar esses desafios. Um exemplo é a operação realizada em janeiro de 2026 na zona da tríplice fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil, no departamento peruano de Loreto, onde foram apreendidas e destruídas mais de 2,6 toneladas de sulfato de cocaína e 6 toneladas de precursores químicos utilizados na produção de drogas. Esse tipo de ação destaca o papel das forças armadas em tarefas de interdição, vigilância e controle territorial em apoio às forças de segurança.
O desafio do crime organizado
A crescente expansão de grupos criminosos transnacionais, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Tren de Aragua, torna o desafio ainda mais complexo. “De origem brasileira, o PCC se consolidou como a maior organização transnacional da América Latina”, afirma Uchôa. Sua expansão para países como Paraguai e Bolívia permitiu ao grupo influenciar diferentes elos da cadeia de abastecimento de cocaína, desde a produção até a distribuição para a Europa e a África, muitas vezes por meio de portos como o de Santos.
O Trem de Aragua, designado como organização terrorista por vários países do hemisfério em 2025, expandiu-se para diversos países, inclusive fora da América Latina, acompanhando os fluxos migratórios. Inicialmente focado no tráfico de pessoas e na extorsão, o grupo diversificou suas atividades e fortaleceu sua presença transnacional.
Um exemplo recente é o de Jorge Luis Páez Cordero, conhecido como Cucaracho, ligado ao líder do grupo, Niño Guerrero. Ele é acusado de traficar cocaína para os Estados Unidos e a Europa e de coordenar operações financeiras na região, o que ilustra como essas redes combinam logística operacional com integração financeira.
“Trata-se de grupos que evoluíram de estruturas rigidamente hierárquicas para modelos de rede fluidos e descentralizados”, afirma Uchôa. Segundo o especialista, essa expansão se baseia na exploração de “zonas cinzentas” de soberania, especialmente em áreas fronteiriças onde a presença do Estado é limitada. “O crime organizado não respeita fronteiras; pelo contrário, utiliza-as como mecanismo de proteção contra jurisdições nacionais limitadas”, afirma o especialista.
Uchôa também destaca a capacidade desses grupos de lavar dinheiro, integrando a economia ilegal aos mercados legais, o que complica ainda mais os esforços de controle. Nesse cenário, o fortalecimento da cooperação regional continua sendo fundamental: somente respostas mais integradas — que combinem troca de inteligência, operações coordenadas e ações contra as finanças ilícitas — poderão conter de forma eficaz a expansão do crime organizado transnacional.



