A Venezuela pode estar entrando em uma nova fase em seu papel nos esforços regionais de combate às organizações criminosas transnacionais (OCTs).
Após a prisão de Nicolás Maduro em janeiro de 2026, o país mergulhou em uma transição política instável sob uma liderança interina. Ao mesmo tempo, o engajamento diplomático com os Estados Unidos e países vizinhos começou a reabrir canais interrompidos há anos. Embora o cenário siga em evolução, esses desenvolvimentos já começam a remodelar as condições sob as quais a cooperação regional em segurança pode ocorrer. Na prática, essa mudança pode influenciar a forma como as redes criminosas operam na Venezuela e através de seu território, particularmente nos principais centros urbanos.
Durante grande parte da última década, a Venezuela permaneceu em grande medida fora das estruturas regionais de segurança destinadas a combater as OCTs. Esse isolamento limitou o intercâmbio de inteligência, restringiu operações conjuntas e abriu brechas ao longo dos principais corredores de tráfico que ligam os Andes ao Caribe. À medida que as redes criminosas se adaptaram e expandiram, essas lacunas tornaram-se cada vez mais críticas — não apenas para a dinâmica da segurança regional, mas também para a resiliência e o alcance das próprias redes.
Reabertura dos canais de cooperação
Ações recentes dos EUA oferecem os primeiros sinais de um reengajamento institucional. A reabertura dos canais diplomáticos, ajustes na política de sanções e restabelecimento dos contatos diretos com as autoridades venezuelanas reconstruíram mecanismos básicos necessários à cooperação.
A geografia torna a Venezuela central nessa equação. O país está situado ao longo de rotas críticas de trânsito para a cocaína originária da Colômbia, com fluxos passando por seu território e por suas águas costeiras em direção ao Caribe rumo os mercados norte-americanos e europeus. Durante anos, a ausência de cooperação contínua dificultou os esforços para monitorar e interromper esses fluxos, permitindo sua exploração por redes criminosas.
No domínio marítimo, onde a interdição depende da coordenação entre diferentes jurisdições, a participação da Venezuela pode ter um impacto desproporcional. As operações dos EUA e de países parceiros no Caribe se expandiram nos últimos anos. A posição geográfica da Venezuela ao longo de corredores costeiros e marítimos estratégicos destaca o valor potencial de uma coordenação regional mais ampla para manter essa pressão.
O mesmo princípio se aplica à cooperação em inteligência. O combate às OCTs na América Latina é cada vez mais definido pela capacidade de desmantelar redes, e não apenas de controlar territórios. Essas organizações operam por meio de estruturas transfronteiriças, com nós logísticos, financeiros e de comunicação distribuídos por vários países. Sem mecanismos eficazes de compartilhamento oportuno de informações, essas redes permanecem resilientes.
Sinais iniciais de reengajamento regional
A relevância da Venezuela para os esforços regionais de combate às OCTs também se reflete na presença e na atividade de grandes grupos criminosos e armados ligados ao seu território. O Tren de Aragua, de origem venezuelana, evoluiu para se tornar uma das redes criminosas transnacionais mais visíveis da região — e foi designado como organização terrorista por vários países da região —, operando em toda a América Latina e além, com atividades que vão do tráfico à extorsão. Embora sua expansão tenha sido mais evidente fora da Venezuela, suas origens e vínculos contínuos com o país ressaltam como as dinâmicas domésticas e regionais permanecem interconectadas.
Ao mesmo tempo, grupos baseados na Colômbia, incluindo o Exército de Libertação Nacional (ELN) e facções dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), continuam operando ao longo da fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, onde o terreno poroso e a coordenação historicamente limitada permitiram a persistência de economias criminosas. Essas dinâmicas transfronteiriças há muito produzem efeitos colaterais, especialmente em regiões fronteiriças onde atividades ilícitas se entrelaçam com a vida das comunidades locais.
Há, no entanto, sinais iniciais de mudança. Em entrevista concedida em fevereiro de 2026 à Agence France-Presse, o ministro da Defesa colombiano, Pedro Sánchez, afirmou que as operações venezuelanas estavam começando a alterar as condições no terreno.
“As informações que temos indicam que eles estão avançando com operações nas áreas de fronteira, e alguns membros de grupos do ELN e facções dissidentes não se sentem mais seguros nessa área”, afirmou o ministro.
Após uma reunião em fevereiro entre o presidente colombiano Gustavo Petro e o presidente dos EUA, Donald Trump, focada no fortalecimento da cooperação no combate ao narcotráfico, o ministro Sánchez também indicou que a Venezuela havia sido convidada a participar de um esforço conjunto renovado para combater as redes de tráfico, sinalizando abertura para uma coordenação regional mais ampla.
O movimento ganhou continuidade em março, quando altos funcionários da Venezuela e da Colômbia se reuniram em Caracas para coordenar esforços de segurança ao longo da fronteira comum, com ênfase na necessidade de comunicação contínua e na troca de informações para combater o tráfico de drogas.
Autoridades venezuelanas também sinalizaram, nos últimos meses, abertura para fortalecer a cooperação em temas de combate ao narcotráfico e segurança, enfatizando a coordenação com parceiros regionais como prioridade. Embora mecanismos concretos de colaboração ainda estejam em desenvolvimento, as declarações apontam para uma abordagem mais pragmática diante das ameaças comuns.
Limitações e progresso condicional
As limitações permanecem. Anos de tensão política continuam a influenciar a forma como os parceiros se relacionam com a Venezuela. Ao mesmo tempo, o recente reengajamento diplomático dos EUA reabriu canais de cooperação, e é provável que o ritmo e o alcance desta colaboração dependam de fatores práticos, como troca de informações, coordenação contínua e confiança operacional.
A Venezuela ainda não está integrada às estruturas regionais de combate às OCTs, mas a reabertura dos canais diplomáticos com os Estados Unidos, a coordenação emergente com a Colômbia e os esforços renovados de fiscalização interna apontam para um afastamento gradual do isolamento.
Em uma região onde as redes criminosas operam sem fronteiras e se adaptam rapidamente, até mesmo avanços incrementais na coordenação podem começar a limitar a capacidade desses grupos de se movimentar, expandir e operar — dinâmicas que, em última instância, moldam as condições de segurança tanto nas regiões fronteiriças quanto nos principais centros urbanos.


