Vizinhança em perigo: a hegemonia dos Estados Unidos no hemisfério, numa era de grande competição entre poderes

Vizinhança em perigo: a hegemonia dos Estados Unidos no hemisfério, numa era de grande competição entre poderes

Por Paul J. Angelo, pesquisador de Estudos Latino-Americanos do Conselho de Relações Exteriores
outubro 26, 2020

Na Assembleia Geral das Nações Unidas de 2018, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump estava orgulhoso: “Desde o governo do presidente [James] Monroe, a política oficial de nosso país tem sido repudiar a interferência de nações estrangeiras nesse hemisfério.” Em 1823, Monroe se referia principalmente às potências da Europa Ocidental, cujos objetivos imperialistas não conheciam limites geográficos. No entanto, hoje as preocupações do presidente americano não são uma Grã-Bretanha egocêntrica ou uma Espanha sem recursos financeiros, senão um novo par de governos que quer testar a hegemonia dos EUA na região: China e Rússia. Globalmente, ambas as nações vêm demonstrando uma capacidade competitiva, e até mesmo ameaçam os interesses dos EUA em diversas áreas – do comércio internacional à segurança das eleições no país. Além disso, ainda que a ordem mundial não tenha voltado à rivalidade do tudo ou nada da Guerra Fria, os legisladores americanos começaram a idealizar uma política exterior que contemple a permanência de competidores proeminentes econômica e militarmente.

Aproveitando-se da proliferação de governos antiamericanos na América Latina na primeira década do século XXI, a China e a Rússia dedicaram-se a aprofundar os laços econômicos na região, ao mesmo tempo em que expandem silenciosamente sua influência militar. Embora a Doutrina de Monroe tenha suscitado mais hostilidades do que favores na América Latina, Washington tem bons motivos para preocupar-se quanto aos modelos extra-regionais ao sul da fronteira dos EUA.

China: expansão diplomática e econômica com restrições geopolíticas

Funcionários apresentam mercadorias em um “Mercado de Produtos da Rota da Seda para o Ano Novo”, em um centro comercial em Pequim, no dia 10 de janeiro de 2020. (Foto: Associated Press)

Enquanto uma China emergente entrava no século XXI com um forte crescimento do seu Produto Interno Bruto (PIB) e uma posição proeminente nas cadeias globais de fornecimento, Pequim procurava aumentar a sua presença na América Latina. Em 2004, a China se tornou um observador permanente da Organização dos Estados Americanos e, em 2009, se uniu ao Banco Interamericano de Desenvolvimento. Em 2015, a China declarou sua intenção de fortalecer o comércio com a região em mais de US$ 500 bilhões por ano e, a partir de 2020, 18 dos 33 países da América Latina e do Caribe assinaram a Iniciativa do Cinto e Rota da Seda, uma estratégia de desenvolvimento da infraestrutura global cujos caminhos levam a Pequim.

Na verdade, o investimento em comércio e infraestrutura se tornou uma das principais prioridades da China no hemisfério ocidental. Nesse âmbito, o país tem uma grande vantagem sobre outras nações industrializadas, inclusive os Estados Unidos, graças à mão dura do setor público na economia do país. Enquanto o setor privado dos Estados Unidos tende a negociar investimentos estrangeiros em infraestrutura e prestação de serviços, a China oferece investimentos e financiamentos públicos com taxas vantajosas. Além disso, enquanto as empresas norte-americanas são sujeitas às leis dos EUA, as quais exigem a observância dos padrões anticorrupção e dos direitos humanos, a China já se mostrou agnóstica quanto a muitas considerações de governança.

Na América Latina, onde a corrupção abunda e as autoridades públicas são frequentemente frustradas pelas condições que os EUA impõem para oferecer ajuda e investimento, a postura da China de negociar sem restrições dá ao país uma vantagem incontestável. Até mesmo em países historicamente alinhados com os Estados Unidos, como a Colômbia e El Salvador, os consórcios chineses assinaram acordos de investimento em 2019 para construir a primeira linha do famoso metrô em Bogotá e para aprimorar a infraestrutura turística salvadorenha, concedendo a empresas chinesas direitos preferenciais para explorar comercialmente o litoral do país. Não é de surpreender que, apenas um ano antes, El Salvador, tal como o fizeram o Panamá e a República Dominicana anteriormente, tenha declarado seu inequívoco reconhecimento da “China única”, abandonando décadas de colaboração econômica e diplomática com Taiwan. Como demonstração de gratidão por essa reversão diplomática, e para desgosto do aliado número um de Taiwan, os Estados Unidos, Pequim respondeu com uma “cooperação gigantesca e não reembolsável”.

Enquanto isso, aumentaram os sentimentos pró-China em toda a região, especialmente com a expansão da presença da mídia e dos programas de intercâmbio cultural e educacional chineses. No Chile, outro parceiro econômico próximo aos Estados Unidos, um índice surpreendente de 77 por cento dos cidadãos mantêm uma imagem positiva da China, enquanto 61 por cento demonstram sentimentos similares quanto aos Estados Unidos.

A atividade da China em Cuba, Venezuela e Nicarágua, conhecida como a “troika da tirania” pela administração Trump, está mais propícia a proporcionar auxílio econômico às nações sancionadas pelos Estados Unidos. Os planos da China de construir um canal cortando o território nicaraguense para competir com o do Panamá não foram adiante devido à falta de financiamento, mas, em Cuba, a China proporcionou bilhões de dólares para aliviar as suas dívidas e se tornou o parceiro comercial número um da ilha em 2017. A China entregou à Venezuela mais de US$ 60 bilhões em financiamentos, de 2007 a 2017, o que está atualmente sendo pago com exportações de petróleo. Embora a China tenha inicialmente acatado as sanções dos EUA contra a indústria petrolífera venezuelana, ao zerar suas importações de petróleo cru da Venezuela em agosto de 2019, nos últimos meses desse ano houve novas atividades e pagamentos de dívidas à China.

A China continua sendo um importante salva-vidas financeiro para os regimes párias da região, mas o país se absteve de demonstrações militares provocativas no hemisfério. O governo chinês pode ter assumido essa atitude como uma forma de moldar a conduta de grande potência dos Estados Unidos, cujo domínio militar na Ásia frustrou a China em seu esforço para criar um círculo de influência no Pacífico Ocidental. Entretanto, as vendas militares chinesas aumentaram enormemente na última década, criando novas oportunidades para a China treinar e equipar os parceiros de uma região fundamental para os conceitos de segurança nacional e interna dos EUA. Por enquanto, a China continuará a avançar contra os limites da hegemonia dos EUA na América Latina e no Caribe, mas o país estima que teria muito mais a ganhar ao exercer uma persuasão silenciosa ao invés do poderio militar.

Rússia: a percepção se transforma em realidade

Tal como a China, a Rússia aproveitou os ventos das mudanças políticas no hemisfério nos anos 2000 para aumentar sua presença na região através do comércio, da propaganda e das vendas e treinamentos militares. No entanto, diferentemente da China, a Rússia usou sua influência para antagonizar os Estados Unidos a partir de postos avançados aliados, como Cuba e Venezuela. Dada a longa história de competição entre os EUA e a União Soviética, a interferência da Rússia no hemisfério não é estranha aos Estados Unidos, mas a um custo tão baixo e com um risco mínimo, é bem provável que o governo russo continue a exercer poder na América Latina, especialmente enquanto os Estados Unidos continuarem intervindo em países da órbita russa, como a Ucrânia e a Síria.

A estratégia do presidente russo Vladimir Putin criou vínculos militares duradouros entre Havana e o Kremlin, desde a Crise dos Mísseis de Cuba. Após um breve lapso na cooperação de segurança entre os dois países no início dos anos 2000, a Rússia restabeleceu seus laços bilaterais com Cuba para obter inteligência, vender armas e tecnologia militar, além de fortalecer a proteção cibernética contra a penetração dos EUA. Os exercícios militares russos, as visitas de navios e as operações de combate ao narcotráfico em Cuba e na Nicarágua também aumentaram na última década, e o comércio entre Cuba e Rússia cresceu 34 por cento, atingindo US$ 388 milhões de 2017 a 2018. Da mesma forma, as exportações russas de armas e equipamento militar armaram as forças de segurança de regimes autoritários como Cuba, Nicarágua e Venezuela, ao mesmo tempo em que competem com fornecedores de armamento dos EUA em mercados mais amigáveis, tais como Peru, México e Brasil.

No entanto, foram mais cruciais as apostas de Moscou na Venezuela de Nicolás Maduro, onde bilhões de dólares em empréstimos da petrolífera estatal Rosneft salvaram a debilitada indústria do óleo do país. A Rosneft detém uma participação de 49 por cento da Citgo, a refinaria de propriedade da Venezuela com sede nos EUA, e a empresa russa continua a fazer a manutenção do maquinário industrial essencial enquanto exporta o petróleo cru venezuelano. Como essas exportações são realizadas como pagamento de dívidas, a Rússia escapa às sanções econômicas dos EUA contra o setor petrolífero venezuelano, e inclusive há suspeitas de que ajudou Caracas a criar a Petro, uma criptomoeda que Maduro espera que possa impulsionar sua economia falida e seu governo marginal. O apoio financeiro e diplomático de Moscou a Maduro tem sido essencial para a sobrevivência do regime, especialmente depois que 57 países em todo o mundo cortaram relações diplomáticas com seu governo em 2019.

Com um gesto de provocação que aumentou a impressão de uma renovada competição geopolítica entre os EUA e a Rússia no hemisfério, Putin enviou dois aviões militares com dezenas de conselheiros militares russos para discutir estratégias, manutenção de equipamentos e treinamento com os seus homólogos venezuelanos em março de 2019; o fato ocorreu apenas alguns dias antes que a oposição, apoiada pelos EUA, organizasse um levante com o objetivo de derrubar Maduro.

Acima de tudo, a maior ameaça aos interesses americanos no hemisfério pode ser a capacidade da Rússia de influenciar as percepções da região através de operações psicológicas. A presença estatal russa na mídia social e a exportação de redes de notícias controladas pelo estado para a América Latina representam narrativas competitivas, de modo a incentivar o sentimento antiamericano e polarizar as sociedades democráticas, tal como ocorreu nas eleições presidenciais no México e na Colômbia em 2018. Dessa forma, o governo da Rússia garantiu um papel preponderante na América Latina e se estabeleceu como o principal competidor do mercado livre, modelo de governança aberta sustentado há muito tempo pelos Estados Unidos na região.

O hemisfério recua

Apesar de haver um crescente interesse da China e da Rússia no continente americano, existem várias razões para se esperar que a região se mantenha cautelosa em suas negociações com os agentes extrarregionais. Em primeiro lugar, o compromisso com a democracia em toda a América Latina e no Caribe continua forte, e muitos habitantes do hemisfério são céticos quanto ao modelo de desenvolvimento autoritário adotado pela China. Sabendo que os investimentos chineses passam por percalços na Ásia e na África, os latino-americanos têm consciência do potencial para uma “armadilha da dívida” ou corrupção pública da China. No decorrer de 2019, manifestantes em toda a América Latina clamaram não por uma autocracia mais profunda, mas sim por uma participação mais completa na democracia e uma rejeição à corrupção. Além disso, a crescente ameaça que representa a mudança climática para as populações mais vulneráveis do hemisfério inspirou um movimento de proteção ambiental em muitos países. Na América Latina, a China e a Rússia, sem dúvida alguma, enfrentarão obstáculos ao tipo de desenvolvimento que, em outros lugares, já se mostrou lucrativo, porém ecologicamente prejudicial e insustentável. Além do mais, a pandemia do coronavírus e a recessão econômica global são um entrave aos cofres dos governos de Pequim e Moscou, retardando a expansão das grandes potências mundiais no hemisfério ocidental.

Nesse contexto, os Estados Unidos e seus parceiros da América Latina e do Caribe podem encontrar uma causa comum, radicada em uma história e geografia compartilhadas, e deveriam redobrar a defesa da democracia, o apoio ao desenvolvimento sustentável, a expansão dos vínculos comerciais e a coordenação da resposta a uma pandemia. Esses serão os pilares que garantirão não apenas a paz, mas também a prosperidade do continente americano para atravessar um século que, não diferentemente dos anteriores, será marcado por riscos e oportunidades criados pela concorrência entre as grandes potências mundiais.

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