Nos últimos anos, a América Latina passou por uma rápida modernização urbana, através de projetos de cidades inteligentes, que integram vigilância por vídeo, inteligência artificial (IA) e gestão automatizada de serviços públicos.
Embora essas iniciativas prometam maior eficiência e segurança, elas geraram uma dependência preocupante de infraestruturas tecnológicas externas ao Hemisfério Ocidental, especialmente de entidades vinculadas ao Estado, como a China, apresentando desafios geopolíticos significativos, facilitando a coleta de inteligência estrangeira e complicando a luta contra as organizações criminosas transnacionais (OCTs) e a defesa da soberania digital.
Dependência tecnológica e soberania digital
O Centro de Estudos Estratégicos do Exército do Peru (CEEEP) alerta que a proliferação dessas tecnologias responde a uma estratégia global que busca consolidar a influência econômica e política por meio de soluções padronizadas, aumentando a “vulnerabilidade regional em matéria de soberania digital”. Essa vulnerabilidade fica claramente exposta pela rápida expansão da tecnologia vinculada ao Estado chinês em infraestruturas urbanas e nacionais essenciais.
Na prática, isso implica que grandes volumes de dados urbanos – mobilidade, finanças, serviços públicos e padrões de comportamento – ficam sob o controle de operadores externos, o que pode comprometer a segurança nacional e regional.
Exemplos regionais de ameaças e ciberataques
O desafio não vem apenas das OCTs, mas também dos atores geopolíticos. Um caso emblemático é a infiltração, em novembro de 2024, nos sistemas do governo paraguaio, pelo grupo de hackers Flax Typhoon, um agente de espionagem vinculado ao Estado chinês, o que ilustra os riscos das operações de inteligência e influência digital, que podem facilitar atividades ilícitas em escala transnacional.
O grupo criminoso russo Conti também perpetrou um importante ataque de ransomware na Costa Rica, em 2022, que paralisou mais de 30 instituições estatais, inutilizou serviços críticos, expondo dados confidenciais e comprometendo sistemas de vigilância. De acordo com a BBC, parte das informações roubadas foi publicada na dark web, colocando em risco a segurança nacional e a privacidade dos cidadãos.
Países como Brasil, México, Colômbia e Peru também têm sido alvo frequente de ataques cibernéticos, tanto de grupos vinculados ao Estado, como do crime organizado, incluindo ransomware e vazamentos de dados, especialmente em sistemas de vigilância urbana. Algumas OCTs específicas, como o Tren de Aragua, também têm aproveitado esquemas de jackpotting em caixas eletrônicos, para hackear sistemas operacionais e cometer roubos de alta tecnologia, através das fronteiras.
Víctor Ruiz, fundador do centro de segurança cibernética SILIKN no México, alerta que “essa dinâmica reforça a dependência tecnológica e compromete a soberania digital”. Ruiz destaca que o acesso a informações sobre “padrões de mobilidade, infraestrutura e comportamento urbano outorga às empresas um conhecimento estratégico, que poderia ser usado para expandir sua presença comercial ou como ferramenta de influência geopolítica”.
Empresas de vigilância e concentração tecnológica
Empresas como Huawei, Hikvision, Dahua e ZTE, que operam sob o mandato do governo chinês, destacaram redes de videovigilância, IA e tecnologia 5G em cidades importantes do Brasil, Colômbia, Equador, Panamá e Peru. De acordo com Access Now, organização que defende os direitos digitais em todo o mundo, esses sistemas coletam enormes volumes de dados urbanos – desde imagens em tempo real, até hábitos dos cidadãos –, sem garantir o cumprimento dos padrões internacionais de transparência e segurança.
Access Now identifica essas empresas chinesas como as principais fornecedoras de vigilância biométrica na região e denuncia que suas tecnologias têm estado envolvidas em “violações de direitos humanos, afetando jornalistas, ativistas, defensores dos direitos humanos e grupos vulneráveis”.
Essa concentração de fornecedores limita a capacidade dos governos de auditar e supervisionar esses sistemas, preocupação compartilhada por muitos centros de investigação e especialistas.
Vulnerabilidades nacionais e riscos estratégicos
A integração dessas plataformas em infraestruturas críticas apresenta desafios para a segurança e a autonomia tecnológica, pois muitas vezes expõe as nações ao controle estratégico de atores vinculados a Pequim.
No Equador, por exemplo, o centro ECU-911 opera com tecnologia chinesa, o que dificulta a interoperabilidade com os padrões de segurança dos países aliados e suscita preocupação, devido ao acesso não autorizado dos dados.
Ruiz adverte que “essas tecnologias respondem a marcos regulatórios definidos por atores externos, o que complica a cooperação regional em matéria de inteligência e facilita a intromissão de gangues criminosas e terroristas”. Por exemplo, as leis de segurança nacional chinesas podem obrigar as empresas de tecnologia a cooperar com os serviços de inteligência e segurança do Estado, o que representa uma via direta para a intrusão estrangeira e a extração de dados.
Na Colômbia, os sistemas fechados de videovigilância e controle urbano limitam a autonomia tecnológica. A dependência dos sistemas chineses significa que as funções críticas são vulneráveis a interrupções remotas. “Falhas ou interrupções em semáforos, câmeras e sensores poderiam ser usadas como pressão em cenários políticos ou contratuais”, ou ser interceptadas pelo crime organizado, para cometer crimes e fraudes, ressalta Ruiz.
No Panamá, a infraestrutura adjacente ao Canal, equipada com tecnologia chinesa, representa vulnerabilidades críticas, devido à tecnologia portuária e à infraestrutura digital fornecidas pela China, especificamente, os guindastes e os sistemas de vigilância fabricados na China, que são amplamente utilizados nos portos adjacentes à hidrovia. “Inclusive breves interrupções podem gerar perdas milionárias”, acrescenta Ruiz. Isso coloca um dos pontos marítimos mais críticos do mundo em risco de influência externa ou espionagem.
No Brasil, a presença de fornecedores chineses em redes 5G e sistemas digitais críticos aumenta os desafios para a governança do ciberespaço, criando vetores massivos para a transferência de dados e o controle de redes criminosas organizadas.
Rumo à proteção da soberania digital
Diante desses desafios, especialistas como Ruiz instam os governos latino-americanos a fortalecer seus marcos regulatórios, realizar auditorias frequentes e promover o desenvolvimento de talentos locais em cibersegurança e tecnologia. “A falta de regulamentação sobre como os dados são armazenados ou eliminados aumenta a incerteza e os riscos”, ressalta Ruiz.
O desenvolvimento de clusters tecnológicos regionais e a supervisão ativa por parte dos ministérios da defesa e segurança permitiriam à região assumir o controle sobre seus dados estratégicos, sem depender exclusivamente de fornecedores estrangeiros.
Através dessas medidas, as Américas poderão fortalecer de maneira eficaz a proteção de suas informações estratégicas e cidadãs, blindando suas sociedades contra as ameaças do crime organizado e a influência transnacional no ambiente digital.


