Skyfall, o fracasso

Skyfall, o fracasso

Por Sir Joseph Rotblat, físico polonês
setembro 20, 2021

Equipe do Comando Estratégico dos EUA

“A Guerra Fria terminou, mas o pensamento da Guerra Fria sobrevive”

Em 1955, em meio à Guerra Fria, a Força Aérea dos EUA idealizou um conceito de projeto de arma nuclear que envolvia um míssil supersônico de voo baixo, movido a energia nuclear, que transportava uma ogiva termonuclear. O Míssil Supersônico de Baixa Altitude (SLAM, em inglês), estava décadas à frente de quaisquer outros do gênero. Ele utilizava um radar embutido de contorno de terreno que o direcionava para o alvo pretendido em velocidade supersônica. O sistema de propulsão foi projetado para fazer a sucção do ar através de uma ventilação dorsal, aquecer e comprimir o ar com um reator nuclear e impulsioná-lo através do seu escapamento para propulsionar o míssil. Um tipo experimental de cerâmica foi criado para suportar o calor intenso e o peso que o SLAM demandava, permitindo que a arma tivesse um alcance de aproximadamente 182.000 quilômetros, quase quatro vezes e meia a circunferência da Terra.

Esse conceito inovador foi descartado em 1964, porque o desenvolvimento dos mísseis balísticos intercontinentais foi concluído, e os Estados Unidos não poderiam garantir a segurança de testar um reator que pudesse dispersar quantidades substanciais de emissões radioativas.

Em 2018, a Rússia revelou o protótipo de um motor nuclear baseado na mesma tecnologia usada no projeto SLAM. Esse modelo atualizado, o 9M730 Burevestnik, apelidado de SSC-X-9 ou Skyfall pela OTAN, foi projetado para ser a vantagem nuclear final. O míssil Skyfall foi criado para ter a capacidade de voar em uma velocidade impressionante, utilizando um reator nuclear que impulsiona o ar comprimido. Teoricamente, o míssil seria hipersônico com alcance virtualmente ilimitado. Diferentemente de um míssil balístico intercontinental tradicional, que é lançado em uma plataforma de voo geralmente transparente em direção à estratosfera, de onde descerá para seu alvo, o Skyfall voará a baixas altitudes, escapando do rastreamento de radares. Além disso, essa arma de terror pode atacar de surpresa quando estiver totalmente desenvolvida e for destacada. Até agora a Rússia não tem sido bem-sucedida em seus esforços de desenvolvimento.

Nos últimos 10 anos, a Rússia investiu US$ 150 bilhões em pesquisas e desenvolvimento de armas nucleares. Embora tenham tido algum sucesso, eles também tiveram consequências desastrosas. O maior fracasso dos testes ocorreu em agosto de 2019, quando o míssil explodiu durante um teste em Nenoska, Rússia, matando cinco cientistas e dois militares. Além da explosão e da perda de vidas ter sido horrível, o fracasso da explosão aumentou os níveis de radiação na área circundante em quase 200 vezes o nível normal. Essa informação foi oculta da população local por muitos dias, embora a radiação pudesse ter deixado as pessoas potencialmente doentes ou com efeitos de longo prazo.

Quando a informação foi finalmente liberada ao público, a divulgação da notícia durou 36 segundos; isso mostra como as lideranças russas valorizam a vida humana em comparação aos testes militares. Durante a cerimônia em homenagem aos homens mortos na explosão, o presidente russo Vladimir Putin disse que “… a arma deve ser aperfeiçoada, independentemente das consequências”. Ele pretende sacrificar mais vidas, caso seja necessário, se isso significa que ele pode ameaçar o mundo com essa arma.

Se o desenvolvimento desse projeto russo for adiante, haverá risco de mais vidas perdidas de cientistas e desenvolvedores que trabalham no míssil. Eles também apostam que a arma não explodirá novamente, enviando quantidades enormes de radiação às cidades próximas, ou até mesmo aos países vizinhos. Se o míssil conseguir decolar, ele emitirá radiação por onde sobrevoar, irradiando potencialmente pessoas inocentes, animais e ecossistemas inteiros. Até mesmo um teste “bem-sucedido” trará consequências ruins para o mundo. Um míssil que voa indefinidamente é um risco constante para as viagens aéreas internacionais, e o impacto de um fracasso do voo, escapamento nuclear e outros resultados não previstos não podem ser subestimados.

O mundo já sofreu suficientes acidentes nucleares no desenvolvimento e lançamento do sistema de armamentos Skyfall, o que só demonstra uma relutância em aprender. Más ideias não se aperfeiçoam com o tempo, e a comunidade internacional deve condenar esse empreendimento irresponsável antes que seja tarde demais!

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