Rússia e China sustentam regime de Maduro

Na véspera da eleição de 28 de julho na Venezuela, imagens dos canais de TV locais mostraram Nicolás Maduro cumprimentando os embaixadores da Rússia e da China no país, Sergey Mélik-Bagdasárov e Lan Hu, com grande entusiasmo, aparentemente ignorando representantes de países da região. Os dois países têm sido os parceiros preferidos do regime, presentes desde que Hugo Chávez estava no poder, e tornaram-se uma base essencial para a sobrevivência de Maduro.

Os dois países reconheceram a vitória de Maduro logo após as eleições, depois que o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), alinhado ao regime, anunciou seus resultados, enquanto grande parte da comunidade internacional, incluindo os Estados Unidos, a União Europeia e dezenas de outros países da América Latina, pediam que as autoridades venezuelanas publicassem as atas de votação detalhadas, possibilitando verificar as apurações.

“O apoio da Rússia e da China é fundamental para que [o regime] ignore os pedidos da comunidade internacional”, diz o sociólogo venezuelano Guillermo Pérez. “Embora o apoio econômico tenha diminuído no tempo, o apoio político é muito relevante para evitar o isolamento total de Maduro.”

Assim, o respaldo dos dois países vem ajudando o regime da Venezuela a driblar sanções, reabastecer os supermercados, conseguir investimentos para setores de petróleo, gás e energia elétrica, treinamento militar, compra de armas, extração de ouro e outras jazidas, entre outras parcerias. Apesar dos novos apoios, vindos do Irã e da Turquia, o eixo da política externa de Caracas continua sob o controle de Pequim e Moscou.

Manifestantes mostram cartazes contra o regime de Nicolás Maduro e exigem liberdade para os presos políticos, diante da Embaixada do Brasil em Caracas, em 11 de setembro de 2024. (Foto: Juan Barreto/AFP)

“O apoio da China e da Rússia, que se beneficiam da postura antiamericana da Venezuela, traz investimentos importantes para o país ou ajudam a criar rotas alternativas para a venda do petróleo. Também, às vezes, permitem o uso dos seus barcos para transportar o petróleo venezuelano ou outros minerais que são a principal fonte de renda do país hoje. O papel do Irã também é relevante nesse quesito”, acrescenta Pérez.

China e Rússia também tentam agora incorporar a Venezuela ao Brics, formado atualmente por África do Sul, Arábia Saudita, Brasil, China, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Índia, Irã e Rússia.

Maduro usa o apoio de países nos quais valores democráticos não são prioritários, para recrudescer a repressão interna, mesmo sob contestação de parte da comunidade internacional. A oposição e observadores internacionais levantaram alarmes sobre as implicações do envolvimento de mercenários estrangeiros na agitação política e social da Venezuela, levando a alegações generalizadas de abusos de direitos humanos. Tropas portando emblemas do Grupo Wagner da Rússia foram vistas na Venezuela durante protestos, após os resultados contestados das eleições. O avistamento levantou preocupações sobre o envolvimento russo nos assuntos internos do país. 

O Grupo Wagner, mercenários que atuam como empresa militar privada com histórico de treinamento de soldados, escolta de políticos e supostas violações de direitos humanos em todo o mundo, já esteve presente na Venezuela antes. De acordo com a Reuters, membros do Grupo Wagner estavam em Caracas em 2019 para fornecer segurança a Maduro, após protestos contra o regime, e teriam treinado unidades de combate de elite na Venezuela.

“Infelizmente, devido à ausência de transparência quase total do [regime] venezuelano, é difícil afirmar o ponto sobre o grupo Wagner. Sabemos que a Venezuela há duas décadas é um grande comprador de armas da Rússia e que a Rússia tem intercâmbios fortes militares com Venezuela. Quer dizer, as probabilidades são muito altas de que militares russos ou grupos de mercenários russos estejam envolvidos com as forças de segurança venezuelana. Mas provas definitivas não existem. Existe a certeza da presença desses emblemas entre as forças de segurança, mas podem ser resultados de outros intercâmbios ou treinamentos compartilhados”, afirma Pérez.

Um recente relatório da missão de investigação da Organização das Nações Unidas (ONU), apresentado em 17 de setembro, afirmou que o regime de Maduro estava usando métodos mais duros e violentos para reprimir opositores políticos e dissidentes após as contestadas eleições de 28 de julho. A missão da ONU disse ainda que o regime venezuelano planejou ações para desmobilizar a oposição, impedir a disseminação de informações independentes e opiniões críticas e impedir protestos pacíficos. Pelo menos 25 pessoas morreram nos protestos que se seguiram às eleições, de acordo com organizações não governamentais, e cerca de outras 2.400 foram presas, segundo o próprio regime de Maduro.

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