O interesse da China em setores extremos, como o espacial, está se expandindo. Em janeiro, Pequim anunciou planos para construir uma usina de energia solar de 1 quilômetro de largura, em órbita geoestacionária acima da Terra, para produzir a chamada energia solar baseada no espaço, usando satélites solares.
Nesse sentido, a América Latina é cada vez mais estratégica para as ambições espaciais do presidente Xi Jinping.
“Devido à sua geografia e à crescente presença da infraestrutura espacial chinesa, a região oferece localizações ideais para o rastreamento de satélites e a observação do espaço profundo, complementando a rede global de estações terrestres da China”, disse à Diálogo Matthew P. Funaiole, investigador principal do projeto sobre o poder da China, para o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

Observatório Cerro Ventarrones
No deserto chileno do Atacama, foi iniciada a construção do Parque Astronômico Ventarrones, na região de Antofagasta. O projeto é gerenciado pela Universidade Católica do Norte, em conjunto com o Observatório Astronômico Nacional da China, da Academia de Ciências da China. O investimento inicial de Pequim é de US$ 81 milhões e envolve a construção de uma centena de telescópios.
“Dada a importância da região para o monitoramento global por satélites e para a coleta de dados de inteligência, qualquer instalação científica em grande escala administrada por uma potência estrangeira, especialmente uma como a China, que busca ativamente mesclar seu desenvolvimento econômico, militar e científico, naturalmente coloca todos em alerta”, afirma Funaiole.
O deserto do Atacama é um dos melhores lugares do mundo para a observação astronômica, graças à baixa poluição luminosa e ao escasso vapor de água no ar. Portanto, o Cerro Ventarrones representa um observatório privilegiado para Pequim.
“Os observatórios avançados coletam enormes quantidades de informações sobre objetos em órbita, incluindo satélites. A instalação poderia ser usada para rastrear satélites com outros fins, não apenas científicos”, diz Funaiole.
O novo observatório do Cerro Ventarrones tem uma localização estratégica. Está a apenas 60 quilômetros do Cerro Armazones, onde está sendo construído atualmente o Telescópio Extremamente Grande, cuja finalização está prevista para 2028. Este será o maior telescópio do mundo. Por trás desse projeto está o Observatório Europeu Austral, uma organização intergovernamental de ciência e tecnologia, que reúne os principais países europeus.
A cidade de Antofagasta, onde está sendo construído o novo centro astronômico, é estratégica para a mineração de cobalto, lítio ou minério de ferro, na qual a China já está envolvida. Está prevista para este ano a inauguração pela empresa chinesa Tsingshan Holding Group de uma fábrica de baterias de lítio, com um investimento anunciado de US$ 233 milhões. Ela será construída em Mejillones, a 65 quilômetros ao norte de Antofagasta.
Estações terrestres da China
As estações terrestres de Pequim na América Latina, como Cerro Ventarrones, são uma parte fundamental do programa espacial da China, mas representam riscos para seus países anfitriões.
“As estações terrestres podem atuar como repetidoras de comunicações via satélite, mas também podem ser usadas para interceptar sinais ou coletar informações sobre operações espaciais estrangeiras. Em alguns casos, elas poderiam ser usadas para rastrear satélites ou comunicações militares”, afirma Funaiole.
No Chile, Pequim já construiu instalações espaciais na estação de Santiago, antes de ela ser vendida para a Corporação Espacial Sueca, em 2008. Em 2019, as atividades da China na estação levantaram dúvidas, depois que a Agência Sueca de Investigação em Defesa descobriu que o acesso da China às antenas de outra estação terrestre poderia ser usado para coleta e vigilância de inteligência militar.

Em Neuquén, na Argentina, a estação Espacio Lejano entrou em operação em 2016. Ela é administrada pelo Controle Geral de Rastreamento e Lançamento de Satélites da China, que depende da Força de Apoio Estratégico do Exército Popular de Libertação (PLA), a força de guerra espacial, cibernética e eletrônica do PLA.
Em um documentário recente intitulado Lua Vermelha: Estação da China na Argentina, Pedro Isern, diretor executivo do Centro de Estudos de Sociedades Abertas, sediado em Montevidéu, Uruguai, referindo-se à estação Espacio Lejano, diz que “supostamente ela tem apenas uma dimensão civil e, portanto, não poderia ter um caráter duplo. Isso é obviamente falso. Sim, é possível estudar o espaço distante com determinada tecnologia, mas essa mesma tecnologia pode ser usada para estudar o espaço próximo para interceptar informações”.
De acordo com um estudo do think tank Brookings Institution, essa tecnologia também pode ser usada para guiar mísseis supersônicos, o que representaria uma ameaça para todo o hemisfério, especialmente tomando em consideração que o acordo assinado pela Argentina estipula que Pequim operará a estação durante 50 anos.
“Muitas dessas estações operam sob acordos de longo prazo que outorgam à China um controle significativo. Isso levanta questões sobre a possibilidade de supervisão pelos governos locais”, ressalta Funaiole.
Recentemente, a China também demonstrou interesse em cooperar com o observatório astronômico de Niterói (Brasil), ao mesmo tempo em que assinou acordos de cooperação espacial com a Agência Bolivariana para Atividades Espaciais (ABAE), da Venezuela. Em julho de 2023, a ABAE assinou uma declaração conjunta com Pequim, para participar da Estação Internacional de Investigação Lunar, planejada para 2030.
Durante o regime de Hugo Chávez, a empresa estatal China Great Wall Industry Corporation (CGWIC) construiu a Estação Terrestre de Controle de Satélites de El Sombrero, no estado venezuelano de Guárico, que permite a comunicação, o rastreamento e o controle dos satélites venezuelanos. A CGWIC é uma subsidiária da China Aerospace Science and Technology Corporation, uma importante empreiteira estatal de defesa, que fabrica lançadores espaciais, sistemas de mísseis e outros equipamentos.
“Os países que integram a tecnologia espacial chinesa em suas infraestruturas críticas poderiam encontrar-se em uma situação de dependência de longo prazo de Pequim”, afirma Funaiole.
Para o especialista, além disso, “algumas das tecnologias fornecidas pela CGWIC têm aplicações de uso duplo. Embora sirvam de apoio a projetos científicos e comerciais, também poderiam ser usadas para operações de vigilância ou coleta de informações”.


