Panamá e Costa Rica reforçam sua cooperação fronteiriça por meio do fortalecimento das capacidades de vigilância, patrulhamento coordenado e troca de informações, uma resposta direta às organizações criminosas transnacionais que continuam adaptando suas operações em um dos principais corredores terrestres da América Central.
Esse esforço deu mais um passo em abril, quando autoridades dos dois países se reuniram na região fronteiriça de Paso Canoas para analisar medidas destinadas a fortalecer a segurança na fronteira e ampliar a cooperação no combate ao crime transnacional. Segundo o Ministério da Segurança Pública do Panamá, as discussões se concentraram em aprimorar a coordenação para combater o narcotráfico, o tráfico de pessoas e o contrabando.
Entre as medidas anunciadas estão a ampliação das capacidades de vigilância, o fortalecimento dos mecanismos de intercâmbio de informações e o reforço das patrulhas coordenadas ao longo do corredor fronteiriço. O Panamá também inaugurou uma nova base do Serviço Nacional de Fronteiras (SENAFRONT) na comunidade de Progreso, próxima a Paso Canoas. A instalação reforçará o monitoramento da área de fronteira por meio de tecnologia de vigilância – incluindo câmeras e drones – e facilitará o intercâmbio de informações em tempo real entre os dois países. Soma-se a isso a entrega de veículos para reforçar o patrulhamento coordenado em pontos estratégicos, ampliando a capacidade de resposta operacional na região fronteiriça.
A importância estratégica desse ponto é significativa. Segundo o portal argentino Infobae, Paso Canoas é um dos principais pontos de intercâmbio comercial entre o Panamá e o restante da América Central. Por essa aduana transitam mercadorias que chegam pelo Canal do Panamá e pela Zona Franca de Colón, além de produtos regionais destinados aos mercados centro-americanos e à exportação internacional. O mesmo fluxo que sustenta o comércio legal também pode ser explorado por redes criminosas.
Para Javier Oliva Posadas, acadêmico da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autônoma do México, o aspecto mais relevante desse avanço vai além das medidas operacionais anunciadas. A chave, afirmou ao Diálogo, “não está apenas nos recursos operacionais anunciados, mas na consolidação de mecanismos de confiança que permitam avançar para ações mais decisivas em matéria de segurança”.
Porta estratégica para a segurança regional
A fronteira entre o Panamá e a Costa Rica integra um dos corredores terrestres mais movimentados da América Central. Além do intenso fluxo de pessoas e mercadorias pela Rodovia Pan-americana, a região está localizada em uma região que o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) identifica como uma rota-chave para o tráfico de cocaína rumo à América do Norte.

Os desafios, porém, não se limitam ao tráfico de drogas. No final de 2024, autoridades costarriquenhas – com apoio do Panamá e dos Estados Unidos – desmantelaram uma rede internacional dedicada ao tráfico e ao transporte irregular de migrantes que operava em diversos países da região. Segundo a agência Reuters, a organização coordenava o deslocamento irregular de migrantes do Panamá rumo ao norte do continente.
“O tráfico de pessoas ganhou maior relevância em razão dos fluxos migratórios que atravessam a região e da exploração desses movimentos por organizações criminosas”, observou Oliva Posadas.
A natureza transnacional dessas atividades representa um desafio adicional para as forças de segurança. Relatórios do UNODC e estudos acadêmicos publicados pela ScienceDirect indicam que as organizações criminosas ajustam suas rotas e métodos de transporte em resposta aos controles, combinando rotas terrestres, marítimas e aéreas para manter o movimento de cargas ilícitas.
Nesse contexto, o ambiente físico acrescenta outra camada de complexidade. “A geografia, as condições orográficas e climáticas e a biodiversidade, infelizmente, favorecem as organizações criminosas”, afirmou Oliva Posadas.
Os esforços para fortalecer a coordenação não são recentes. Em fevereiro de 2024, o Panamá e a Costa Rica inauguraram o Centro de Controle Integrado Paso Canoas, uma instalação que, segundo o Infobae, busca agilizar os processos de controle e facilitar o fluxo de pessoas e mercadorias entre os dois países.
Oliva Posadas alertou que o principal desafio não é apenas a expansão dessas estruturas criminosas, mas também sua capacidade de adaptação. “A diversificação das atividades e a rapidez com que ajustam suas operações representam um desafio para qualquer estratégia de segurança.”
Cooperação além da fronteira
A natureza transfronteiriça dessas ameaças também impulsiona uma cooperação mais ampla. De acordo com o Departamento de Estado dos EUA, Washington mantém uma colaboração contínua com o Panamá em iniciativas de combate ao narcotráfico, ao contrabando, à migração irregular e à lavagem de dinheiro, além de apoiar o fortalecimento das instituições de segurança e justiça. A segurança de fronteira integra esse esforço conjunto. A assistência norte-americana recente incluiu equipamentos e apoio ao desenvolvimento de capacidades, com o objetivo de aprimorar a capacidade do Panamá de detectar e interceptar atividades ilícitas e apoiar operações contra organizações criminosas transnacionais.
“Trata-se de um problema geoterritorial que nenhum país pode enfrentar sozinho; ele exige necessariamente uma abordagem regional e mecanismos permanentes de cooperação”, afirmou Oliva Posadas. Segundo o especialista, grande parte dos fluxos ilícitos que afetam a América Central tem origem mais ao sul do continente e atravessa diversos territórios antes de alcançar essa fronteira comum.
A Costa Rica mantém programas de cooperação semelhantes com os Estados Unidos. Segundo o Departamento de Estado, a colaboração inclui o fortalecimento da segurança de fronteira, a profissionalização das forças policiais e o reforço das instituições de justiça e segurança pública.
“A eficácia desses esforços dependerá em grande medida da capacidade dos governos de aprofundar o intercâmbio de informações, compartilhar inteligência e fortalecer mecanismos permanentes de coordenação”, concluiu Oliva Posadas.
Para as forças de segurança, defesa e ordem pública da região, Paso Canoas oferece um exemplo concreto de como a segurança de fronteira depende cada vez mais da troca de inteligência, da interoperabilidade e de uma coordenação bilateral sustentada, mais do que da infraestrutura física por si só. Um corredor utilizado para a migração irregular e para o contrabando não pode ser protegido apenas com tecnologia instalada de um único lado da fronteira.
Enquanto as organizações criminosas continuam adaptando suas rotas, métodos e redes logísticas, as autoridades enfrentam o desafio de responder com o mesmo grau de agilidade. A experiência de Paso Canoas evidencia uma realidade cada vez mais evidente em todo o hemisfério: a eficácia da segurança fronteiriça depende não apenas da tecnologia e da infraestrutura, mas também da capacidade dos países parceiros de compartilhar informações, coordenar operações e responder de forma conjunta a ameaças que não respeitam fronteiras nacionais.



