Padronização, fator essencial para o sucesso da interoperabilidade

Diálogo teve a oportunidade de conversar com o Capitão de Mar e Guerra Eduardo Torres, da Marinha do Chile, chefe do Departamento de Logística do Estado-Maior Conjunto, durante o Simpósio de Logística para Líderes Seniores, patrocinado pelo Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM), realizado em sua sede em Doral, Flórida, no início de junho de 2024. O CMG Torres foi uma fundamental na elaboração do Manual de Logística de Assistência Humanitária e Socorro em Casos de Desastres. Ele também presidiu o Grupo de Trabalho de Movimentação e Transporte desse manual.

Diálogo: A logística pode ser descrita como a base para operações militares bem-sucedidas e a cooperação regional é cada vez mais essencial. Qual é a importância de atividades ou eventos como o Simpósio de Logística para Líderes Seniores para as forças armadas da região e, especialmente, para o Chile?

Capitão de Mar e Guerra Eduardo Torres, da Marinha do Chile, chefe do Departamento de Logística do Estado-Maior Conjunto: De fato, sem logística não há operações militares. Nesse sentido, esse seminário é muito enriquecedor porque oferece novas soluções ou alternativas de soluções logísticas para nossas forças. É uma fonte de informações e de enriquecimento profissional. No Chile, não estamos isentos da situação cotidiana ou econômica. Nessas atividades, podemos encontrar soluções alternativas, especialmente quando há muitas demandas e os recursos muitas vezes são escassos. O seminário é uma alternativa muito boa para adquirir conhecimentos e experiências de toda a região.

Diálogo: As mudanças climáticas e os fenômenos meteorológicos extremos representam um risco cada vez maior para a preparação e a segurança das forças armadas. De fato, o tema do simpósio deste ano é a preparação. Quais são algumas das lições aprendidas que o Chile pode compartilhar com seus parceiros?

CMG Torres: Há várias lições muito interessantes. Efetivamente, é um fato que temos uma mudança climática. Podemos ver isso no sul do Chile. Em nossa Patagônia, o derretimento do gelo está avançando em um ritmo muito rápido; as geleiras estão derretendo mais rápido do que há 50 anos. Portanto, estamos enfrentando um fenômeno que, como resultado dessa mudança climática, causou grandes incêndios florestais nos últimos sete ou oito anos. Isso requereu que nossas Forças Armadas se preparassem para poder cooperar com o governo no combate a incêndios florestais. Por exemplo, o Exército e a Marinha treinaram brigadas de combate a incêndios florestais para prestar apoio, no caso de que os recursos do governo ou da agência responsável pelo incêndio sejam escassos. Da mesma forma, as aeronaves, com as quais contam o Exército, a Marinha e a Força Aérea, foram capacitadas no uso do Bambi Bucket [baldes dobráveis que carregam água] para combater incêndios florestais pelo ar, algo que não era feito há oito anos e agora é praticamente normal.

Outra experiência muito boa é o uso de um avião-guia em complemento a um avião Tanker [cisterna], que é um avião de grande porte, tipo DC-10 ou Boeing 747, que joga água no momento certo e no lugar mais exato possível, para baixar a temperatura de um incêndio florestal ou extinguir um foco de incêndio. Isso envolve o uso coordenado dessas duas aeronaves. Normalmente, nesse caso, o avião guia é da Marinha, porque tem um equipamento de transmissão que fornece várias linhas simultâneas de comunicação e informação. O avião guia passa sobre o lugar onde o fogo deve ser extinto com o avião Tanker. Um operador do Tanker está a bordo do avião-guia, o qual verifica se a rota de aproximação e de partida está correta. Em seguida, ele se aproxima com o Tanker atrás de si, para dar-lhe instruções no lugar preciso onde tem que jogar a água e a quantidade de água que deve ser jogada. Essa combinação de avião-guia e avião Tanker é uma manobra muito interessante.

Diálogo: Na última edição do simpósio, em 2023, o senhor apresentou a versão preliminar do Manual de Logística de Assistência Humanitária e Socorro em Casos de Desastres para o Hemisfério Ocidental. Qual é a importância desse manual de logística e que mudanças ou acréscimos foram efetuados no manual?

CMG Torres: Muito se tem falado sobre a necessidade de termos um manual que nos proporcione uma linguagem e procedimentos comuns, porque temos visto, e também tem sido nossa experiência, que coisas que parecem simples, ainda assim é muito necessário que sejam padronizadas. Dessa forma, o país que recebe a ajuda pode ter certeza de que o que está chegando está bem feito, bem etiquetado e chega de forma segura em um avião; que a movimentação de cargas ou recursos pode ser feita para onde seja necessária e possa ser usada. Esse manual gera e nos fornece essas duas grandes coisas: linguagem e procedimentos comuns. Temos de continuar trabalhando para que os procedimentos sejam os mais padronizados em nível continental.

Diálogo: Quais são os pontos chave para uma interoperabilidade bem-sucedida no âmbito da logística?

CMG Torres: Acho que um dos principais elementos da interoperabilidade é a padronização. Na medida em que temos procedimentos padronizados, material padronizado, fica mais fácil usar esses meios onde quer que sejam necessários. Acho que isso tem mais a ver com a padronização dos elementos usados na ajuda humanitária ou no combate a incêndios, para levar alívio às pessoas necessitadas; por exemplo, ter uma plataforma padronizada para facilitar a identificação e o deslocamento de um lugar a outro. Acho que a padronização pode ser a peça-chave.

Diálogo: Quais são os tópicos imprescindíveis para os próximos simpósios e para as forças logísticas da região?

CMG Torres: Acho que precisamos ter uma visão de futuro, levando em consideração quais são as experiências mundiais em termos de sustentação das forças militares. Hoje temos um conflito, uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia, em que a logística tem sido crucial para sustentar as operações.

Vimos que, de um lado ou de outro, as operações às vezes são paralisadas, e isso se deve ao fato de não haver logística. Também temos outro grande conflito em Israel, onde a logística está desempenhando um papel preponderante na manutenção das operações dos exércitos. Além disso, algo curioso está acontecendo no Iêmen com os houthis, que atacaram navios dos EUA e navios de outros países que navegam naquelas águas; talvez possamos adquirir daí muita experiência logística que nos seja útil em operações militares.

Portanto, uma dessas experiências seria analisar prospectivamente qual seria a tendência logística daqui para frente, com essa mesma base. Ou seja, sem logística, sem apoio, não há operações militares.

Diálogo: O SOUTHCOM desempenha um papel fundamental na cooperação em segurança e na resposta a desastres no hemisfério. Como o senhor vê a colaboração entre o Chile e o SOUTHCOM em matéria de logística e que oportunidades existem para fortalecer essa relação no futuro?

CMG Torres: Acho que, entre o Estado-Maior Conjunto do Chile e o SOUTHCOM, ainda há um grande potencial de crescimento em nosso relacionamento. Há ajuda e uma aproximação, mas talvez precisemos fortalecer um pouco mais a coordenação para alcançar os destinos que cada um de nós estabeleceu como objetivo. Temos um potencial extremamente grande de crescimento e assistência, que precisamos explorar e conversar melhor a respeito, para coordenar essa assistência e para que ela seja de benefício mútuo.

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