O trabalho de uma soldado depois dos furacões na Guatemala

O trabalho de uma soldado depois dos furacões na Guatemala

Por Marcos Ommati/Diálogo
maio 03, 2021

O primeiro contato de Lesvia Leticia Gallardo Morales com as Forças Armadas foi quando ela viu pela primeira vez uma patrulha de soldados que passava perto de sua casa. Ela tinha 5 anos e voltou-se para a sua mãe, dizendo: “quando crescer, quero ser soldado”. Em repetidas ocasiões, ao longo de seu crescimento, ela continuava lembrando isso à sua mãe, mas a resposta era sempre negativa. A insistência foi tanta que, por fim, a mãe autorizou com um: “Bem, minha filha, Deus te abençoe”. Hoje, Lesvia trabalha na Sexta Brigada de Infantaria Coronel Antonio José de Irisarri, com sede em Playa Grande, Ixcán, no estado guatemalteco de Quiche. Ela é a orgulhosa Soldado do Exército da Guatemala Lesvia Gallardo Morales. Como especialista em Relações Civis Militares e Assistência Humanitária, foi convocada para participar dos esforços de auxílio após os furacões Eta e Iota. Diálogo conversou com a Sd Gallardo Morales sobre essa experiência enriquecedora, não apenas para sua carreira militar, mas também para toda sua vida.

Diálogo: Como a senhora se sentiu ao participar de uma missão tão complicada durante a pandemia?

Soldado do Exército da Guatemala Lesvia Leticia Gallardo Morales: Em primeiro lugar, gostaria de dizer que sou uma sobrevivente da COVID-19. Estar nessa missão não foi nada fácil para mim, porque as sequelas que deixa a doença são muito complicadas. Minhas defesas não estavam 100 por cento, e por isso eu precisava seguir as normas de segurança para me proteger, porque entrávamos nas comunidades para evacuar pessoas, distribuir mantimentos ou avaliar danos ocasionados pelas tempestades Eta e Iota. Em algumas ocasiões, tínhamos que passar o dia inteiro molhados, porque entrávamos na água ou realizávamos o trabalho embaixo da chuva. Eu tinha muito medo, porque poderia me contagiar novamente. Outro aspecto foi o de estar longe da minha família, sabendo que ela também corria riscos devido às tempestades e à pandemia; por isso eu me mantinha em constante comunicação com eles. Entretanto, isso não me impediu de continuar trabalhando e fazendo o que gosto: ajudar!

Diálogo: Como foi seu contato com os militares norte-americanos durante os resgates?

Sd Gallardo: Graças a Deus, eles sempre estiveram à disposição de nossas comunidades. Em nenhum momento deixaram de ajudar. Eles procuravam o lugar, viam como poderiam pousar os helicópteros e levar a ajuda, porque diziam “vocês não estão sozinhos, nós estamos aqui”. Estiveram presentes as equipes dos EUA e até uma do Canadá. Eles não se importaram de entrar na lama até a cintura. Suaram, tomaram chuva como nem se pode imaginar. Machucaram os pés, as mãos. Levaram remédios, alimentos. Levaram roupas, colchonetes. Levaram todo tipo de ajuda a nossas comunidades.

Diálogo: A senhora teria alguma anedota que pudesse compartilhar sobre algo especial que tenha ocorrido durante os esforços de resgate após os furacões Eta e Iota?

Sd Gallardo: Quando chegamos pela primeira vez ao município de Chisec, o primeiro resgate que fizemos foi de uma senhora grávida. A sua gravidez tinha oito meses e duas semanas, aproximadamente. Não havia passagem em nenhum lugar de Chisec, não se podia transitar, muito menos condições para o pouso de um helicóptero, porque tudo estava totalmente inundado. Então, fomos em busca de alguém que pudesse nos apoiar com uma lancha tipo balsa, para podermos transportar a senhora. A maior dor para mim, e o mais triste, foi o fato de a senhora ser mãe solteira e viver em extrema pobreza; sua casinha havia sido totalmente destruída pela água. Ela tinha uma filha de 6 anos, e as palavras da menina que ainda permanecem em minha mente foram: “minha mãe vai voltar, minha mãe vai ficar bem”. Nesse momento, então, fizemos todo o possível para transportar a senhora em uma lancha rápida até uma aldeia denominada Sonté, no município de Cobán. Nós a levamos para lá, mas tivemos que caminhar por aproximadamente 45 minutos, e eu carregava a menina no colo. Ela me abraçou e disse: “prometam que minha mãe vai ficar bem e voltar”. Infelizmente, a senhora estava em um tipo de parto que era grave. Tinha problema de anemia e o médico do hospital de Cobán disse: “não temos esperanças para ela, muito menos para o bebê”.

Diálogo: E o que aconteceu com a menina?

Sd Gallardo: A senhora lamentavelmente faleceu. Os familiares foram procurados para que cuidassem da menina, mas a verdade é que nós [os militares] não podemos fazer isso, visto que se trata de uma responsabilidade de Direitos Humanos. A informação que temos é de que a menina está bem, com uma família.

Diálogo: Se a senhora pudesse falar com a menina que resgatou, o que lhe diria?

Sd Gallardo: A mensagem que lhe enviaria é que ela não está sozinha. Que Deus está com ela, e Deus sabe por que chegamos nesse momento difícil; e que ela possa seguir adiante, que lute por seus sonhos, e que em todo o mundo, em todo o país, o apoio sempre chegará a ela, e que o Exército sempre a ajudará, e que eu, pessoalmente, como mãe, posso dizer que um anjo sempre estará perto dela. E que ela não está sozinha!

Diálogo: O que é preciso ter para ser bem-sucedido no âmbito militar, independentemente do gênero?

Sd Gallardo: Eu respondo a essa pergunta em três aspectos:

Primeiro: Honra. A honra é um valor essencial para o militar, porque atua como guia e como motor que o impulsiona a operar sempre bem no cumprimento de seu dever. Como integrantes de uma instituição tão importante para a Guatemala, devemos sempre atuar com honra para manter o prestígio de nosso glorioso Exército.

Segundo: Lealdade. É a fidelidade aos chefes, companheiros e subordinados, bem como ao cumprimento do compromisso de honra para com a pátria; isso se reflete na confiança que nossa instituição recebe do povo da Guatemala.

Terceiro: Sacrifício. O sacrifício do militar está nos desafios diários para cumprir seu dever com pontualidade, e para ter um bom preparo intelectual e físico.

Para finalizar, gostaria de citar uma frase de Audrey Hepburn, especialmente dedicada a essas mulheres que se esforçam dia a dia para levar o sustento a seus lares: “Para ter olhos formosos, zele pelo bem dos demais; para ter lábios formosos, pronuncie apenas palavras de bondade; e para ter equilíbrio na vida, caminhe com a certeza de que nunca estará sozinha”.

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