Na Venezuela de Nicolás Maduro, surgiu um novo ecossistema criminoso, a medida que o autocrata venezuelano conseguiu incorporar ao seu círculo tanto os grupos criminosos mais poderosos, quanto as principais guerrilhas, tecendo uma rede de interesses que transcende as fronteiras nacionais.
O núcleo dessa criminalidade vinculada ao Estado é o Cartel dos Sóis (CdS), uma rede de altos comandantes militares e funcionários do regime venezuelano liderada por Maduro. As denúncias dos Estados Unidos e de vários parceiros regionais, incluindo as designações como organizações terroristas em 2025 contra o CdS e o Tren de Aragua (TdA), refletem uma profunda mudança na estrutura do crime organizado no país.
Da bonança à violência: O legado de Chávez
O auge do crime organizado na Venezuela não é um fenômeno recente. Durante o mandato de Hugo Chávez, a bonança petrolífera, a corrupção desenfreada e a destruição institucional estabeleceram as bases para uma explosão de criminalidade violenta, que colocou o país entre os mais perigosos do mundo.
Em dezembro de 2014, o Observatório Venezuelano da Violência alertou que a Venezuela tinha a segunda maior taxa de homicídios do planeta. O caos institucional permitiu a proliferação de gangues criminosas em todo o território. Um estudo de 2015 do Observatório Venezuelano do Crime Organizado identificou 28 “mega gangues” com capacidade de operar em grande escala.
O estado de Bolívar se tornou um dos territórios mais violentos, onde organizações criminosas disputavam com sangue e fogo o controle das áreas mineradoras. Em 2016, Ciudad Guayana, sua capital, figurava em décimo primeiro lugar entre as 50 cidades mais violentas do mundo, segundo a organização mexicana Seguridad, Justicia y Paz. No entanto, a dinâmica da violência mudou nos últimos anos.
Do massacre à coexistência: a nova simbiose criminosa
Mercedes de Freitas, diretora da ONG Transparência Venezuela, descreve uma transformação dramática na relação entre o Estado e os grupos armados. “Atualmente, não são relatados os grandes massacres de outrora, nos quais participavam tanto gangues armadas, quanto grupos guerrilheiros e as forças militares venezuelanas. Agora, observa-se uma ‘coexistência’ entre os grupos armados irregulares e as forças do Estado”, explicou à Diálogo.
De Freitas destaca que os líderes criminosos se tornaram figuras de referência local, com mais poder do que os prefeitos, e mantêm uma relação “realmente muito estranha com o Estado”.
Essa simbiose não se limita a Bolívar. Em Táchira, por exemplo, os empresários que distribuem alimentos são vítimas de um esquema de extorsão, no qual participam tanto a guerrilha, quanto as forças militares, conhecido como “sistema Bernal”, em alusão ao governador Freddy Bernal. Nesse sistema, o suborno pago a um operador em San Cristóbal garante que os transportadores não sejam incomodados pelas autoridades.
Repressão e consolidação do poder criminoso
As Operações de Libertação do Povo (OLP) – uma iniciativa controversa do regime contra a criminalidade, que envolveu batidas policiais de segurança em massa, em bairros de baixa renda – foram fatores determinantes na consolidação do poder criminoso em torno do oficialismo. Entre 2015 e 2017, pelo menos 505 pessoas morreram durante as OLPs, segundo dados coletados pelo Ministério Público e posteriormente apresentados a organismos internacionais, em operações nas quais participaram forças policiais e militares. Pouco depois da publicação desses dados, a procuradora-geral Luisa Ortega Díaz foi destituída e obrigada a fugir do país.
Organizações como Human Rights Watch estimam que as mortes durante as OLPs se contam aos milhares. Após dois anos dessas operações, a repressão foi delegada à Força de Ações Especiais da Polícia Nacional (FAES), hoje extinta. Após uma década de repressão letal, apenas as estruturas criminosas ligadas às altas esferas do poder sobreviveram, garantindo assim a impunidade de suas ações.
Guerrilhas e crime transnacional: A fronteira como zona de influência
Entre as organizações que prosperaram sob essa nova ordem estão as guerrilhas colombianas Exército de Libertação Nacional (ELN) e as dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), com ampla presença nos estados fronteiriços. Ambas receberam apoio público do regime de Caracas. Em 2019, Maduro disse que os líderes das FARC Iván Márquez e Jesús Santrich eram “bem-vindos à Venezuela”, apesar de serem procurados pela Colômbia, informou a Reuters na época.
A história do TdA, a gangue criminosa mais notória da Venezuela, ilustra a complexidade do fenômeno. Segundo o regime, a organização foi desmantelada em setembro de 2023, após a intervenção militar na prisão de Tocorón.
No entanto, o comissário Iván Simonovis (ex-funcionário de alto nível de segurança, que se tornou uma figura proeminente da oposição) afirma que a gangue, liderada por Héctor Guerrero Flores, conhecido como Niño Guerrero, continua operando com força e projeção internacional, graças ao apoio do oficialismo. Embora Guerrero seja formalmente procurado pelas autoridades, Simonovis afirma que ele circula livremente por todo o país, protegido pelo aparato de Maduro.
Simonovis afirmou à Diálogo que o TdA realiza atividades nas quais o autoritarismo venezuelano não quer aparecer diretamente envolvido. Um exemplo é o sequestro e assassinato no Chile do 1º Tenente (R) Ronald Ojeda, perpetrado em fevereiro de 2024.
Após a intervenção em Tocorón, nenhum membro da cúpula do TdA foi capturado na Venezuela. Pelo contrário, o regime tentou obstruir as investigações sobre as atividades internacionais da gangue. O recente pedido de extradição para a Colômbia de Larry Amaury Alvarez, conhecido como Larry Changa, um dos fundadores e líderes do TdA, que foi detido em julho de 2024, é um exemplo dos esforços da ditadura para controlar a narrativa e proteger seus aliados.
A crescente condenação internacional das organizações criminosas transnacionais sediadas na Venezuela atingiu seu ponto alto este ano: Estados Unidos, Argentina, Equador, Paraguai e Peru estão entre os países que designaram o TdA e o CdS como organizações terroristas.
Venezuela, um “Estado delinquente”
A centralização do poder criminoso em torno do regime transformou o país no que o ex-presidente da Comissão Nacional contra o Uso Ilícito de Drogas da Venezuela, Carlos Tablante, denomina um “Estado delinquente”.
“Eles ocuparam uma série de espaços, de atividades de controle criminoso, que foram enfraquecendo o Estado de Direito, para criar uma situação em que qualquer cidadão, para resolver qualquer questão com o regime, tem que se relacionar com uma estrutura cada vez mais comprometida com a atividade criminosa”, explicou Tablante à Diálogo.
O tráfico internacional de drogas, o comércio de armas, metais preciosos e pessoas são atividades fundamentais nessa rede. Mas, segundo Tablante, o epicentro da ação criminosa do regime de Maduro é a estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), de onde são obtidos os recursos para sustentar o regime.
Corrupção e rendimentos ilícitos: O custo global do regime
O efeito expansivo da corrupção sob o regime venezuelano é inegável. A Transparência Venezuela documentou 178 processos judiciais em 30 países, durante as eras de Chávez e Maduro.
Além das receitas do petróleo, a organização estima que a renda ilícita derivada do envolvimento da Venezuela na indústria da cocaína seja da ordem de bilhões de dólares, com algumas estimativas ultrapassando US$ 8 bilhões, com o CdS desempenhando um papel fundamental.
A Venezuela de Maduro, longe de erradicar o crime, o centralizou e transformou em um instrumento fundamental de poder, com consequências que transcendem suas fronteiras e ameaçam a estabilidade de toda a região.


