O Chile enfrenta uma realidade criminosa sem precedentes em sua história recente. O Relatório sobre o Crime Organizado no Chile 2025, elaborado pela Unidade Especializada em Crime Organizado e Drogas (UCOD) da Procuradoria Nacional, revela que o país se encontra hoje imerso em um cenário mais complexo e violento, definido por um aumento dramático dos crimes predatórios e pela profunda penetração das organizações criminosas transnacionais (OCTs).
Esta análise detalhada, que retrata ameaças, tendências e evoluções do crime organizado durante 2024, foi construída a partir do trabalho conjunto de instituições-chave e descreve um ecossistema ilícito integrado, no qual a violência criminosa tornou-se uma ferramenta estratégica.
Um retrato complexo e em transformação
Sob a liderança do procurador nacional Ángel Valencia e da equipe da UCOD, o relatório consolida evidências sobre a expansão e mutação das OCTs no Chile. Na introdução do relatório, Valencia destaca que a principal virtude do documento é oferecer uma visão abrangente do crime organizado no Chile, permitindo ao Estado refletir sobre as vulnerabilidades e ameaças, bem como sobre nossos pontos fortes e as tarefas pendentes. A Procuradoria ressalta que a luta contra as OCTs continua: “quando as instituições do Estado unem esforços e trabalham de forma coordenada, as distâncias diminuem e surgem possibilidades reais de sucesso”, indica o relatório.
A investigação examina fenômenos como o tráfico de drogas e armas, sequestros, extorsões, lavagem de dinheiro e tráfico de pessoas. Entre suas conclusões mais alarmantes está o aumento sustentado de crimes predatórios, como sequestros e extorsões, bem como uma maior sofisticação tecnológica das gangues criminosas.
A principal ameaça: A violência e a penetração das OCTs
O relatório confirma que, embora o tráfico de drogas continue sendo o principal motor econômico do crime organizado, representando quase metade de todas as receitas ilícitas em 2023 e 2024, as maiores mudanças são observadas na violência especializada. Os sequestros atingiram um recorde histórico de 868 casos em 2024, o que representa o terceiro ano consecutivo com mais de 800 casos. Juntamente com a extorsão, esses crimes registraram o crescimento mais significativo durante o ano. Além disso, o julgamento de crimes de tráfico de armas aumentou quase 90 por cento entre 2023 e 2024, o que confirma que as armas de fogo são obtidas em grande parte de forma ilegal – por meio de contrabando estrangeiro, adaptação ou fabricação artesanal – e são fundamentais para o controle territorial e a violência.
O panorama criminal foi redefinido com a expansão das OCTs. O grupo venezuelano Tren de Aragua (TdA) e suas diversas franquias operam em todas as regiões do Chile, dedicando-se a todos os tipos de atividades ilícitas, desde tráfico de pessoas e extorsão, até homicídio e lavagem de dinheiro.
Luis Toledo, diretor do Centro de Estudos em Segurança Pública e Crime Organizado da Universidade San Sebastián e antigo promotor da Unidade Antidrogas, adverte à Diálogo que o TdA “não está em expansão exponencial, como em 2021-2023, mas também não está desarticulado, e o que observamos hoje é uma reorganização interna da gangue: várias células foram atingidas por operações policiais e fiscais, mas o vazio deixou espaço para a fragmentação e o surgimento de subgrupos mais autônomos”. Isso, explica, torna o fenômeno “mais imprevisível e, às vezes, mais violento”.
Segundo Toledo, a estrutura hierárquica única deu lugar a núcleos criminosos inspirados ou ligados à “marca” toda, mas com dinâmicas mais locais e adaptadas ao contexto chileno. Para 2026, ele prevê um cenário de persistência e mutação: “menos verticalidade, mais diversificação de crimes e maior hibridização com gangues chilenas, com uma sobrevivência que não depende de grandes líderes, mas de mercados ilícitos que continuam lucrativos: tráfico, exploração sexual, extorsão, sequestro expresso e tráfico de migrantes”.
No entanto, o relatório identifica uma ampla gama de outras organizações estrangeiras, que exploram o território chileno.
As OCTs colombianas, como Los Shottas e Los Espartanos (originárias de Buenaventura), operam nas regiões norte e centro, envolvidas no tráfico de drogas e armas, homicídios e extorsão. Também foram identificados vínculos entre organizações chilenas e OCTs brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), principalmente em relação ao tráfico de cocaína e à logística de exportação. Vale ressaltar que o Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) do México esteve vinculado à apreensão, em maio de 2024, de 844 quilos de metanfetamina líquida, o que ressalta o papel do Chile como plataforma para a exportação mundial de drogas. Também foi documentada a presença no país do grupo extorsionário peruano Los Pulpos, dos Trinitarios dominicanos e da máfia chinesa Bang de Fujian.
Essa convergência de OCTs sofisticadas confirma que o crime organizado no Chile não é mais um fenômeno isolado, mas um ecossistema coordenado que se alimenta de múltiplos mercados ilícitos. Diante desses desafios, a cooperação internacional se torna um pilar estratégico.
Deterioração medida por indicadores internacionais
A deterioração da segurança no Chile não passou despercebida internacionalmente. O Índice Global de Crime Organizado 2025, publicado pela Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), uma ONG internacional com sede em Genebra, Suíça, indica que a pontuação do país piorou progressivamente desde 2021, como resultado da consolidação de gangues transnacionais.
O relatório também mostra o TdA como a organização mais notória e prejudicial, responsável, entre outros crimes, pelo aumento de sequestros, extorsões e tráfico de pessoas vulneráveis.
Respostas do Estado e evolução das políticas
Apesar do diagnóstico sombrio, o Estado está aproveitando seus sucessos iniciais para dar forma a uma resposta estratégica mais abrangente. Em outubro de 2025, o presidente do Chile, Gabriel Boric, promulgou uma lei que cria uma Procuradoria Supra Territorial, especializada em crime organizado e crimes de alta complexidade, com capacidade para operar em todas as regiões do país. Está previsto que essa nova entidade entre em funcionamento em abril de 2026. Essa lei busca dotar o Ministério Público de ferramentas mais eficazes, para enfrentar as ameaças atuais.
“O cenário [no Chile] é realmente muito complexo, mas não é irreversível”, afirma Toledo. “O quadro atual é ruim, mas não determina o futuro.”
Toledo insiste que a experiência internacional demonstra que o Estado pode recuperar o controle: “Quando um Estado corrige os incentivos, aumenta sua presença territorial, profissionaliza a perseguição, retira a capacidade financeira das gangues e recupera o controle das prisões, o avanço criminoso é detido […]. O maior risco hoje não é a ‘irreversibilidade’, mas a inércia política: se não se agir com determinação, a deterioração pode tornar-se permanente. Mas, se o Estado decidir reorganizar suas capacidades, o fenômeno é controlável”.


