Um relatório do think tank Centro de Estudos Estratégicos Internacionais (CSIS), de Washington, revela que a Rússia e o Irã intensificaram sua influência na América Latina, após a invasão da Ucrânia, empregando estratégias assimétricas como propaganda, cooperação militar e apoio a grupos não estatais, para fortalecer seus vínculos com regimes semelhantes e expandir sua presença na região.
De acordo com Vladimir Rouvinski, diretor do Departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade ICESI, na Colômbia, “ambos os países, com interesses convergentes, buscam corroer a democracia na América Latina”, afirmou à Diálogo, em 30 de agosto. “A Rússia tem como objetivo enfraquecer a influência dos EUA, enquanto o Irã busca expandir sua rede de aliados e desafiar a ordem internacional liderada pelo Ocidente.”
O relatório do CSIS, publicado no final de julho, destaca que Cuba, Nicarágua e Venezuela, aliados da Rússia e do Irã, facilitam a evasão de sanções internacionais e fortalecem as capacidades bélicas de ambos os países. Sua cooperação abrange diversos âmbitos, incluindo o desenvolvimento de armas e inteligência.
Rússia e Irã buscam atrair líderes latino-americanos com aspirações de poder, alinhando-os com seus interesses em debilitar a ordem internacional baseada em regras estabelecidas, informa a revista digital espanhola Política Exterior.
A influência econômica limitada de Moscou e Teerã pode torná-los ainda mais perigosos no curto prazo, permitindo que eles se concentrem em ações perturbadoras sem grandes consequências diplomáticas. A crescente coordenação entre os dois países na América Latina é especialmente preocupante, adverte o relatório do CSIS.
Propaganda e desinformação

Rússia e Irã estão se aproveitando da fragmentação da mídia latino-americana para disseminar, por meio de suas plataformas estatais RT en Español e Hispan TV, narrativas que minam o apoio à Ucrânia e promovem seus interesses geopolíticos em 13 países da região, afirma o CSIS.
A convergência entre as operações de influência de ambos os países pôde ser vista pouco antes da invasão da Ucrânia. Em 28 de janeiro de 2022, em um artigo da Hispan TV, o jornalista chileno Pablo Jofré Leal pediu uma coalizão antiamericana liderada por Rússia, China e Irã. Leal é um colaborador frequente da Hispan TV, RT en Español e Telesur e adapta as mensagens de Moscou e Teerã para o público regional, indicou o CSIS.
“A estratégia da Rússia na América Latina baseia-se na comunicação estratégica, usando ferramentas de informação do Estado para gerar um impacto desproporcional com recursos limitados”, comentou Rouvinski. “Dessa forma, eles exploram as divisões existentes e aprofundam a polarização social, o que debilita as democracias da região.”
Paralelamente, grupos neofascistas como New Resistance expandiram sua influência promovendo narrativas pró-russas e elogiando o Irã e o Hezbollah. Um relatório do Departamento de Estado dos EUA ressalta que a filial brasileira dessa organização, Nova Resistência, busca unir a extrema direita e a esquerda radical, para desestabilizar a região.
“Tanto o Irã quanto Moscou compartilham uma estratégia de mídia na América Latina, questionando a ordem internacional e promovendo um novo modelo”, disse Rouvinski. “Além disso, eles buscam se posicionar como líderes dessa nova ordem mundial, aproveitando o terreno fértil que encontram na região para expandir sua influência.”
“Essa estratégia é complementada por táticas flexíveis, nas quais ambos os países formam alianças e espalham propaganda por meio de redes na mídia e nos círculos acadêmicos, inclusive em países com democracias mais sólidas”, de acordo com Rouvinski. “Isso levou alguns meios de comunicação a disseminar a propaganda russa disfarçada de análise legítima.”
Cooperação militar
Rússia e Irã estão ganhando terreno em mercados estratégicos e expandindo sua presença militar na América Latina.
Um exemplo claro dessa expansão ocorreu em junho, quando uma flotilha de navios russos, acompanhada por um submarino nuclear, chegou ao porto de Havana, Cuba, coincidindo com uma visita a Moscou do ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, informou a plataforma britânica BBC. Um mês depois, em julho de 2023, um navio de treinamento da Marinha russa chegou à costa cubana e, em agosto, atracou na Venezuela.
A influência militar russa na região foi consolidada ainda mais em junho de 2022, quando o regime de Daniel Ortega-Rosario Murillo, na Nicarágua, permitiu uma presença militar russa significativa, incluindo tropas, navios e aeronaves, sob o pretexto de treinamento, segurança e ajuda humanitária, disse o relatório do CSIS. Desde 2014, mais de 3.700 soldados russos participaram de atividades militares conjuntas com as forças nicaraguenses.
Além da presença militar, a Rússia fortalece sua influência na América Latina, construindo infraestrutura estratégica, como a estação terrestre GLONASS, instalada na Nicarágua em 2017, “supostamente para combater o narcotráfico, mas, até o momento, não se conhece nenhuma operação antidrogas da qual tenha participado”, acrescentou Prensa Libre, da Guatemala . Essa rede tecnológica, e suas contrapartes no Brasil, complementam as operações militares e de inteligência russas no hemisfério, detalha o CSIS.
Apesar das sanções impostas à Rússia após a invasão da Ucrânia, que limitou o fornecimento de armas a seus parceiros tradicionais da América Latina, a influência russa continua presente, por meio da manutenção e do suporte técnico de armas previamente adquiridas, acrescenta o CSIS.
Por sua vez, o Irã está aproveitando a redução nas vendas de armas russas para expandir sua influência na região, especialmente na Venezuela, de acordo com o relatório. Essa crescente colaboração gera preocupações com a segurança regional, especialmente no contexto da disputa territorial entre Venezuela e Guiana, onde o armamento iraniano poderia desestabilizar a região.
Atores estrangeiros

O CSIS observa que o Irã, por meio do grupo terrorista Hezbollah, juntamente com a Rússia, intensificou sua influência na América Latina, por meio de táticas como a infiltração de redes criminosas e destacamento de paramilitares. O Hezbollah, com presença na região da Tríplice Fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai, por mais de uma década estendeu suas atividades criminosas, incluindo a lavagem de dinheiro, para a Venezuela.
Após as recentes e controvertidas eleições na Venezuela, nas quais Nicolás Maduro se declarou vencedor mais uma vez, diz-se que os mercenários russos do Grupo Wagner foram vistos sobre o terreno, com imagens e fotos que circulam nas redes sociais, que parecem mostrar um homem camuflado que leva uma atadura do Wagner Group. A Rússia já havia enviado cerca de 400 mercenários do Wagner Group para a Venezuela em 2019, para proteger Maduro durante os distúrbios. Com o ressurgimento das organizações criminosas transnacionais, é provável que tanto Moscou quanto Teerã vejam novas oportunidades de oferecer “assistência de segurança”.
“Ao contrário das democracias ocidentais, onde o uso de ferramentas de vigilância é regulamentado, a Rússia e o Irã operam sem restrições”, alertou Rouvinski. “Isso lhes permite empregar táticas como o uso de mercenários na guerra da Ucrânia e o apoio a grupos terroristas, práticas que podem se tornar mais comuns na América Latina, à medida que sua influência cresça.
Novas políticas
O aprofundamento das relações entre a Rússia e o Irã na América Latina é motivo de preocupação. A falta de cautela de alguns governos latino-americanos facilita que esses países, com um histórico de instabilidade, consolidem sua influência em áreas como a segurança, o âmbito militar, a economia e a cultura, colocando em risco a estabilidade regional, afirma Rouvinski,
“Nos Estados Unidos, há uma percepção crescente de que a interferência russa e iraniana na América Latina represente uma séria ameaça. Em resposta, é imperativo elaborar políticas para fortalecer os atores políticos da região que compartilham essa preocupação e se adaptam às mudanças na dinâmica geopolítica da região”, concluiu Rouvinski.


