O ministro da Defesa do Equador, Gian Carlo Loffredo Rendón, tem liderado os esforços do país para enfrentar o crime organizado e o narcoterrorismo, durante um dos períodos mais desafiadores da história recente do país em termos de segurança. Desde que assumiu o cargo em novembro de 2023, o ministro Loffredo tem se concentrado em fortalecer as capacidades das Forças Armadas do Equador e ampliar a cooperação com parceiros internacionais, para combater as organizações criminosas transnacionais.
No âmbito da estratégia de segurança do presidente Daniel Noboa, o ministro Loffredo impulsionou o incremento dos destacamentos militares, para apoiar as operações de segurança interna, ao mesmo tempo em que investe em novas capacidades de defesa e cooperação em matéria de inteligência, para interromper as redes de tráfico ilícito.
Diálogo conversou com o ministro Loffredo, durante a primeira Conferência das Américas contra os Cartéis, realizada em 5 de março, no Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM), em Miami, poucos dias depois de o Equador e os Estados Unidos lançarem operações conjuntas contra organizações narcoterroristas no Equador. Durante a conversa, o ministro Loffredo abordou a evolução da estratégia de segurança do Equador, a cooperação com parceiros internacionais e a importância da colaboração regional para enfrentar ameaças, como o narcotráfico, a mineração ilegal e a pesca ilegal.
Diálogo: Ministro, no início de 2026, o senhor anunciou uma nova iniciativa integral de segurança. De que maneira essa iniciativa fortalece a capacidade das Forças Armadas de combater o narcoterrorismo?
Gian Carlo Loffredo Rendón, ministro da Defesa do Equador: Estamos fazendo uma pequena introdução para lembrar que no Equador existe um conflito armado não internacional, que foi decretado pelo presidente, e isso possibilita que as Forças Armadas tenham um papel na segurança territorial interna. Formamos, juntamente com a Polícia, o que chamamos de Bloco de Segurança, e uma dessas estratégias foi o controle total, uma operação de controle total nos territórios mais problemáticos e conflituosos.
Somos um país de trânsito de drogas que vêm da Colômbia e, por onde esse trânsito passa para chegar aos portos – que são as províncias costeiras –, é onde temos maior conflito. Então, é para lá que temos direcionado uma grande quantidade de recursos das Forças Armadas.
Parte da estratégia que temos utilizado no passado é chamar as reservas para poder incrementar o pessoal e, dessa forma, não descuidar das missões fundamentais das Forças Armadas: o controle das fronteiras, da infraestrutura crítica etc., além da ajuda de outras instituições. Isso nos permite enfrentar esses problemas de maneira mais organizada.
Diálogo: O presidente Daniel Noboa anunciou um investimento de US$ 180 milhões em helicópteros, radares e navios logísticos multipropósito. Como esses novos investimentos transformarão as capacidades das Forças Armadas para manter uma presença constante nos domínios terrestres e marítimos?
Ministro Loffredo: O presidente Noboa demonstra com ações o apoio às Forças Armadas, à Polícia e seu compromisso com o combate ao narcoterrorismo. Nesse sentido, melhorar as capacidades das forças é muito importante.
Temos uma visão clara de segurança e, entre nossos principais eixos de ação, estão o fortalecimento do controle das fronteiras, o controle das rodovias, o controle dos portos e, é claro, o controle de nossas águas territoriais.
Essas capacidades estão focadas em melhorar o controle da fronteira norte, acima de tudo. É uma extensão muito vasta e problemática, devido ao tipo de terreno, e o fator humano já não é suficiente; é necessária a tecnologia. Além disso, nessa guerra, o movimento e a logística das tropas são muito importantes, e é por isso que essas melhorias e esses aumentos de capacidades estão focados nessa área.
Diálogo: O Equador inaugurou recentemente o Centro de Fusão de Inteligência em Guayaquil. Como as novas tecnologias de inteligência e a cooperação internacional melhoraram a capacidade das Forças Armadas para detectar, rastrear e interceptar redes de tráfico ilícito?
Ministro Loffredo: Esse é um centro de fusão de informações. Estamos lá com países da União Europeia, que aumentam nossas capacidades para acompanhar a cadeia logística por onde a droga está saindo.
Podemos começar a ver quem são os exportadores, os transportadores, a carga que chega ao porto, o rastreamento posterior na exportação e poder obter, da Europa até aqui, as informações necessárias para começar a ter uma visão global de quem são essas organizações e como estão agindo. É assim que esse centro de fusão de informações nos ajuda.
Diálogo: A integração do LG-40 Isla Santa Rosa representa uma importante adição às capacidades navais do Equador. Como essa plataforma doada pelos Estados Unidos melhora a capacidade da Marinha equatoriana de proteger seus corredores marítimos, incluindo as águas vitais que circundam as Ilhas Galápagos?
Ministro Loffredo: Essa é uma demonstração da cooperação internacional com um dos nossos aliados mais fortes: os Estados Unidos. Essa lancha de guarda-costas é, sem dúvida, uma grande aquisição. É uma doação que aumenta nossas capacidades marítimas.
É muito importante, porque identificamos os corredores marítimos de drogas: por onde eles passam, que rotas seguem e onde são abastecidos com combustível, para poderem continuar seu caminho.
Lembremos que, no caso do Equador, o território marítimo é quatro vezes maior do que a extensão de terra; então, é uma área muito grande que temos que cobrir. Qualquer capacidade que se some às já existentes para o controle dessas águas territoriais é muito importante.
Os Estados Unidos nos ajudam com aeronaves de vigilância aero marítima, mas são as lanchas de guarda-costas que dão a resposta para a interdição.
Diálogo: Ministro, o senhor acabou de mencionar: o Equador tem nos Estados Unidos e os Estados Unidos têm no Equador um de seus parceiros mais fortes na região. Como essas cooperações fortaleceram as capacidades operacionais das Forças Armadas especificamente para combater o narcoterrorismo e as ameaças transnacionais?
Ministro Loffredo: Temos vários acordos com os Estados Unidos: o SOFA [Acordo sobre o Estatuto das Forças], o Shiprider [acordo de cooperação marítima, que permite operações conjuntas para combater o narcotráfico], entre outros. Já vínhamos trabalhando essas relações no âmbito da segurança e da defesa.
É muito importante agora, nesta conferência que tivemos, ver algo que estávamos esperando, porque o compromisso do presidente Noboa de combater o narcoterrorismo ficou demonstrado desde o primeiro dia. Finalmente temos esse aliado agindo com maior presença e de forma conjunta conosco para combater esse problema.
Essa aliança é definitivamente muito importante. Já estamos realizando operações coordenadas, já estamos cooperando e, nos próximos dias, provavelmente teremos grandes notícias e resultados dessa cooperação.
Portanto, definitivamente agradecemos muito ao atual governo dos Estados Unidos, com o presidente Trump e também o secretário de Guerra Hegseth. Agradecemos muito essa demonstração e esse compromisso de combater esse problema que definitivamente afeta todo o hemisfério e coloca em risco o núcleo familiar, que é o núcleo da sociedade.
Diálogo: O Equador obteve resultados importantes em matéria de interdição nos últimos meses. Como o intercâmbio de inteligência e a cooperação internacional contribuem para esses sucessos operacionais?
Ministro Loffredo: É muito importante porque, quando não temos capacidade para seguir todas as lanchas rápidas ou os semissubmersíveis, é quando precisamos ter essa cooperação internacional, que forma uma espécie de cadeia de informações.
Se eu perder uma, sei que, através do Comando Sul, posso me comunicar com um país que está um pouco mais acima e eles podem fazer a interdição que nós não conseguimos.
Trabalhamos muito em conjunto nesse sentido com os Estados Unidos, com o Comando Sul, e eles são os que coordenam com os demais países também. Com alguns, temos relações bilaterais que nos permitem fazer esse intercâmbio de informações diretamente, mas definitivamente é muito importante que o Comando Sul seja um ator ativo e principal nessa cadeia de informações, para poder fazer interdições.
Diálogo: Que mensagem o senhor gostaria de compartilhar com os parceiros internacionais do Equador, em relação ao compromisso do Equador com a segurança regional, e como a cooperação contínua pode ajudar a garantir a estabilidade no Pacífico oriental?
Ministro Loffredo: Esta mensagem é para todo o mundo. Aqueles países que acreditam que a violência não pode chegar aos seus territórios estão enganados. Se esse mal não for combatido com firmeza desde já, provavelmente chegará a países que não estavam previstos.
Isso aconteceu conosco. Alguma vez fomos uma ilha de paz em toda a América do Sul e agora temos um problema grave.
Portanto, a mensagem é esta: temos que enfrentar isso como uma comunidade, temos que enfrentá-lo com firmeza e temos que dar-lhes o nome que merecem. Essas são organizações terroristas que tentam infundir terror na população através de seus métodos e que contam com um capital muito grande e capacidades militares semelhantes às de qualquer exército. Por isso, temos que enfrentá-los da mesma forma.
Diálogo: Além do tráfico de drogas, o Equador enfrenta ameaças como a mineração ilegal e a pesca predatória por parte da frota pesqueira chinesa. Como o Equador está reforçando a segurança marítima e as alianças internacionais para proteger seus recursos marinhos e a economia azul?
Ministro Loffredo: No caso da pesca ilegal, temos um exercício, o GALAPEX, que realizamos com nações parceiras. O convite está aberto a qualquer país que queira se juntar a essa iniciativa.
Definitivamente, é algo que temos que controlar e temos ajuda internacional para fazer isso com imagens de satélite, entre outros recursos.
Mas, passando para o tema da mineração ilegal, são os mesmos grupos. Isso é uma máfia. Se, por um lado, fica complicado para eles, eles irão para onde for mais fácil; então, o narcoterrorismo tem seus crimes conexos.
A mineração ilegal já está sendo predominante, mas, junto com tudo isso, vem o tráfico de pessoas, a escravidão de pessoas, o assassinato por encomenda e a extorsão. Faz parte dessas estruturas da máfia: ter todo um negócio ilícito que possa trazer-lhes lucros. São os mesmos atores e, ao enfrentar esses atores, muitos desses problemas são enfrentados.
Parte da mutação que essas mesmas gangues sofreram implica que os governos também precisam mudar sua maneira de combater o criminoso.
Por muito tempo, eles têm agido em uma área cinzenta: devo tratá-los como criminosos comuns ou como inimigos armados? Devo tratá-los com direitos humanos ou com direito internacional humanitário?
Essa é uma discussão que precisa chegar a um nível mundial e mudar de sentido, porque, se não, quando quisermos fazê-lo, será tarde demais.


