As recentes capturas de narcotraficantes na Colômbia com vínculos diretos com algumas das mais violentas organizações criminosas italianas, como a Camorra e a máfia calabresa conhecida como ‘Ndrangheta, deixaram em alerta as autoridades do país e de toda a América Latina, informou o site de notícias argentino Infobae.
“A ‘Ndrangheta se tornou uma das organizações criminosas mais poderosas do mundo”, disse à Diálogo, em 3 de dezembro, Carolina Sampó, coordenadora do Centro de Estudos sobre o Crime Organizado Transnacional, da Argentina. “Ela tem ramificações em mais de 40 países e tem sido capaz de tecer alianças com outros grupos criminosos, entre eles os cartéis de drogas sul-americanos.”

Em 31 de outubro, o Gabinete do Procurador-Geral da Colômbia declarou que uma investigação sobre três homens havia revelado vínculos com a ‘Ndrangheta. As autoridades prenderam os homens, identificados como César Alexander Hernández Caballero, vulgo El Calvo, Haroll Miranda Castaño e José William Méndez Caycedo, sob a acusação de obter e enviar cocaína para o porto de Gioia Tauro, na Calábria, Itália, informou a Procuradoria Geral em um comunicado.
As investigações da polícia judiciária concluíram que os detidos obtiveram carregamentos de cocaína em áreas rurais do departamento de Nariño. Para facilitar a extração dos carregamentos de drogas, eles uniram forças com a Segunda Marquetalia, um grupo dissidente das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), informou a revista colombiana Alternativa.
“Na Europa, há um mercado que demanda cocaína, e a única região do mundo que a produz é a América Latina, onde sua fabricação está concentrada em Colômbia, Peru e Bolívia”, disse Sampó.
De acordo com Infobae, a ‘Ndrangheta controla 40 por cento do tráfico mundial de cocaína e tem laços estreitos com os principais cartéis de drogas da nossa região.
“A principal fonte de renda da ‘Ndrangheta é o narcotráfico. Além disso, eles se dedicam ao tráfico de armas e à prostituição, para financiarem-se”, acrescentou Sampó. “Depois, eles se envolvem em diferentes setores da economia latino-americana, como, por exemplo, na construção de grandes imóveis e investimentos financeiros, com o objetivo de lavar o dinheiro ilícito.”
Um chefão de cada vez
Em outra operação conjunta, também realizada em outubro, a Polícia Nacional da Colômbia e as agências antidrogas da Itália e do Reino Unido capturaram em Medellín Luigi Belvedere, um importante narcotraficante da máfia italiana Camorra, procurado em 196 países por tráfico internacional de cocaína, ressaltou o jornal colombiano El Espectador.
A prisão foi feita como parte da operação denominada Caronte, que desmantelou a rede de Belvedere em relação à compra e envio de grandes carregamentos de cocaína da América Latina para a Itália, Espanha, Alemanha e Holanda.
“Belvedere, que era um dos fugitivos mais perigosos da Itália, estava escondido em Medellín, onde alugou vários apartamentos de luxo, por meio de intermediários, para despistar as autoridades”, acrescentou El Espectador.
De acordo com as autoridades locais, sua prisão desmantelou uma parte importante da máfia italiana na América do Sul e “representa um grande golpe contra uma organização criminosa que ameaçava a segurança transnacional”, informou El Espectador.
Em outra operação realizada em outubro, em Medellín, a polícia colombiana prendeu Gustavo Nocella, outro chefe da máfia italiana ligado aos clãs de Rinaldi-Formicola, Amato-Pagano e De Micco, com sede em Nápoles, informou o site de notícias ColombiaOne. Nocella, conhecido como Ermes, que foi preso como parte da Operação Minerva, após uma investigação de seis meses com a Polícia italiana, Europol e Interpol, é suspeito de coordenar e facilitar o tráfico de cocaína da Colômbia para a Holanda.
Aliança italiana

Para InSight Crime, uma organização dedicada ao estudo do crime organizado na América Latina e no Caribe, a presença da Camorra na Colômbia “não é um evento isolado, mas responde a uma mudança na estrutura de poder do narcotráfico colombiano nos últimos anos, que abriu seu mercado a compradores europeus, sem a necessidade de intermediários tradicionais”.
Durante décadas, a ‘Ndrangheta e, antes dela, a Cosa Nostra siciliana, mantiveram um papel dominante no tráfico de cocaína da América Latina para a Europa. Sua influência foi consolidada por meio de alianças estratégicas com o grupo paramilitar de narcotraficantes Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), o que lhes permitiu consolidar redes de distribuição, contando com segurança e logística na Colômbia, segundo InSight Crime.
A máfia italiana também estendeu suas operações no Equador nos últimos anos. De acordo com investigações documentadas pelo promotor italiano Giovanni Bombardieri, a ‘Ndrangheta, por meio do narcotráfico, investe milhões de dólares no mundo empresarial, contaminando assim a economia legal do Equador, publicou o jornal equatoriano Expreso. Giovanni ressaltou que o grupo calabrês tem operadores portuários equatorianos imersos na logística criminosa, para traficar cocaína para a Europa.
Luta global
Em 6 de novembro, as autoridades espanholas, em uma operação conjunta com o Equador, apreenderam 13 toneladas de cocaína no porto de Algeciras, escondidas em um carregamento de bananas provenientes de Guayaquil, “tornando-se a maior apreensão dessa droga na história da Espanha e uma das mais importantes em todo o mundo”, informou a rede internacional de notícias Euronews.
“A luta para combater o avanço desse flagelo deve ser confrontada com uma abordagem global, permitindo que todos os países ataquem e persigam essas organizações criminosas da mesma forma, para impedir sua expansão”, disse Sampó. “O ideal é estabelecer e aprofundar mecanismos eficientes de cooperação entre os Estados, por meio de suas agências de segurança e inteligência, para evitar que os grupos criminosos continuem lucrando e causando danos à humanidade.”
No dia seguinte, em 7 de novembro, uma coalizão policial internacional, coordenada pela Organização Internacional de Polícia Criminal (INTERPOL), prendeu mais de 100 membros importantes da ‘Ndrangheta durante várias operações na Alemanha e na Itália.
A INTERPOL disse em um comunicado que a luta contra essa máfia está enquadrada no Projeto I-CAN, que envolve o intercâmbio de informações policiais, para desmantelar as redes dessa organização criminosa, interromper suas operações e prender os fugitivos.
“O único método de combater essas máfias de forma eficiente é de maneira transnacional, fortalecendo a cooperação entre a América Latina e a Europa, para neutralizar o avanço das máfias italianas na região com apreensões de drogas, e aprofundando as investigações sobre lavagem de dinheiro”, concluiu Sampó. “Dessa forma, será possível neutralizar as ações operacionais desses grupos criminosos.”


