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Grupamento de Mergulhadores de Combate, unidade de elite da Marinha do Brasil

Grupamento de Mergulhadores de Combate, unidade de elite da Marinha do Brasil

Por Dialogo
janeiro 21, 2019

Inicialmente formado em 1964, pela combinação de dois conceitos operacionais distintos – o americano, baseado nas ações de demolição de obstáculos de praia em proveito das operações anfíbias, e o francês, centrado nas operações de sabotagem das embarcações inimigas –, o Grupamento de Mergulhadores de Combate (GRUMEC) da Marinha do Brasil (MB) evoluiu gradativamente no decorrer do tempo. Isso levou a unidade a desenvolver doutrina própria de emprego devidamente adaptada à conjuntura dos cenários nacional e internacional, especialmente as de caráter naval. Diálogo conversou com o Capitão de Fragata da MB Michael Vinicius Aguiar, comandante do GRUMEC, para aprender mais sobre essa unidade de operações especiais do Corpo da Armada da Marinha do Brasil.

Diálogo: O GRUMEC é a única unidade de operações especiais da MB?

Capitão de Fragata da MB Michael Vinicius Aguiar, comandante do Grupamento de Mergulhadores de Combate: Da Armada, sim. Na MB nós temos duas unidades de operações especiais distintas: o GRUMEC, que é do Corpo da Armada, subordinada ao Comando da Força de Submarinos, e o Batalhão Tonelero, onde são lotados os comandos anfíbios, que é uma outra unidade de operações especiais da nossa Marinha, sendo esta pertencente ao Corpo de Fuzileiros Navais, cujas tarefas são distintas das nossas.​​​​​​​

Diálogo: Como foi que o senhor conheceu a atividade de mergulho de combate na Marinha e quando o oficial da MB faz a opção para se voluntariar para o curso a fim de se tornar um mergulhador de combate?

CF Aguiar: Eu conheci a atividade de mergulho de combate quando era aluno do terceiro ano do Colégio Naval [instituição da MB de nível médio, localizada em Angra dos Reis, Rio de Janeiro], em 1992. Os mergulhadores de combate usam muito a área marítima de Angra dos Reis para treinamento, principalmente os voltados para a parte aquática, a parte de mergulho de operações especiais, sendo que a base de apoio das equipes de operações especiais que vão para lá é normalmente o Colégio Naval. Então, nessa época, eu tive a oportunidade de ver aquele grupo pequeno, todos de preto, carregando muito material, armamentos e explosivos diversos, equipamento de mergulho de circuito fechado e semifechado, o que acabou me despertando certo interesse pela atividade. [É] fácil entusiasmar um jovem cheio de sonhos e expectativas na faixa entre 15 e 17 anos. Foi a partir daí que eu comecei a me informar e pesquisar sobre a atividade de mergulho de combate.

O oficial que deseja se voluntariar para o Curso de Mergulhadores de Combate faz essa opção ainda no início da sua carreira, logo após terminar sua formação na Escola Naval [instituição da MB de nível superior, onde são formados os oficiais, localizada no Rio de Janeiro].

Diálogo: Qual é a duração do Curso de Mergulhadores de Combate e normalmente qual é o posto do oficial no início da formação?

CF Aguiar: O curso tem duração de aproximadamente nove meses. Brincamos com o fato de mais parecer uma gestação, por conta do tempo. Atualmente, o candidato inicia o curso no posto de 2º tenente, mas na época em que cursei, há quase 20 anos, cursávamos no posto de 1º tenente, pois após a conclusão da viagem de instrução de guardas-marinha, [viagem no Navio-Escola Brasil, que dura em média seis meses, e que passa por diversos países, sendo realizada pelos oficiais da MB que concluem o curso da Escola Naval], ainda tínhamos que embarcar e servir em navios da esquadra pelo período de dois anos, antes da apresentação para o início do Curso de Mergulhadores de Combate. Esse embarque por dois anos era um pré-requisito de carreira para participar do curso. Ao término desses dois anos no posto de 2º tenente é que vinha a promoção ao posto de 1º tenente, e a partir daí estavam cumpridos os requisitos mínimos para iniciar o curso, para os que fossem aprovados nos exames de seleção que basicamente constam de um exame psicotécnico, exame de saúde e teste de aptidão física. Os aprovados nos exames de seleção automaticamente eram inscritos no curso. De alguns anos para cá e em virtude de algumas necessidades de aumentar nossos efetivos, a administração naval alterou o plano de carreira dos oficiais, permitindo que o tempo de embarque em navios fosse reduzido de dois para apenas um ano, possibilitando, assim, admitirmos mais voluntários para iniciar o curso, uma vez que o oficial pode se apresentar ainda mais novo.

Diálogo: E o que a MB ganhou com isso?

CF Aguiar: O grande ganho é que conseguimos, agora, recrutar oficiais ainda mais cedo. Quanto mais novo, melhor, em se falando de uma atividade que exige muita saúde, dedicação, determinação e rigidez física. Desta forma, a grande maioria dos oficiais voluntários já inicia o Curso de Mergulhadores de Combate ainda no posto de 2º tenente, o que nos trouxe inúmeros ganhos, como aumento de efetivo e de vida operativa na atividade.​​​​​​​

Diálogo: O jovem que está cumprindo o tempo de serviço obrigatório, aos 18 anos, pode se candidatar ao curso como praça?

CF Aguiar: Não. Os voluntários devem ser oficiais ou praças do Corpo da Armada com estabilidade, ou seja, não é permitida a inscrição de recrutas para o Curso de Mergulhadores de Combate. Para cursar, as praças têm que ser cabo ou sargento do Corpo da Armada. Nossa formação é muito técnica, específica, sigilosa e muito especializada. Não podemos dar um treinamento super especializado a um militar descomprometido ou sem vínculos de carreira com a Marinha, uma vez que, ao sair da instituição, este pode usar estes conhecimentos adquiridos para outros fins, ou mesmo em proveito de atividades criminosas.​​​​​​​

Diálogo: Que fatores são determinantes para que se estabeleça que uma operação é especial?

CF Aguiar: São basicamente as operações realizadas por pessoal selecionado e muito bem treinado física e psicologicamente, empregando ações e métodos não convencionais com o propósito de destruir e danificar objetivos específicos e de interesses estratégicos. São comumente empregados para capturar e resgatar pessoal e material. Normalmente, são operações com duração limitada, tendo como premissas o sigilo, a rapidez nas ações, a surpresa e a agressividade, envolvendo atividades complexas e de alto risco.​​​​​​​

Diálogo: Qual é a diferença entre uma tarefa de salvamento e uma tarefa de resgate?

CF Aguiar: Tarefas de salvamento não são aplicadas por unidades de operações especiais. Há uma diferença clara entre realizar salvamento e realizar resgate. Os mergulhadores de combate são preparados para resgatar reféns, por exemplo, bem como prisioneiros de guerra em território inimigo. Para resgatar reféns precisam empregar o sigilo, a rapidez nas ações, a surpresa e a agressividade contra o inimigo. As tarefas de salvamento são empregadas por unidades que realizam busca e resgate de náufragos remanescentes de desastres aéreos ou marítimos, por exemplo. São atividades de cunho administrativo para resgatar ou salvar alguém ou mesmo material, caso necessário e dependendo da situação.​​​​​​​

Diálogo: Mas a missão do GRUMEC tem que envolver uma embarcação?

CF Aguiar: Não necessariamente. Podemos ser empregados por diversos meios como aeronaves de asas rotativas (helicópteros) e fixas (aviões), submarinos, mini submarinos, caiaques, mergulho, viaturas militarizadas ou não, ou mesmo em operações puramente terrestres, por meio de patrulha, não tendo a necessidade de sempre ser empregado por meio de embarcações. As características e especificidades das tarefas atribuídas é que vão definir os meios que serão empregados pelo GRUMEC.

Diálogo: Qual foi a participação do GRUMEC no que se refere à segurança da Copa 2014 e das Olimpíadas 2016?

CF Aguiar: O GRUMEC foi empregado em tarefas de reconhecimento especial, vigilância (monitoramento) e no combate ao contraterrorismo, que é algo intrínseco às nossas atividades. O GRUMEC possui uma equipe tática especializada para ser empregada em tarefas contraterror, conhecida como Grupo Especial de Retomada e Resgate. Nos grandes eventos, fomos empregados juntamente com outras unidades de operações especiais das Forças Armadas e de outros órgãos de segurança pública, como a Polícia Federal, Polícia Militar e Civil.

Diálogo: Então o GRUMEC só entraria em ação se houvesse um ataque terrorista de fato, correto?

CF Aguiar: Exatamente. Caso houvesse alguma ação terrorista ou tentativa de atentado com risco a pessoas ou instalações, o GRUMEC estaria pronto para ser empregado imediatamente, assim como as demais unidades de operações especiais que participaram dos grandes eventos.​​​​​​​

Diálogo: Das lições aprendidas com os grandes eventos, qual foi a principal?

CF Aguiar: A interoperabilidade entre as equipes participantes. Ela foi muito importante porque fez com que pudéssemos participar desses eventos de maneira conjunta em todos os níveis com as demais forças empregadas, desde o início, durante as fases de planejamento e preparação. Aprendemos como outras equipes táticas são empregadas e quais as suas capacidades e limitações, bem como, como são preparados e treinados. Foi possível conhecer de perto seus modus operandi e equipamentos e armamentos utilizados, e isso facilitou muito toda a parte de planejamento e integração durante os grandes eventos. Todos aprenderam muito e esta experiência nos trouxe muitos ganhos. Aprendemos a nos conhecer melhor.

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