A Colômbia está intensificando sua cooperação tecnológica com a China, especialmente nos setores de telecomunicações e infraestrutura digital, uma tendência que, segundo analistas de segurança, pode ter implicações significativas a longo prazo para a segurança nacional e a soberania digital do país.
Em todo o mundo, os governos têm expressado sua preocupação com o papel das empresas chinesas em infraestruturas críticas. As redes de telecomunicações, as plataformas em nuvem e os sistemas de dados não são apenas tecnologias comerciais, mas também ativos estratégicos capazes de transportar comunicações governamentais confidenciais, informações de defesa e fluxos de dados críticos, o que os torna alvos potenciais para espionagem, se forem comprometidos.
O Ministério de Tecnologias da Informação e Comunicações (MinTIC) da Colômbia reforçou a cooperação com empresas de tecnologia chinesas, incluindo reuniões com executivos de empresas como Huawei e ZTE, durante uma visita oficial à China, em meados de janeiro. As conversas se concentraram em áreas como redes 5G, infraestrutura de fibra óptica, serviços em nuvem, inteligência artificial e programas de capacitação destinados a reforçar as capacidades digitais da Colômbia.
Embora essas iniciativas sejam apresentadas como oportunidades para o desenvolvimento tecnológico, analistas alertam que uma maior integração com os fornecedores de tecnologia chineses pode criar vulnerabilidades estratégicas a longo prazo.
Riscos legais e alertas de segurança
Uma das principais preocupações em relação às empresas de tecnologia chinesas é a estrutura legal do país que rege a cooperação em inteligência. A Lei de Inteligência Nacional da China exige que todas as organizações e cidadãos colaborem com as atividades de inteligência do Estado, um requisito que, segundo analistas de segurança, efetivamente obriga que as empresas chinesas ajudem o governo, quando solicitado.
“Na Colômbia, não existem mecanismos específicos para auditar a tecnologia, de acordo com seu país de origem”, ressaltou à Diálogo Andrés Navarro, professor do Departamento de Computação e Sistemas Inteligentes da Universidade ICESI, na Colômbia. Segundo Navarro, os protocolos existentes se concentram principalmente no rendimento técnico, mais do que nos riscos geopolíticos ou de segurança associados aos fornecedores de tecnologia.
Um relatório do Instituto de Ciência Política Hernán Echavarría Olózaga, da Colômbia, alerta que as empresas chinesas de tecnologia da informação e comunicação têm vínculos institucionais com o Estado e o Partido Comunista Chinês (PCC), incluindo órgãos de inteligência e segurança. No sistema político chinês, os ramos do PCC operam dentro das empresas chinesas, incluindo entidades privadas, o que cria vínculos formais entre as atividades empresariais e as prioridades estratégicas do Estado.
O relatório também enfatiza que integrar a tecnologia dessas empresas em sistemas governamentais ou infraestruturas críticas sem salvaguardas jurídicas e técnicas pode aumentar os riscos para a segurança nacional. As certificações técnicas podem verificar a funcionalidade, mas não abordam necessariamente questões mais amplas relacionadas à confiança e ao controle estratégicos.
Lições de casos internacionais
As preocupações com a segurança relacionadas à tecnologia chinesa não se limitam à Colômbia. Debates similares surgiram em todo o mundo, à medida que os governos avaliam os riscos associados às infraestruturas digitais fornecidas por países estrangeiros.
Um caso muito citado é o da sede da União Africana na Etiópia, onde, segundo relatos, técnicos detectaram transferências não autorizadas de dados de servidores associados a equipamentos da Huawei. Analistas afirmam que o incidente ilustra como as comunicações confidenciais podem ficar expostas, quando os sistemas governamentais dependem da infraestrutura digital chinesa. A preocupação com esses riscos levou vários governos, incluindo os dos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Japão e Costa Rica, a restringir ou excluir a Huawei de suas redes de telecomunicações, por motivos de segurança nacional.
De acordo com uma análise de The Heritage Foundation, a infraestrutura tecnológica fornecida por empresas chinesas pode expor dados estratégicos e comunicações confidenciais com implicações econômicas e políticas significativas.
No contexto colombiano, Navarro explicou que os protocolos internos atuais não são projetados para avaliar riscos relacionados à origem da tecnologia nem para identificar vulnerabilidades no hardware. Isso levanta uma preocupação adicional em um ambiente onde a tecnologia chinesa ganhou espaço em projetos governamentais e privados.
O debate também se estende à esfera da inteligência artificial. Em 2025, vários governos impuseram restrições ao modelo chinês DeepSeek, devido a vulnerabilidades relacionadas ao gerenciamento de dados e à proteção da privacidade. As autoridades alertaram que as interações dos usuários poderiam ser coletadas e usadas para treinar algoritmos, o que poderia expor informações confidenciais.
Investigadores em segurança cibernética também identificaram campanhas de espionagem direcionadas a entidades governamentais na América Latina. As investigações da empresa de segurança cibernética ESET atribuíram algumas dessas operações a grupos de ameaças alinhados com a China, incluindo o grupo conhecido como FamousSparrow. Essas campanhas utilizaram técnicas como o sequestro de atualizações de software e a exploração de dispositivos de rede, o que reforça as preocupações com a segurança de infraestruturas críticas em toda a região.
Expansão da presença
A presença tecnológica da China na América Latina se expandiu significativamente durante a última década. As empresas chinesas agora fornecem uma ampla gama de infraestruturas de telecomunicações em toda a região, incluindo redes móveis, sistemas de fibra óptica, centros de dados e cabos submarinos.
Essa expansão permitiu que os fornecedores de tecnologia chineses se tornassem atores centrais em projetos nacionais de conectividade.
“É preciso ter clareza sobre os riscos que se corre ao comprar infraestrutura tecnológica chinesa”, afirmou Navarro.
Segundo Navarro, alguns sistemas podem limitar a autonomia operacional dos operadores locais, uma vez que a manutenção, as atualizações e os conhecimentos técnicos especializados continuam concentrados no fornecedor original.
Com o tempo, essa dependência pode dificultar que os países substituam os sistemas ou diversifiquem seus fornecedores de tecnologia.
Na Colômbia, o setor de defesa tem evitado em grande parte a compra de equipamentos de empresas chinesas por motivos de segurança. No entanto, em outros setores, as decisões de aquisição são geralmente motivadas por considerações de custo e não por avaliações de risco estratégico de longo prazo. Essa dinâmica poderia permitir que os fornecedores de tecnologia chineses se consolidassem ainda mais nas infraestruturas críticas.
Implicações estratégicas para a Colômbia
Para a Colômbia, as decisões sobre a infraestrutura de telecomunicações e as plataformas digitais terão implicações de longo prazo para a segurança nacional.
À medida que as redes digitais sustentam cada vez mais as operações governamentais, a atividade econômica e os sistemas de defesa, a presença de tecnologia controlada pela China em infraestruturas críticas poderia criar oportunidades para espionagem, vigilância ou interrupção, durante períodos de tensão geopolítica. Nesse contexto, as decisões sobre os fornecedores de tecnologia não são mais apenas escolhas econômicas ou técnicas, mas considerações estratégicas, que podem configurar o ambiente de segurança da Colômbia nos próximos anos.


