A violência ligada ao narcotráfico no México atingiu um ponto de inflexão nunca visto antes. Em 15 de outubro de 2025, um ataque coordenado com drones atingiu a Procuradoria Geral de Baja California, em Tijuana. Esses drones, carregados com explosivos improvisados – bolinhas de gude, fragmentos de metal e estilhaços caseiros – marcaram uma mudança de paradigma no confronto entre o Estado e o crime organizado.
O uso de artefatos sofisticados e operados à distância foi interpretado como uma resposta inédita dos cartéis. Esse ataque foi considerado uma retaliação direta pelas importantes operações governamentais e detenções fundamentais de líderes dos cartéis nos meses anteriores, o que demonstrou a sua capacidade de atacar as principais instalações da ordem pública e da inteligência do Estado.
O salto tecnológico dos cartéis
Os cartéis mexicanos evoluíram rapidamente no alcance tecnológico do uso de drones, o que demonstra um rápido avanço em sofisticação e capacidade.
“Os cartéis mexicanos alcançaram um nível alarmante de sofisticação no uso de drones, passando de modelos comerciais básicos, usados para a vigilância, a plataformas armadas com explosivos e agentes tóxicos capazes de evitar a detecção, por meio de tecnologias inspiradas na guerra da Ucrânia”, afirmou Víctor Ruiz, fundador da empresa mexicana de segurança cibernética SILIKN, em declarações à Diálogo. “A fabricação local, a consultoria de ex-militares estrangeiros e a adoção de táticas híbridas transformaram o narcotráfico em um conflito de baixa intensidade.”
Em um relatório de setembro de 2025, o grupo de especialistas dos EUA Atlantic Council detalhou que células do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) – e, em particular, a unidade Operadores Droneros – reforçaram suas capacidades, depois que seus operativos receberam uma formação avançada em drones com visão em primeira pessoa (FPV), enquanto participavam da Legião Internacional da Ucrânia, um fato destacado por relatórios de inteligência.
“Vimos relatórios nos últimos meses de que tanto os cartéis mexicanos, quanto os grupos criminosos colombianos, estão tentando infiltrar-se no Exército ucraniano, para aprender técnicas que possam aplicar na América Latina”, explicou ao jornal inglês The Telegraph Alexander Marciniak, analista de inteligência latino-americana de Sibylline. “Os cartéis podem usar drones para todos os tipos de fins: ataques e vigilância entre eles e às forças de segurança e para contrabando de material ilegal.”
Capacidades inéditas e táticas importadas
Os operadores do CJNG agora empregam drones FPV, equipados com sistemas de estabilização e cargas úteis otimizadas para um impacto preciso e próximo. Imagens divulgadas nas redes sociais mostram membros do Cartel de Sinaloa usando tecnologia conectada por fibra óptica – uma tática para evitar bloqueios de sinal surgida na Ucrânia. Essas inovações permitem ataques precisos, semeiam o medo nas comunidades e dificultam a resposta das forças de segurança, segundo relatou Infobae.
Antecipando os ataques com drones rivais, alguns “narco-tanques” dos cartéis – veículos de combate improvisados e fortemente armados – foram modificados com gaiolas protetoras, uma tática defensiva que reflete de maneira inquietante as adaptações utilizadas no campo de batalha na Ucrânia. Além disso, a documentação mostra que algumas facções estão agora investindo fortemente em sistemas comerciais de alta tecnologia, para neutralizar o uso de drones, com o objetivo de derrotar a vigilância rival e estatal.
Essa ameaça transcende o âmbito militar. “Mesmo que os militares da região possam fortalecer suas bases e infraestrutura crítica contra ataques com drones, isso significa pouco para as comunidades que enfrentam bombas lançadas a partir de UAS [aeronaves não tripuladas], como uma ferramenta de extorsão e intimidação”, alertou Henry Ziemer, investigador associado do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), ao jornal mexicano El Paso. Ziemer ressaltou que qualquer solução integral requer abordar o ressurgimento geral do crime organizado.
Um conflito híbrido em rápida evolução
O uso de drones com explosivos pelo CJNG em várias zonas de conflito já havia sido amplamente divulgado pela mídia desde 2022, com vídeos de ataques circulando nas redes sociais. Ruiz adverte que essas capacidades “permitem ataques de alta precisão, evasão eficaz de bloqueios terrestres e vigilância constante que iguala ou até supera a capacidade de resposta das forças federais”.
O grande volume de ataques ressalta essa mudança. De acordo com a Secretaria de Defesa Nacional (SEDENA), o número de ataques com drones denunciados aumentou consideravelmente, passando de apenas cinco, em 2020, para 233, em 2022, conforme informou Mexico Business News. No primeiro semestre de 2023, esse número já havia chegado a 260, o que demonstra um aumento exponencial do uso de drones por grupos do crime organizado.
O resultado é um cenário de conflito híbrido, onde atores não estatais conseguem domínio aéreo de baixo custo e mostram uma agilidade inovadora, desprovida das restrições éticas que limitam as forças estatais.
O think-tank norte-americano Atlantic Council destaca que os drones FPV nas mãos dos cartéis combinam baixo custo, capacidade letal e a possibilidade de negar a autoria. A montagem pode passar despercebida, o destacamento é quase invisível e a precisão, surpreendente. Ataques, que antes exigiam comandos especializados, agora são executados à distância, com menores riscos para os perpetradores.
A economia clandestina por trás da ameaça
O mercado negro digital se tornou o eixo central dessa revolução tecnológica. “Nesses espaços circulam manuais em espanhol e russo sobre a integração de explosivos e tutoriais ao vivo ministrados por antigos operadores ucranianos”, detalhou Ruiz.
Essa infraestrutura ilícita forma uma cadeia global de abastecimento, que reduz o tempo de aquisição a minutos e os custos a apenas algumas centenas de dólares, facilitando o acesso à tecnologia de guerra para qualquer indivíduo com criptomoedas e conexão privada à internet.
México, laboratório e alerta global
O México é hoje tanto um cenário de conflito, quanto um alerta para o mundo. A questão não é mais se os cartéis usarão drones mais sofisticados, mas como e quando o farão.
Como destaca uma análise de Pucará Defensa, “a questão urgente é agir com rapidez e coerência, integrando as soluções disponíveis em uma arquitetura flexível capaz de evoluir com a ameaça”. O desafio está lançado: a tecnologia mudou radicalmente as regras do jogo na guerra contra o narcotráfico, exigindo uma rápida inovação e uma ação decisiva para aqueles que tentam contê-la.


