Nos últimos anos, a geografia do tráfico de drogas no Brasil passou por uma profunda transformação que está redefinindo o mapa do crime organizado na América Latina. Se durante décadas o Paraguai foi a principal base operacional do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), hoje o centro de suas operações está se deslocando progressivamente para a Bolívia.
Segundo pesquisadores, essa mudança reflete a estratégia das organizações criminosas brasileiras de assumir um controle mais direto sobre as etapas iniciais da cadeia de produção de cocaína e sobre as principais rotas de exportação. “A Bolívia oferece o que o Paraguai não pode garantir na mesma medida: a proximidade das áreas de produção de cocaína, o acesso ao corredor da coca peruana e uma fronteira terrestre de mais de 3400 quilômetros com o Brasil, em grande parte fluvial e amazônica”, explicou à Diálogo Carlos Eduardo da Silva, ex-investigador sênior da Polícia Civil de São Paulo e especialista em crime organizado transnacional.
A ascensão da Bolívia reflete a crescente internacionalização do PCC e do CV, que fortaleceram alianças com produtores, redes logísticas e operadores financeiros, tornando-se organizações criminosas transnacionais cada vez mais integradas. Um sinal dessa evolução foi a prisão, em maio passado em Santa Cruz de la Sierra, de Gerson Palermo, um dos principais líderes do PCC. Condenado a 126 anos de prisão e foragido desde 2020, Palermo comandava uma rede internacional que transportava cocaína da Bolívia para o Brasil e, posteriormente, para as rotas internacionais do tráfico de drogas.
De corredor a plataforma operacional
De simples corredor do tráfico de drogas, a Bolívia transformou-se em uma verdadeira plataforma operacional regional para os grupos criminosos brasileiros. Segundo o promotor brasileiro Lincoln Gakiya, a facilidade para corromper funcionários locais e viver sob identidades falsas favoreceu essa transformação. De acordo com autoridades de segurança do estado brasileiro da Bahia, somente em 2026, seis líderes de facções criminosas ativas naquele estado foram detidos em território boliviano.

As investigações mostram que o país não é utilizado apenas como refúgio para fugitivos, mas cada vez mais como centro de coordenação de atividades criminosas. Segundo os investigadores, o CV teria desenvolvido uma estrutura de comando especificamente destinada a coordenar suas atividades na Bolívia.
A concentração dessas atividades criminosas é observada sobretudo nos departamentos orientais de Santa Cruz e Beni. Em particular, Santa Cruz de la Sierra tornou-se um centro logístico e financeiro estratégico graças aos seus vínculos comerciais com o Brasil, à infraestrutura de transporte e ao elevado fluxo de mercadorias e capitais. A cidade facilita a lavagem de dinheiro, o abrigo de fugitivos e a coordenação de operações transnacionais. “O risco é que a Bolívia se torne uma plataforma de conexão entre os grupos criminosos brasileiros e as redes regionais”, afirma da Silva.
Segundo o especialista, uma presença cada vez mais proeminente das organizações brasileiras poderia acelerar a integração com os grupos andinos que controlam a produção de cocaína no Peru e na Bolívia. “A proximidade com as plantações de coca e os laboratórios de refino pode permitir que as organizações criminosas brasileiras reduzam intermediários, aumentem suas margens de lucro e adquiram maior autonomia logística”, acrescenta.
O especialista alerta ainda que o PCC e o CV podem ultrapassar o papel tradicional de compradores e distribuidores, passando a ocupar posições cada vez mais profundas na cadeia produtiva da cocaína e aproximando-se da condição de produtores.
A mudança das rotas
A expansão do PCC e do CV na Bolívia transformou o país em um nó estratégico para o tráfico regional de drogas, favorecendo a consolidação de novas rotas para os mercados internacionais. Entre as mais importantes está o corredor amazônico que atravessa Rondônia e Mato Grosso até a ilha de Marajó, no estado brasileiro do Pará. A partir daí, a cocaína é enviada para a África Ocidental e, posteriormente, para a Europa.
Paralelamente, os grupos criminosos aproveitam cada vez mais a rota Paraguai-Argentina, utilizando a hidrovia Paraguai-Paraná para alcançar os portos do Atlântico. Outra rota em expansão passa pelo Chile, onde a droga proveniente da Bolívia chega aos portos do Pacífico para posteriormente seguir rumo à Europa e à Ásia.
Esses corredores permitem que as organizações criminosas diversifiquem suas rotas, reduzam o risco de apreensões e fortaleçam o controle de toda a cadeia do tráfico de cocaína, desde a produção até a exportação. Ao mesmo tempo o fortalecimento das organizações criminosas na Bolívia vem favorecendo uma crescente integração com redes criminosas regionais.
Emblemático é o caso do narcotraficante uruguaio Sebastián Marset, considerado um dos criminosos mais procurados do continente. Capturado em Santa Cruz em 13 de março, ele foi posteriormente transferido para a custódia das autoridades estadunidenses após sua captura.
As investigações sobre a rede de Marset ilustram como os circuitos criminosos da Bolívia, do Paraguai e do Brasil estão cada vez mais interconectados, combinando fornecedores bolivianos, documentação falsa brasileira, pistas clandestinas no Paraguai e operadores logísticos distribuídos por vários países. Para os investigadores, esse tipo de estrutura reflete o ambiente transnacional em que operam organizações como o PCC e o CV, caracterizado por alianças flexíveis, redes logísticas compartilhadas e uma crescente capacidade de coordenar atividades em múltiplas jurisdições.
A cooperação regional
A natureza internacional das alianças formadas pelo PCC e pelo CV, juntamente com sua capacidade de alterar rapidamente rotas e métodos de operação, torna cada vez mais difícil conter de forma eficaz o tráfico de cocaína destinado aos mercados internacionais. Para responder a essa ameaça, os países da região vêm fortalecendo a cooperação por meio do intercâmbio de inteligência, operações coordenadas e novos mecanismos de colaboração judicial.
Um dos sinais mais significativos dessa mudança de abordagem é o acordo firmado entre a Interpol e o Brasil em 2026 para reforçar a cooperação regional contra o crime organizado sul-americano. A iniciativa, coordenada pela Polícia Federal brasileira a partir do Escritório Regional da Interpol em Buenos Aires, busca aprimorar a coordenação entre as forças de segurança da região e combater as redes criminosas que operam além das fronteiras nacionais.
A Coalizão das Américas contra os Cartéis reforça esse esforço regional ao reunir países parceiros para fortalecer o compartilhamento de inteligência, a coordenação operacional e a ação conjunta contra os cartéis e as organizações narcoterroristas que atuam em todo o hemisfério. Para os países que enfrentam organizações criminosas cada vez mais interligadas, como o PCC e o CV, a iniciativa oferece uma estrutura adicional para fortalecer a cooperação contra redes que exploram sistematicamente as fronteiras nacionais.
O alcance regional cada vez maior dessas organizações também atraiu maior atenção internacional. Em maio de 2026, os Estados Unidos designaram o PCC e o CV como Organizações Terroristas Estrangeiras e Terroristas Globais Especialmente Designados, argumentando que ambas as estruturas representam uma ameaça significativa à segurança regional devido ao seu envolvimento com o tráfico de drogas, a lavagem de dinheiro e outras atividades criminosas transnacionais.
A medida reflete a crescente preocupação internacional com a expansão e a sofisticação dessas organizações para além das fronteiras brasileiras.
No mesmo mês, o Brasil e a Bolívia assinaram um acordo bilateral que prevê maior compartilhamento de informações, coordenação de investigações, operações conjuntas ao longo da fronteira e uma colaboração mais estreita no combate à lavagem de dinheiro e ao tráfico de drogas.
No plano operacional, a cooperação entre a Polícia Federal brasileira e a Força Especial de Luta contra o Narcotráfico da Polícia Boliviana (FELCN) já produziu resultados concretos, como demonstra a prisão de Gerson Palermo.
A evolução observada na Bolívia reflete um desafio mais amplo para a região: organizações criminosas que já não operam dentro de fronteiras nacionais claramente definidas, mas por meio de cadeias logísticas transnacionais que conectam áreas de produção, corredores de trânsito, centros financeiros e mercados internacionais. Essa realidade exige níveis cada vez maiores de intercâmbio de inteligência, coordenação operacional e cooperação judicial entre os países para desmantelar redes capazes de se adaptar rapidamente à pressão das autoridades.
No entanto, segundo da Silva, o sucesso das operações em campo deve ser acompanhado por uma estratégia mais abrangente. “O que sustenta esses grupos é o fluxo de capital, não apenas o território”, explica o especialista, ressaltando a importância da inteligência financeira transnacional para rastrear recursos ilícitos movimentados por meio de fintech, criptomoedas e empresas de fachada.
O verdadeiro desafio estratégico, conclui da Silva, continua sendo o fortalecimento da cooperação judicial e a adoção de procedimentos de extradição mais rápidos e eficazes, indispensáveis para impedir que os líderes criminosos se beneficiem das diferenças entre os sistemas jurídicos nacionais.



