Em junho passado, foram descobertos na Turquia 373 quilos de cocaína provenientes do Equador. Dois meses antes, em abril, a polícia turca apreendeu 608 kg de cocaína durante uma operação em três províncias. Em 2021, as forças de segurança turcas apreenderam 1.300 kg de drogas, também provenientes do Equador, uma apreensão recorde para o país asiático. De acordo com especialistas e grupos de monitoramento do crime organizado, essas apreensões indicam cada vez mais o papel central da Turquia como um centro para o tráfico internacional de drogas provenientes da América Latina.
Mas a cocaína não é o único negócio ilícito das redes criminosas turcas. Em março de 2023, as autoridades guatemaltecas apreenderam 480 barris de produtos químicos, que deram positivo para fentanil, em contêineres a bordo de um navio de bandeira turca no terminal ferroviário de Puerto Barrios, no departamento de Izabal. Os contêineres eram originários da Turquia e tinham como destino a Guatemala, com trânsito por França e Colômbia.
Esse incidente marca o ponto culminante da escalada dos grupos criminosos turcos na América Latina, de acordo com Mahmut Cengiz, professor associado de pesquisa do Centro de Terrorismo, Crime Transnacional e Corrupção e da Escola Schar de Política e Governo da Universidade George Mason, em Washington.

No relatório Turquia abre novas rotas para a cocaína latino-americana destinada à Europa, publicado recentemente no Small Wars Journal, uma revista on-line dos EUA, voltada para conflitos intraestatais, Cengiz revela o papel cada vez mais central dos grupos criminosos turcos na América Latina, tanto no transporte de cocaína para a Europa, quanto na importação de fentanil e especialistas químicos na América Latina.
Com o aumento dos controles por parte das autoridades norte-americanas e europeias, os cartéis mexicanos buscaram rotas mais seguras, aumentando ainda mais o papel da Turquia como um ponto de trânsito para a cocaína destinada à Europa. “Os investimentos de empresas turcas na América Latina, que operam portos como Puerto Bolívar, no Equador, e Paita, no Peru, através da [empresa turca] Yilport Holding, coincidiram com o aumento dos envios de cocaína para a Turquia”, explica Cengiz à Diálogo. Os 1.300 kg de cocaína apreendidos em 2021 vieram de Puerto Bolivar. Em 2023, em Callao, Peru, as autoridades apreenderam 2,3 toneladas de cocaína escondidas no meio de um carregamento de azulejos de majólica com destino à Turquia.
Empresários turcos corruptos contrabandeiam cocaína e ouro
De acordo com Cengiz, aqueles que investem nesses portos latino-americanos são empresários turcos corruptos. “São empresários que estão cada vez mais envolvidos no tráfico de cocaína e que também estabeleceram redes ilícitas de comércio de ouro com a Venezuela”, disse Cengiz à Diálogo.
Inúmeras empresas foram criadas na Turquia para traficar ouro, como a Mulberry Proje Yatirim, sancionada em 2019 pelo Departamento do Tesouro dos EUA, por facilitar pagamentos como parte de uma “rede de subornos para a venda de ouro [venezuelano] para a Turquia”, ouro classificado pelo então subsecretário do Tesouro dos EUA, Marshall Billingslea, como “ouro de sangue”, devido à forma violenta e ilegal de sua extração na Venezuela.
Corrupção entre políticos e burocratas turcos
Além de empresários corruptos, políticos e burocratas também fazem parte dessas redes criminosas turcas. “Sedat Peker, um ‘chefão’ turco também mencionado no Relatório sobre a Estratégia Internacional de Controle de Narcóticos 2022 do Departamento de Estado dos EUA, afirmou em um vídeo que o filho do então primeiro-ministro Binali Yildirim estava envolvido em uma apreensão de 4,9 toneladas de cocaína na Venezuela, provenientes da Colômbia”, explica Cengiz.
Nos últimos anos, as relações com membros do cartel mexicano de Sinaloa também se desenvolveram com os Lobos Cinzentos, um grupo paramilitar turco de extrema direita, cujo braço político é o Partido de Ação Nacionalista. “Vídeos postados nas mídias sociais de alguns membros do grupo paramilitar turco os mostram homenageando o cartel e seu líder Ismael Zambada García, conhecido como “El Mayo””, diz Cengiz. Várias apreensões de cocaína provenientes da América Latina no porto turco de Mersin, na Turquia, também envolveram membros dos Lobos Cinzentos.
Aumentam as prisões de traficantes turcos na América Latina
Na América Latina, as prisões de traficantes de drogas turcos aumentaram. No Brasil, em 2021, foi apreendida 1,3 tonelada de cocaína em um avião particular turco. O piloto foi preso no país sul-americano. Libertado, ele foi preso novamente na Turquia junto com o presidente da companhia aérea privada, Şehmuz Özkan, suspeito de trabalhar com um empresário turco, sócio do ex-Major Sérgio Roberto de Carvalho, do Exército Brasileiro, apelidado de Escobar brasileiro. Ainda em 2021, outro traficante de drogas turco foi preso no Peru com 100 kg de cocaína.

A prisão mais recente ocorreu em junho de 2023 no litoral do estado de São Paulo, no Brasil. Um cidadão turco foi preso com um documento em nome de Garip Üç, irmão de Eray Üç, que fugiu de uma prisão paraguaia em 2017. Eray Üç havia sido preso sob a acusação de fazer parte da rede internacional do narcotraficante libanês Ali Issa Chamas, um facilitador do Hezbollah, que já havia sido preso por tráfico de drogas nos EUA. Meses depois, a polícia brasileira descobriu que o detido era, na verdade, Eray Üç, usando a identidade do seu irmão. Na época de sua prisão, ele trabalhava como químico em um laboratório de drogas da principal facção criminosa do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC).
O perigo das novas alianças das redes criminosas turcas
O caso Eray Üç mostra que as redes criminosas turcas – que dominam o tráfico de heroína na Europa e traficam metanfetamina com grupos iranianos na rota dos Bálcãs – também estão criando novas alianças na América Latina. Embora ainda não tenham atingido a capacidade de penetração das máfias albanesas na região, sua rápida expansão é preocupante.
Além dos recentes vínculos com o PCC brasileiro, os grupos criminosos turcos mantêm relações com o Hezbollah, organização terrorista aliada do Irã, que se financia na região por meio de atividades ilícitas. Em 2017, junto com Eray Üç, outro cidadão turco, Munir Özturk, também foi preso no Paraguai. De acordo com o site de notícias argentino Infobae, durante a busca nas casas de ambos os turcos, foram encontrados vários livros religiosos iranianos, bem como carimbos indicando suas viagens a Teerã no passaporte de Eray Üç. A carteira de identidade de outro cidadão turco, Sehmus Soytas, também foi encontrada. Soytas havia sido detido em 2001 sob a acusação de tráfico de heroína com o Irã. Além disso, foi descoberta em 2018 uma rede de narcotráfico na Venezuela, liderada pelo turco naturalizado venezuelano Ozer Murat, que também enviava cocaína para o Hezbollah no Líbano.
Além disso, há o relacionamento cada vez mais próximo com o cartel de Sinaloa na Europa, que transporta cocaína tanto para a Turquia quanto através desse país. A colaboração com os criminosos mexicanos começou no início de 2010, quando o cartel contratou químicos turcos para produzir drogas.
Agora, com o fentanil, o cenário pode se agravar. Além dos vínculos com grupos criminosos da região, a aliança com o cartel de Sinaloa corre o risco de se expandir para a América Latina, com um impacto devastador sobre a segurança e a democracia em todo o hemisfério.


