Decisão arbitral no Equador expõe riscos contratuais com empresas chinesas

Uma recente decisão arbitral no Equador destacou os crescentes riscos contratuais para os países latino-americanos que se associam a empresas estatais chinesas em megaprojetos de infraestrutura. A decisão, que desestimou a ação multimilionária da empresa China Road and Bridge Corporation (CRBC) contra o município de Quito, intensificou o debate sobre a transparência e a supervisão regulatória na região.

O caso Solução Viária Guayasamín: Origens e controvérsias

O megaprojeto Solução Viária Guayasamín foi adjudicado em abril de 2016, por meio de uma aliança estratégica entre a CRBC e a Empresa Pública Metropolitana de Mobilidade e Obras Públicas de Quito, com um orçamento aproximado de US$ 130 milhões. O objetivo era melhorar a conexão entre o centro-norte da capital equatoriana e os vales orientais, conforme relatado pelo jornal equatoriano Primicias.

No entanto, o projeto enfrentou uma controvérsia imediata. As primeiras etapas foram alvo de críticas pela falta de estudos técnicos definitivos e pelas cláusulas contratuais que concediam à empresa chinesa 90 por cento dos rendimentos do pedágio durante 30 anos, O desenho do projeto também excluía o transporte público, dando prioridade aos veículos privados e suscitando críticas por prejudicar as soluções integrais de mobilidade, informou o jornal equatoriano El Telégrafo. Essas condições geraram desconfiança e alimentaram dúvidas sobre a transparência e a equidade do acordo.

Arbitragem e suas consequências

Em 19 de setembro de 2025, o tribunal arbitral do Centro de Arbitragem e Conciliação da Câmara de Comércio de Bogotá indeferiu a demanda da CRBC, que reclamava mais de US$ 40 milhões, acrescentando juros, e declarou a nulidade absoluta do contrato, de acordo com a Procuradoria Geral do Estado.

A CRBC havia iniciado a ação em fevereiro de 2019, alegando incumprimentos contratuais, após a suspensão do projeto pelo município, que detectou irregularidades técnicas, ausência de garantias financeiras e atrasos na entrega de obras importantes, conforme detalhado por Primicias.

Fontes locais também ressaltaram que a empresa tentou transferir para o Estado equatoriano as perdas decorrentes de sua falta de execução, uma prática que tem sido observada em outros litígios de empresas chinesas na região. Os contratos geralmente incluem cláusulas favoráveis e mecanismos de arbitragem internacional que protegem os interesses das empresas chinesas, acrescentou El Telégrafo.

Perspectiva regional e precedentes

Sergio Cesarin, coordenador do Centro de Estudos sobre Ásia-Pacífico e Índia, da Universidade Nacional de Tres de Febrero, na Argentina, destacou à Diálogo que a sentença arbitral demonstra que o modelo de investimento chinês gera importantes fricções na América Latina. “Existem desacordos, lacunas contratuais e experiências problemáticas decorrentes dos investimentos chineses na América Latina”, afirmou.

O acadêmico lembrou que este não é o primeiro conflito com uma empresa chinesa na região. O caso da hidrelétrica Coca Codo Sinclair também colocou o Equador em confronto com a Sinohydro, subsidiária da PowerChina.

Em 2021, a Corporação Elétrica do Equador processou Sinohydro por defeitos estruturais, incluindo mais de 17.000 fissuras nos distribuidores das turbinas. Após um processo de arbitragem internacional, ambas as partes chegaram a um acordo de conciliação em julho de 2025, para definir um plano de reparo, conforme relatou Primicias.

Cesarin destaca que as grandes corporações estatais chinesas costumam evitar submeter-se a processos de arbitragem internacional e preferem negociar diretamente, sem ceder jurisdição a terceiros. “Nos casos em que existem disputas contratuais, os litígios costumam ser resolvidos em tribunais estabelecidos em Pequim, o que favorece seus próprios interesses”, precisou.

Essa abordagem, adverte, gera um desequilíbrio estrutural nos mecanismos de resolução de controvérsias, já que “sempre envolvem um componente de pressão diplomática, dado o apoio incondicional da China às suas empresas e a assimetria de poder com os Estados receptores”.

Disputas em torno do lítio e arbitragens internacionais

O alcance dos litígios com empresas chinesas vai além do Equador. Em junho de 2024, a empresa chinesa Ganfeng Lithium e duas de suas subsidiárias iniciaram uma arbitragem internacional perante o Centro Internacional de Resolução de Disputas sobre Investimentos (CIADI), do Banco Mundial. Essa ação ocorreu após a reforma do México de 2022, que cancelou as concessões de lítio em Sonora, concedendo ao Estado mexicano o controle exclusivo sobre esse recurso.

A controvérsia surgiu depois que Ganfeng adquiriu Bacanora Lithium em 2021, para desenvolver um projeto avaliado em US$ 800 milhões. A empresa alega que o cancelamento afetou seus investimentos, enquanto o governo mexicano defende sua soberania, diz o portal especializado Minería en Línea.

Um antecedente similar foi registrado com o investidor chinês Tza Yap Shum, que em 2007 processou o Peru perante o CIADI pela expropriação indireta de sua empresa exportadora de farinha de peixe. O tribunal decidiu em 2011 a favor do investidor.

Impacto sobre a Iniciativa Cinturão e Rota

Esses conflitos tiveram repercussões sobre a percepção latino-americana da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI). Para Cesarin, “observa-se um processo de erosão da confiança em relação à China há algum tempo”.

Ele explica que o impulso inicial dos projetos da BRI na América Latina diminuiu nos últimos anos e que a narrativa chinesa perdeu força na região. “Muitos países, como Argentina ou Colômbia, aderiram à iniciativa com grandes expectativas, mas, na prática, observa-se uma pausa e uma menor relevância dos projetos de infraestrutura no âmbito da BRI”, acrescenta.

No entanto, lembra que a BRI não se limita a obras terrestres, como demonstra a relevância estratégica do porto de Chancay, no Peru.

Lições e advertências para a América Latina

A recente decisão no Equador envia uma mensagem importante aos governos da região. “É possível litigar e vencer contra corporações chinesas”, destaca Cesarin.

Essa experiência, afirma, “deve servir de advertência para que, em futuras negociações, os países incorporem cláusulas que garantam o cumprimento dos contratos e contemplem a possibilidade de recorrer aos tribunais sul-americanos, em caso de descumprimento”.

Assim, os litígios recentes ressaltam a necessidade de fortalecer os mecanismos de supervisão e defesa dos interesses nacionais na hora de negociar com grandes empresas internacionais.

Gostou deste artigo?

Artigos salvos

Os artigos salvos ficam armazenados apenas neste navegador. Limpar os dados de navegação os remove.