Em meados de junho, poucos dias antes do encontro do presidente russo, Vladimir Putin, com seu homólogo Kim Jong Un na Coreia do Norte, um relatório de Google Cloud denunciou uma onda de ataques cibernéticos no Brasil pelo grupo de hackers Pukchong, também conhecido como UNC4899, vinculado ao governo norte-coreano. Empresas de serviços financeiros e criptomoedas foram alvos dos ataques. Em 2023, ainda no país latino-americano, hackers a serviço de Pyongyang já haviam atacado agências aeroespaciais, de defesa e governamentais para espionar e extorquir dinheiro de suas vítimas.
De acordo com analistas de Google Cloud, os ataques cibernéticos de Pyongyang no Brasil aumentaram, enquanto a atividade cibernética russa, focada no conflito na Ucrânia, diminuiu paralelamente. Um relatório de 2023 da Chainalysis, uma empresa norte-americana de análise de blockchain, revelou como os hackers norte-coreanos, desde pelo menos 2021, têm coordenado suas atividades com seus homólogos russos, em uma guerra cibernética que poderia encontrar terreno fértil na América Latina.
“Não se deve esquecer que a Rússia na América Latina está interessada em destruir o modelo democrático ocidental tradicional e a guerra cibernética é uma parte essencial desse projeto. A Rússia está promovendo a guerra cibernética na América Latina contra o estado de direito e as normas democráticas”, explica à Diálogo Douglas Farah, presidente da IBI Consultores e especialista em influência russa na América Latina.
As atividades ilícitas de Pyongyang

Os ataques cibernéticos norte-coreanos, também na América Latina, servem como fonte de autofinanciamento para o governo de Pyongyang e seus programas militares. Essa estratégia também inclui as atividades ilícitas de seus diplomatas, como o contrabando de charutos de Cuba e de espécies raras de toda a região.
“A Coreia do Norte exige que seu corpo diplomático seja autossuficiente”, disse à Diálogo Benjamin R. Young, especialista em Coreia do Norte e professor adjunto de segurança nacional e preparação para emergências da Universidade Commonwealth da Virgínia. “Espera-se que seus membros coletem os fundos por conta própria e enviem as taxas ‘revolucionárias’ para Pyongyang. Isso dá origem a todos os tipos de atividades ilícitas”, diz Young à Diálogo.
O relatório de Google Cloud também alerta para a possibilidade de que espiões coreanos se infiltrem no Brasil sob o disfarce de serem contratados por empresas de tecnologia locais, um padrão já utilizado em outras partes do mundo. “Enfatizamos a possibilidade de que isso represente um risco futuro, devido ao crescente ecossistema de startups no Brasil, à atividade histórica de atores de ameaças norte-coreanas no Brasil e à magnitude desse problema”, diz o relatório.
Rússia e Coreia do Norte, mesmos interesses
Tanto Moscou quanto Pyongyang têm mantido relações com vários países latino-americanos desde a Guerra Fria, mas o conflito na Ucrânia também mudou a ordem nessa parte do mundo.
Em seu livro Armas, guerrilhas e o grande líder: Coreia do Norte e o terceiro mundo, Young explica como durante anos a Coreia do Norte se envolveu com a região “para forjar uma identidade nacional como membro de uma comunidade mundial anti-imperialista”. Inclusive Che Guevara e Fidel Castro visitaram o país, em 1960 e 1986, respectivamente.
“No entanto, Kim Jong Un se afastou das políticas terceiro-mundistas do seu avô e agora cultiva uma política externa baseada na aproximação com as grandes potências, em particular a Federação Russa”, explica Young à Diálogo.
México, Brasil, Venezuela e Cuba são os únicos países da região com uma embaixada permanente na Coreia do Norte, enquanto a Nicarágua formalizou em junho passado a retomada das relações diplomáticas com Pyongyang. Esses são os mesmos países nos quais a Rússia está expandindo seu poder de influência junto com o Irã e a China.
Unidos na desinformação

No Acordo de Parceria Estratégica Abrangente, assinado por Putin e Kim Jong Un em junho, no qual descrevem os pontos principais da nova cooperação entre ambos os países, o artigo 20 é dedicado à desinformação. Ele prevê, de acordo com a versão divulgada pelo governo de Moscou, o desenvolvimento de “uma ampla cooperação de mídia entre os dois países […], para disseminar informações imparciais sobre a República Popular Democrática da Coreia e a Federação Russa, e uma coordenação mais próxima para combater a desinformação e as campanhas agressivas de informação”.
Embora a Rússia já tenha uma estrutura de desinformação muito forte na América Latina, para Farah “esse acordo pode ser usado na região para limpar a imagem da Coreia do Norte e reforçar a narrativa de sanções ocidentais injustas contra países em desenvolvimento”, como a Rússia, Cuba, Nicarágua, Irã e a própria Coreia do Norte. “As queixas são compartilhadas e essa é uma linha narrativa forte para a Rússia”, acrescenta Farah.
Os meios de comunicação russos que veiculam a propaganda de Moscou na América Latina em espanhol, como Sputnik Mundo, por ocasião da visita de Putin a Pyongyang, dedicaram reportagens especiais sobre a importância de que a Coreia do Norte volte a olhar para a América Latina na perspectiva de “um mundo multipolar”. Além disso, alguns facilitadores da propaganda russa na região descreveram essa nova aliança como tendo o potencial de “criar novos focos de tensão para os Estados Unidos e seus aliados”.
O relatório do Centro do Departamento de Estado dos EUA para a Participação Global, Exportar a desinformação favorável ao Kremlin: o caso da Nova Resistência no Brasil, destaca como os membros do grupo brasileiro ligado à desinformação de Moscou, Nova Resistência, se reuniram com expoentes norte-coreanos. Até mesmo o Instituto Soyuz, fundado em 2021 no Brasil sob a égide da Rossotrudnichestvo, a Agência Federal Russa para Assuntos da Comunidade de Estados Independentes, Compatriotas Residentes no Exterior e Cooperação Humanitária Internacional, sancionada pela União Europeia, conta entre seus professores de russo com o presidente brasileiro do Centro de Estudos de Políticas Songun. De acordo com o jornal brasileiro Folha de São Paulo, esse centro, fundado em 2017 em uma sala da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é um veículo de propaganda de Pyongyang, principalmente militar. A propaganda russa também é compartilhada em suas redes sociais.
“É comum que Rússia, Irã e regimes bolivarianos compartilhem plataformas, mensagens e os mesmos facilitadores de propaganda. Actualidad RT, Telesur e Hispan TV compartilham influenciadores, plataformas e mensagens”, explica Farah, que também é autor do relatório Campanhas russas de influência na América Latina. “Agora será interessante ver como e se a Coreia do Norte será incorporada, embora deva ser lembrado de que o país tem pouca presença na mídia externa.”
Além das embaixadas na região, o Comitê para Assuntos Culturais com Países Estrangeiros da Coreia do Norte tem um departamento para a América Latina que, emulando a instituição da extinta União Soviética, compila, investiga e mantém contatos com a região.
Além disso, a Associação de Amizade com a Coreia, fundada em 2000 pelo espanhol Alejandro Cao de Benós de Les y Pérez, está presente em vários países, incluindo Argentina, Brasil, Chile e México. Cao de Benós de Les y Pérez é alvo de um mandado de prisão da Agência Federal de Investigação (FBI) de 2022, sob a acusação de ajudar o regime norte-coreano a evitar sanções por meio de criptomoedas.

Não faltam visitas oficiais nem webinars, como o que foi realizado em março de 2023 no México, para marcar o 70º aniversário do armistício da Guerra da Coreia. Em fevereiro deste ano, uma delegação da Federação Geral de Sindicatos da Coreia do Norte participou de uma reunião da Federação Mundial de Sindicatos no Brasil. Em abril, a Coreia do Norte também organizou um webinar para partidos e organizações brasileiras por ocasião do 112º aniversário do nascimento de Kim II Sung. Entre os participantes estava a liderança do Partido Comunista do Brasil, que estava entre os iniciadores de um grupo de amizade parlamentar Brasil-Coreia do Norte em junho de 2018.
O Brasil, que é o único país latino-americano no BRICS, é estratégico para a Coreia do Norte, que em maio passado manifestou seu interesse em unir-se ao grupo. “A Coreia do Norte tem ampla experiência e redes importantes para a evasão de sanções e a guerra cibernética. Esse é seu valor agregado para qualquer grupo do qual faça parte. O governo de Pyongyang tem pouca influência econômica real em escala global ou regional. Entretanto, o risco potencial é que ele fortaleça significativamente as redes de evasão de sanções na América Latina, incluindo a proliferação nuclear”, disse Farah à Diálogo.
O caso de Cuba
De acordo com um relatório recente do think tank americano Global Americans, para combater a expansão de atores antiocidentais como a Coreia do Norte na América Latina, “no tabuleiro de xadrez regional, a Coreia do Sul pode ser um cavalo para os Estados Unidos”, como demonstra o caso de Cuba.
“O desenvolvimento recente mais significativo para a Coreia do Norte foi a perda de Cuba, já que Havana recentemente estabeleceu relações diplomáticas com a Coreia do Sul”, explica Young à Diálogo. “Como o último bastião do marxismo-leninismo na América Latina, essa decisão de Cuba de estabelecer relações diplomáticas com Seul pareceu uma traição ao governo norte-coreano”, afirma Young.
A notícia de que um diplomata norte-coreano destacado na ilha desertou para a Coreia do Sul nos últimos meses, justamente quando seu governo havia pedido que ele bloqueasse as negociações entre Seul e Havana, confirma o importante papel que a Coreia do Sul pode desempenhar na América Latina em defesa dos valores democráticos.


