Como a China ajuda a manter vivo o regime cubano e reprimir protestos

Como a China ajuda a manter vivo o regime cubano e reprimir protestos

Por Leland Lazarus e Evan Ellis/The Diplomat
agosto 16, 2021

No dia 11 de julho de 2021, milhares de pessoas ocuparam as ruas de Cuba, cansadas da falta de comida, produtos básicos, remédios e vacinas para combater a COVID-19. Essas foram as primeiras manifestações em grande escala em Cuba desde 1994, e as maiores desde que Fidel Castro assumiu o poder, em 1959. Os manifestantes usaram as redes sociais para mostrar ao mundo o que estava acontecendo, mas o regime comunista bloqueou a internet e os serviços telefônicos, interrompendo a conexão da ilha com o exterior.

Quem permitiu que o regime pudesse fazer isso foi a China. As companhias chinesas têm desempenhado um papel fundamental na construção da infraestrutura de telecomunicações de Cuba, um sistema usado pelo regime para controlar o seu povo, como o Partido Comunista da China (PCC) faz nos limites de suas próprias fronteiras.

Quando os protestos começaram, o senador dos EUA Marco Rubio tuitou: “Esperem que o regime em #Cuba bloqueie os serviços de internet e telefones celulares em breve para evitar a divulgação ao mundo de vídeos sobre o que está ocorrendo… Aliás, eles usam um sistema fabricado, vendido e instalado pela #China para controlar e bloquear o acesso à internet em #Cuba”. Um artigo na Newsweek que mostra os possíveis vínculos de Pequim com a repressão às manifestações em Cuba observou que os principais provedores de tecnologia da Etecsa, a única empresa de acesso à internet em Cuba, são todos chineses: Huawei, TP-Link e ZTE. Um relatório de 2017 do Observatório Aberto de Interferência de Rede encontrou vestígios do código chinês em interfaces dos portais cubanos de Wi-Fi. A organização sueca Qurium descobriu que Cuba usa o software de gerenciamento de redes eSight da Huawei para ajudar a filtrar as buscas na internet. O papel da China de ajudar o regime a cortar as comunicações durante os protestos revelou um dos muitos meios através dos quais Pequim ajuda a manter vivo o regime comunista cubano.

As pessoas agitam bandeiras cubanas e da República Popular da China, enquanto vários navios da Marinha chinesa entram no porto de Havana, em 10 de novembro de 2015. (Foto: Yamil Lage/AFP)

Interesse da China em Cuba

Desde que os dois países estabeleceram relações diplomáticas em setembro de 1960, as relações sino-cubanas têm sido complicadas. Cuba detém o título de único “bom irmão, bom camarada, bom amigo” da China, o que mostra o legado comunista que compartilham. Apesar desse vínculo comum, entretanto, o relacionamento entre os países tem sido complexo: os dois estiveram em lados opostos na separação sino-soviética durante a Guerra Fria e, em alguns casos, em lados opostos nas lutas para a libertação nacional na África. Naquele período, Mao Tsé-Tung e Fidel Castro se confrontaram verbalmente sobre a supremacia ideológica. Mao acusou Castro, aliado da União Soviética, de “revisionismo”, uma ofensa grave na ortodoxia comunista. Quando a China reduziu os carregamentos de arroz para Cuba, Castro acusou o país de aderir ao embargo dos EUA. Após a morte de Mao, Castro disse que o falecido líder havia “destruído com os pés o que ele havia feito com a cabeça”.

A China também foi indiscutivelmente dissuadida em seus negócios com Cuba pela forte reação dos EUA ao destacamento de mísseis soviéticos em Cuba, em 1961. O incidente, muito conhecido na China, foi uma admoestação que sugeria que os Estados Unidos não tolerariam que a China se aproximasse muito de Cuba. Isso seria um risco potencial aos objetivos mais amplos da China de construir um estado forte e rico através de transações comerciais com os Estados Unidos, incluindo a interdependência financeira, investimentos de empresas ocidentais e acesso à tecnologia norte-americana.

Depois que a União Soviética entrou em colapso e a ajuda soviética a Cuba terminou abruptamente, a China intensificou seu apoio. Altas autoridades governamentais da China visitaram Cuba 22 vezes desde 1993; altas autoridades governamentais cubanas visitaram a China 25 vezes desde 1995. Durante uma visita à ilha em 2014, o presidente Xi Jinping disse que “os dois países avançam de mãos dadas na trilha da construção do socialismo com suas próprias características, oferecendo apoio recíproco em questões relativas a nossos respectivos interesses vitais”.

A China reconhece a importância geoestratégica de Cuba. Devido à sua localização no Caribe, Cuba pode influenciar a abordagem marítima ao sudeste dos EUA, visto que contém vias marítimas vitais que levam aos portos de Miami, Nova Orleans e Houston. O autor George Friedman argumentou que com uma presença maior em Cuba, a China poderia potencialmente “bloquear os portos norte-americanos sem bloqueá-los realmente”, tal como as bases e instalações navais dos EUA representam um desafio similar para a China em torno da primeira cadeia insular e do Estreito de Malaca. A influência de Cuba no Caribe também a torna um representante útil, através do qual Pequim pode pressionar os quatro países da região (de um total de 15 globalmente) que reconhecem Taiwan para que mudem de postura.

 Apoio econômico da China a Cuba

A China ajuda a manter o regime através do engajamento econômico. O país é o maior parceiro comercial de Cuba, de acordo com o Ministério de Relações Exteriores chinês, e é sua maior fonte de assistência técnica. As importações chinesas de Cuba inicialmente se concentraram em açúcar e níquel, incluindo uma proposta de US$ 500 milhões em investimentos chineses na indústria cubana de níquel, o que acabou fracassando. A empresa chinesa Greatwall Drilling (GWDC, em inglês) também fez parceria com a companhia nacional de petróleo de Cuba, a Cupet, para extrair petróleo perto de Pinar del Rio, embora um projeto maior de US$ 6 bilhões para modernizar a refinaria Cienfuegos jamais tenha se concretizado.

Quando os Estados Unidos iniciaram a sua abertura para Cuba na administração Obama, em 2014, a China reconheceu um potencial para um relacionamento mais robusto com Cuba, e se apressou para alcançá-lo. As empresas chinesas garantiram um projeto para expandir o terminal de contêineres de Santiago de Cuba, financiado por um empréstimo de US$ 120 milhões de um banco chinês. As empresas chinesas biofarmacêuticas iniciaram operações na Zona de Livre Comércio de Mariel, em Cuba. A China até criou um centro de inteligência artificial na ilha.

Em novembro de 2018, Cuba aderiu à Iniciativa Cinturão e Rota da China. No setor agrícola, as companhias chinesas estão aumentando a produção de açúcar e arroz, melhorando a irrigação para incrementar a produção agrícola e fornecendo tratores para arar os campos cubanos. A Beijing Enterprises Holdings está construindo um resort de golfe na ilha de US$ 460 milhões.

A influência chinesa na ilha não termina aqui. Os cubanos agora usam carros da Geely, caminhões da SinoTruck e ônibus da Yutong. A empresa Haier agora vende eletrodomésticos e eletrônicos a Cuba, e até construiu ali uma planta para montagem de computadores e uma instalação de pesquisa de energia renovável. A província chinesa de Jilin e a cidade de Changchun mantêm relações cooperativas com companhias cubanas biofarmacêuticas. Cuba foi um dos primeiros destinos oficiais para a capacitação em espanhol para chineses no hemisfério. Reciprocamente, a Universidade de Havana foi um dos primeiros Institutos Confúcio estabelecidos pela China na região. E ambos os países mantêm relações estreitas de defesa, incluindo visitas regulares de líderes institucionais e seniores, e a visita de uma embarcação chinesa ao Porto de Havana, em 2016. No entanto, a China não vendeu a Cuba nenhum sistema de armas importante, como fez com outros países da região, como Venezuela, Equador e Bolívia.

Indícios do “autoritarismo digital” da China em Cuba e além

As contribuições da China para o desenvolvimento das telecomunicações em Cuba foram “firmes como rochas em meio à correnteza”, de acordo com um artigo de 2016 da China Business Network. O cabo submarino cubano ALBA-1 que liga a estrutura de telecomunicações da ilha à América do Sul através da Venezuela foi parcialmente financiado e construído por empresas chinesas. Em 2000, o governo cubano assinou um contrato com a Huawei para instalar cabos de fibra ótica em toda a ilha. Nos últimos anos, como previamente mencionado, empresas chinesas como a Huawei, a ZTE e a TP-Link consolidaram mais ainda seu papel crucial no fornecimento de internet a Cuba, incluindo hotspots, telefones e outras infraestruturas em todo o país – a mesma infraestrutura que o regime bloqueou para sufocar as manifestações do mês passado [julho de 2021].

Esse é apenas um exemplo da China exportando “autoritarismo digital” para regimes não liberais em toda a região. Na Venezuela, a empresa de telecomunicações chinesa ZTE ajudou o regime de Maduro a estabelecer o sistema “carteira de identidade da pátria”, usado para controlar não apenas a votação, mas também a distribuição dos escassos pacotes de alimentos (as famosas caixas “CLAP”) e, mais recentemente, as vacinas contra a COVID-19. Da mesma forma, em 2020, o Gabinete de Controle de Bens Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos EUA sancionou a Corporação China National Electronics Import and Export por apoiar os esforços do regime de Maduro para realizar vigilância digital e operações cibernéticas contra seus adversários políticos.

A mudança no ambiente estratégico da região, agravada pelas crises de saúde, fiscais, econômicas e políticas da pandemia da COVID-19, se torna cada vez mais evidente. Regimes esquerdistas autoritários estão consolidando o controle na Venezuela e na Nicarágua. A esquerda populista recuperou o poder na Bolívia sob o partido MAS, na Argentina com os peronistas e no México com Andrés Manuel López Obrador e o movimento Morena. No Peru, a recente eleição de Pedro Castillo, um professor de Cajamarca com uma agenda esquerdista radical, soa os alarmes da mesma forma. As próximas eleições na região elevam as perspectivas de uma disseminação ainda mais ampla da esquerda populista, incluindo a provável vitória de Xiomara Castro nas eleições de novembro de 2021 em Honduras, do presidente Petro emergindo nas eleições de 2022 na Colômbia, ou a volta de Lula da Silva e seu Partido dos Trabalhadores nas eleições de outubro de 2022 no Brasil.

Os esforços contínuos da China para apoiar o regime cubano importam à segurança nacional dos EUA. Para o bem e para o mal, Cuba está ligada aos Estados Unidos pela proximidade geográfica, vínculos históricos e laços familiares. O governo dos EUA há muito tempo se preocupa com as violações à liberdade e aos direitos humanos do povo cubano, e continua a trabalhar para melhorar sua situação. Ao apoiar Cuba, a China atua indiretamente como uma incubadora do autoritarismo na região, fornecendo recursos para esses regimes enquanto eles consolidam o poder, modificam constituições, atentam contra a propriedade privada e as instituições democráticas e silenciam os dissidentes internos.

Cuba também pode ser uma área da qual a China poderia recolher inteligência e praticar ataques cibernéticos contra os Estados Unidos. Atualmente, o Departamento de Justiça dos EUA está investigando membros do Ministério de Segurança Estatal chinês por patrocinar crimes e outras atividades cibernéticas, incluindo a recente invasão de hackers à Microsoft, que revela a má intenção da China contra os Estados Unidos no ciberespaço.

Como os Estados Unidos podem reagir

Face aos desafios que representa o apoio da China a Cuba e a outros regimes autoritários na região, os legisladores norte-americanos devem levar em consideração o seguinte:

Em primeiro lugar, os Estados Unidos deveriam dar mais atenção à concorrência estratégica com a China que se revela em Cuba e na região em geral. Como escreveu Gordon Chang recentemente na Newsweek, precisamos perceber que “a América… está envolvida em uma luta ferrenha em todas as partes. Afinal, a batalha entre ditadura e democracia, que não está bem no momento, é global”.

Em segundo lugar, os Estados Unidos não devem tentar “bloquear” os parceiros latino-americanos para evitar que façam negócios com a China. Essa tentativa não é possível em uma região de Estados soberanos com vínculos comerciais cada vez maiores com a China. Na verdade, a região vem sendo duramente atingida pela COVID-19 e necessitará de mais apoio comercial de grandes países como a China para se recuperar. Ao invés disso, os Estados Unidos devem se concentrar em ajudar os parceiros da região a negociar com a China da maneira mais saudável e produtiva possível. Por exemplo, enfatizar a transparência inibe a capacidade de entrar em negociações corruptas e por baixo dos panos com os chineses, o que poderá beneficiar as elites signatárias dos negócios, ao invés do país como um todo.

Os Estados Unidos devem dar mais apoio às iniciativas de “boa governança”, incluindo a ajuda aos parceiros para que planejem e avaliem de forma mais eficaz os investimentos em infraestrutura essencial, realizem análises tecnicamente sólidas dos leilões públicos e fortaleçam os sistemas legais e o cumprimento da lei para garantir que as empresas chinesas e de outros lugares obedeçam às leis das nações e seus compromissos contratuais. Essa conduta blindará parcialmente os parceiros contra atividades mais predatórias. Esse apoio também ajudará a convencer os cidadãos locais, muitos deles pessimistas quanto a seus governos, de que a governança democrática, com base nos princípios de mercado, pode realmente trazer benefícios, combater a desigualdade e melhorar as condições de vida.

Como mostra o caso de Cuba, a indústria de telecomunicações é uma área particularmente sensível, onde a China poderia desafiar a capacidade das nações parceiras de tomar decisões soberanas e resistir às pressões do autoritarismo. No entanto, os Estados Unidos e seus parceiros devem fornecer alternativas viáveis aos sistemas chineses, dos quais Washington pede que os parceiros se afastem. Com esse objetivo, os Estados Unidos deveriam procurar nações democráticas nas mesmas linhas de pensamento e suas principais companhias no espaço, como a Nokia (com base na Finlândia) e a Ericsson (na Suécia). Instituições como a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional e o Banco Interamericano de Desenvolvimento dos EUA podem ajudar as nações parceiras a financiar essas alternativas.

Da mesma forma, com relação à segurança cibernética, os Estados Unidos deveriam procurar aumentar o apoio aos parceiros para proteger a privacidade e a segurança de seus cidadãos contra agentes malignos como a China. O treinamento de cibersegurança fornecido pelo Comando Sul dos EUA a suas nações parceiras pode ser parte da solução para essa questão. Embora os recentes eventos em Cuba mostrem a crescente influência da China na região, o apoio enfático do PCC aos atos de repressão do regime cubano também ressalta que está do lado errado da história. Os Estados Unidos precisam aprofundar as parcerias com os amigos da América Latina e do Caribe, com base em valores compartilhados, para garantir que a região permaneça segura, próspera e livre.

As opiniões expressas no artigo são dos autores e não necessariamente refletem as visões do governo dos EUA.

Autores convidados

Leland Lazarus é redator dos discursos do Almirante de Esquadra Craig S. Faller, da Marinha dos EUA, comandante do Comando Sul dos EUA. Ele trabalhou anteriormente como oficial de Serviço Exterior dos EUA na China e no Caribe. Antes de trabalhar para o governo dos EUA, foi produtor adjunto da emissora Televisão China Central, e professor de inglês como acadêmico da Fullbright no Panamá.

O Dr. Evan Ellis é professor de pesquisas de Estudos Latino-Americanos do Instituto de Estudos Estratégicos da Escola de Guerra do Exército dos EUA. Suas pesquisas se concentram nas relações da América Latina com a China e outros agentes fora do hemisfério ocidental.

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