Enquanto o sistema de saúde cubano enfrenta uma das piores crises de sua história, com apagões cada vez mais frequentes, escassez crônica de medicamentos e hospitais em condições precárias, as missões médicas internacionais continuam representando uma das principais fontes de receita para Havana, superando, em alguns casos, até mesmo o turismo. A cada ano, elas geram bilhões de reais, proporcionando ao regime recursos essenciais para se manter no poder e reforçar sua influência no exterior.
As origens do programa remontam a 1960, quando Fidel Castro enviou uma pequena delegação médica ao Chile após um terremoto devastador que atingiu o país. Em 1963, o envio de uma brigada permanente à Argélia marcou o início formal das missões médicas internacionais. Desde então, elas se tornaram um componente estrutural da política externa cubana.
Segundo dados oficiais de Havana, mais de 400 mil profissionais de saúde participaram de missões em pelo menos 164 países desde o início do programa. De acordo com números oficiais do regime cubano, mais de 24 mil médicos e outros profissionais de saúde permaneciam destacados em cerca de 50 países em 2025.
Apresentado por décadas por Cuba como um modelo de cooperação internacional, o programa tem sido alvo de críticas e condenações crescentes. Especialistas independentes das Nações Unidas, da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e do Parlamento Europeu denunciaram práticas comparáveis à “escravidão e ao trabalho forçado”. Em julho, o Departamento de Estado dos EUA sancionou entidades e autoridades envolvidas na administração das missões médicas no exterior “por facilitar e se beneficiar do tráfico de pessoas”.
De acordo com a organização não governamental Prisoners Defenders, o regime cubano reteria entre 85 por cento e 94 por cento dos recursos pagos pelos países anfitriões, ao mesmo tempo em que exerce um controle rigoroso sobre os profissionais durante sua permanência no exterior. “Trata-se de um crime contra a humanidade, não de um ato de solidariedade, cujo objetivo é enriquecer o regime”, explica à Diálogo Javier Larrondo, fundador e presidente da Prisoners Defenders.
Essas acusações, somadas às crescentes denúncias sobre as condições de trabalho dos médicos cubanos e à falta de transparência nos mecanismos financeiros que regulam as missões, intensificaram o escrutínio internacional sobre o programa. Como resultado, um número cada vez maior de países está revendo ou reduzindo esses acordos de cooperação na área da saúde, questionando também seu uso como instrumento de influência estratégica por parte de Havana.
O negócio dos jalecos brancos e o custo humano das missões
Por mais de meio século, a exportação de profissionais de saúde tem sido uma das ferramentas mais lucrativas da política externa do regime cubano. De acordo com o Departamento de Estado dos EUA, somente entre 2018 e 2020 o setor gerou entre R$ 30,54 bilhões e R$ 40,72 bilhões por ano, o equivalente a mais de 40 por cento das exportações da ilha.
Na maioria dos casos, os governos receptores não contratam diretamente médicos e enfermeiros cubanos, mas assinam acordos com o Ministério da Saúde Pública de Cuba (MINSAP) ou com a Comercializadora de Serviços Médicos Cubanos (CSMC), empresa estatal encarregada de administrar as missões no exterior. Esse sistema permite que Havana mantenha o controle sobre o recrutamento de pessoal, os destinos e, sobretudo, os fluxos financeiros gerados pelos contratos.
“O governo cubano retém, em média, 85 por cento dos salários acordados com os países anfitriões em favor dos médicos e enfermeiros. No México, demonstramos que foram retidos 94 por cento dos salários; no Brasil, o valor foi de 90 por cento. Tem sido um negócio de exploração em grande escala, gigantesco”, afirma Larrondo.
De acordo com inúmeros estudos e denúncias de opositores, economistas independentes e organizações de direitos humanos, a estrutura financeira que administra as receitas das missões médicas caracteriza-se por uma grande opacidade. Além da CSMC, a ANTEX S.A., uma empresa ligada à GAESA (Grupo de Administração Empresarial S.A.), o poderoso conglomerado econômico controlado pelas Forças Armadas cubanas, participa da gestão de alguns contratos internacionais.
Há anos, a GAESA é apontada como uma espécie de “caixa preta” do poder cubano, por meio da qual uma parte significativa dos recursos econômicos do país é captada pela cúpula militar, escapando a qualquer controle público ou parlamentar. Os pagamentos efetuados pelos países anfitriões seriam canalizados para o Banco Financiero Internacional (BFI), também controlado pela GAESA, o que dificulta enormemente a verificação do destino final dos recursos gerados pelas missões.
De acordo com um relatório publicado em abril pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), o regime enriquece por meio do trabalho forçado e de um controle autoritário sobre os médicos destacados no exterior. O relatório documentou práticas como a retenção de passaportes e restrições à liberdade de circulação. Essas limitações também afetam a vida familiar dos médicos, que muitas vezes não podem levar consigo seus cônjuges e filhos. Além disso, aqueles que abandonam o programa correm o risco de serem classificados como “desertores” e perder os benefícios econômicos acumulados durante a missão. Mesmo assim, milhares de profissionais optaram por abandonar o sistema.
Às acusações de exploração somam-se questionamentos relacionados à qualidade e à transparência das missões. No México, onde o governo investiu aproximadamente R$ 122,16 milhões na contratação de médicos cubanos entre 2022 e 2024, uma investigação jornalística da Fuerza Informativa Azteca levantou dúvidas sobre as credenciais de alguns profissionais e sobre a transparência dos contratos.
“Isso foi possível porque o regime impôs um tipo de convênio em que os currículos universitários legalizados dos participantes nunca eram entregues às autoridades do país anfitrião, o que permitiu a falsificação em massa de credenciais médicas”, afirma Larrondo.
Também no Brasil, o programa “Mais Médicos” gerou fortes controvérsias devido à dispensa concedida aos médicos cubanos da obrigação de revalidar seus diplomas profissionais. Entidades médicas denunciaram a criação de um duplo padrão regulatório e a dificuldade de verificar as qualificações dos participantes.
Diplomacia, inteligência e influência regional
Para o regime cubano, as missões médicas, além de representarem uma de suas mais importantes fontes de receita, constituem um de seus principais instrumentos de projeção internacional. Segundo ex-participantes das missões, algumas brigadas também são utilizadas como cobertura para agentes dos serviços de inteligência cubanos, encarregados não apenas de supervisionar os médicos no exterior, mas também de coletar informações e construir redes de influência local.
“Em muitos países, elas têm servido para realizar ações de ingerência política em favor de líderes autocráticos no poder, influenciando a população e camuflando redes de espionagem em benefício desses governos, inclusive em períodos eleitorais”, afirma Larrondo.
Segundo a Prisoners Defenders, na Bolívia, em 2019, dos mais de 700 integrantes da missão médica cubana presentes no país, pouco mais de 200 eram efetivamente médicos. Da mesma forma, no mesmo ano, o Equador rescindiu os acordos de cooperação com Cuba em meio a tensões diplomáticas após os protestos de outubro, durante os quais o governo equatoriano denunciou a participação de cidadãos cubanos em atividades de desestabilização.
“Além disso, todo o programa serviu para criar uma rede de aliados internacionais e aumentar o poder e a influência do regime cubano em instituições como as Nações Unidas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) ou a Organização Pan-Americana da Saúde (OPS)”, afirma Larrondo.
Por isso, nos últimos anos, vários países da América Latina começaram a reconsiderar a cooperação na área da saúde com Cuba, questionando o custo político de um modelo que permitiu ao regime cubano transformar seu capital humano em um instrumento de influência e projeção de poder.
Em março, Honduras decidiu não renovar um acordo com Havana após uma revisão interna identificar presença de pessoal não vinculado à área de saúde na delegação cubana. Guatemala e El Salvador também reduziram seus programas, enquanto as Bahamas e a Guiana solicitaram que os salários fossem pagos diretamente aos profissionais, e não ao regime cubano.
Ao reduzir ou reformar esses programas, os governos buscam não apenas oferecer maiores garantias para os médicos envolvidos, mas também limitar a capacidade de Havana de utilizar as missões de saúde como uma ferramenta geopolítica, contribuindo para fortalecer a transparência institucional e a segurança regional.