Comércio obscuro de macroalgas: Empresas chinesas branqueiam extração ilegal no Peru

Duas empresas de capital chinês, Globe Seaweed International S.A.C. e Algas Sudamérica S.A.C., transformaram a costa peruana no epicentro de um comércio multimilionário de macroalgas para a Ásia, operando à margem da lei.

De acordo com uma investigação de Mongabay Latam, publicada em setembro de 2025, ambas as empresas extraem e exportam milhares de toneladas dessas algas sem as licenças industriais exigidas pela legislação nacional.

Essa rede combina práticas de extração ilegal, “lavagem ambiental” e ausência de fiscalização estatal, abrindo uma brecha de impunidade na exportação de um recurso fundamental para as indústrias farmacêutica, cosmética, de fertilizantes e suplementos nutricionais.

O mecanismo da “lavagem ambiental”

A “lavagem” de macroalgas ocorre quando os transportadores misturam algas extraídas ilegalmente com aquelas coletadas legalmente nas praias. O jornal peruano El Comercio revelou que algumas associações pesqueiras são cúmplices desse sistema, alugando seus certificados de origem para validar cargas ilícitas, mascarando assim a verdadeira origem dos recursos.

“É uma estratégia que se repetiu em muitas épocas, ao longo da história do Peru; a China aproveita os recursos de um país em desenvolvimento, como o Peru, como aconteceu com os recursos pesqueiros, minerais e madeireiros, com o guano e com a borracha”, alertou à Diálogo Antony Apeño, investigador e biólogo marinho da ONG peruana CooperAcción. “A China colocou seus olhos no Peru, como fonte de extração de recursos, claramente apoiada na recente construção do megaporto de Chancay, parte de sua estratégia do Cinturão e Rota.”

O domínio chinês e desafios normativos

Entre janeiro e setembro de 2025, o Peru exportou mais de 25.000 toneladas de macroalgas, das quais 96 por cento tiveram como destino a China. Globe Seaweed International registrou vendas de US$ 3,4 milhões, enquanto Algas Sudamérica atingiu quase US$ 3 milhões, de acordo com o portal Agrodata Peru.

Essa demanda voraz tem exercido um forte estresse sobre os recursos marinhos, especialmente da região de Ica, onde ambas as empresas operam. Embora tecnicamente sejam privadas, essas entidades operam dentro do sistema chinês de fusão civil-militar e aquisição estratégica de recursos, o que significa que suas operações servem inerentemente aos interesses industriais e geopolíticos de longo prazo do Partido Comunista Chinês (PCC). Elas compram algas de coletores e pescadores artesanais. Essa prática destaca a dificuldade de garantir o cumprimento das regulamentações em toda a cadeia de abastecimento e de certificar a origem legal dos recursos. Esse sistema incentiva práticas de extração não regulamentadas, que podem ser devastadoras para o ecossistema, conforme relatado pelo site de notícias peruano Eco Televisión.  

A lei e seu impacto local

A regulamentação peruana – incluindo o Regulamento de Ordenamento Pesqueiro de Macroalgas Marinhas (ROPMM) e a Resolução Ministerial 264-2009-PRODUCE – estabelece que nos departamentos de Ica, Arequipa, Moquegua e Tacna só é permitida a coleta manual de algas encalhadas pela ação natural do mar.

No entanto, a realidade está muito longe da legalidade. A extração sob a água com barretas ou lâminas subaquáticas, inclusive mecânicas, é uma prática comum, e sua aplicação nas vastas áreas costeiras supõe um importante desafio logístico.

“Nos últimos anos, as empresas chinesas voltaram suas atenções para o Peru e, infelizmente, começaram a realizar atividades econômicas ilícitas, entre as quais se registram a pesca ilegal de lulas gigantes, a comercialização de barbatanas de tubarão, a comercialização de pepinos do mar e, atualmente, o comércio de macroalgas”, afirma Apeño. Além disso, ele alerta para o impacto dessas atividades na pesca artesanal e nos recursos hidro biológicos, vitais para as comunidades costeiras.

Sanções brandas e ausência de fiscalização

Ambas as empresas têm antecedentes por suas práticas inadequadas. Algas Sudamérica foi multada em julho de 2025 em apenas US$ 776.00, por receber e processar cargas sem comprovar sua origem lícita, uma infração recorrente desde 2022.

Globe Seaweed International, por sua vez, operou sem licença válida e acumulou multas em 2024 e 2025, por transportar macroalgas sem certificado de origem. Em 2023, recebeu uma sanção de US$ 8.000,00, que foi reduzida pela metade por benefícios legais, segundo relatou Infobae.

“Só é permitido recolher o que está encalhado; no entanto, sabe-se que pescadores ilegais entram e cortam as algas de forma irregular, esperando que elas encalhem para recolhê-las”, alerta Apeño. “Eles não apenas se aproveitam de lacunas legais, mas também da inércia dos órgãos de fiscalização para causar impacto sem receber qualquer sanção ou sanções brandas.”

Consequências ambientais e sociais

A extração descontrolada de macroalgas gerou conflitos entre associações de pescadores, que em ocasiões desencadeou confrontos violentos pelo controle das praias, segundo a Fundação Andrés Bello. Isso cria um vazio de segurança que desestabiliza a governança costeira e facilita novas atividades ilícitas.

Enquanto as macroalgas continuam saindo em toneladas rumo à Ásia, a impunidade que hoje envolve esse comércio não só corrói os ecossistemas marinhos, mas também a soberania do país sobre seus próprios recursos. No fundo, o mar peruano está pagando o preço de um modelo que promete investimento estrangeiro, mas exige um custo oculto: a concessão do controle nacional.

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