A intenção da China de aumentar sua influência na América Latina inclui esforços para forjar laços militares mais fortes, como a venda de equipamentos militares, principalmente para os países mais comprometidos econômica, política e ideologicamente com Pequim, afirmam analistas em questões de defesa regional.
Por exemplo, em algum momento do primeiro trimestre de 2024, de acordo com o site argentino Pucará Defensa, o Comando de Defesa Aeroespacial Integral das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas da Venezuela recebeu da China um sistema anti-drone para detectar, bloquear e desativar as bandas de frequência para transmissão de vídeo e controle de veículos aéreos não tripulados.
“Em sua busca por cooperação em defesa, a China, há vários anos, tem se envolvido cada vez mais em treinamento militar e comércio de armas na América Latina, principalmente com a Venezuela, Cuba e Bolívia”, disse à Diálogo, em 22 de abril, Fabián Calle, professor de Relações Internacionais da Universidade Austral da Argentina. “Isso representa importantes desafios e implicações geopolíticas e de segurança para nosso hemisfério.
Promessas não cumpridas
Embora os armamentos chineses tenham sido prejudicados há muito tempo pela baixa qualidade e desempenho, e as forças armadas latino-americanas tenham preferido equipamentos militares ocidentais, a China tem se esforçado na região, oferecendo empréstimos, preços baixos e transferência de tecnologia, que na maioria dos casos são incompletos, informou o site espanhol de notícias sobre defesa Infodefensa.
Os acordos de cooperação militar entre a China e a Venezuela deram uma guinada em 2005, com a compra de sete radares chineses para seu sistema de defesa aérea. Além disso, a Venezuela adquiriu algumas aeronaves de transporte, informa Infodefensa. “Em termos de quantidade de material comercializado, a Venezuela é, até o momento, o principal cliente da indústria de defesa chinesa na América Latina.”
Um pé na porta
“A incursão da China no mercado militar da região foi inicialmente na forma de ajuda não letal, como uniformes, suprimentos médicos, equipamentos hospitalares e capacitação em academias militares chinesas para oficiais das forças armadas de alguns países sul-americanos”, afirmou Calle. “Mas, depois expandiu a oferta, vendendo material de guerra, como aviões, navios e vários transportes para tropas.”
De acordo com Evan Ellis, professor de Investigação sobre a América Latina, no Instituto de Estudos Estratégicos da Escola de Guerra do Exército dos EUA, os países latino-americanos tiveram grandes problemas com suas compras e doações de armas chinesas. “Pelo menos quatro dos caças K-8W que a Venezuela comprou da China caíram em 2022, com problemas atribuídos a equipamentos defeituosos e erros decorrentes de manuais técnicos chineses que davam instruções erradas. Na Bolívia, dois dos seis K-8Ws chineses também caíram”, disse em um relatório.
Além dos armamentos, a China está expandindo seus interesses de defesa no espaço aéreo. Em 19 de março, uma delegação chinesa em Manágua assinou “vários acordos de cooperação espacial com a Nicarágua”, informou o regime de Daniel Ortega-Rosario Murillo, de acordo com a agência de notícias AFP.
Em setembro de 2023, a Venezuela e a China assinaram um memorando de entendimento para “estabelecer uma cooperação mais ampla em matéria de processamento e análise de imagens de satélite de vários tipos”, informou o Ministério das Relações Exteriores da Venezuela naquele momento.
Problemas técnicos
Embora a China tenha tentado atrair os países latino-americanos para que comprem seus equipamentos militares, eles optaram por deixá-los de lado, buscando, em vez disso, a qualidade e o desempenho que faltam aos ativos e equipamentos chineses.
Em meados de abril, por exemplo, a Argentina fechou o acordo de compra de 24 aviões F-16 por US$ 300 milhões, escolhendo essa opção em vez das aeronaves JF-17 da China, que têm apresentado sérios problemas estruturais e de motor.
“A China oferece armamentos aos países da região, mas deixa um mar de dúvidas sobre a estrutura e o desempenho dessas armas, bem como sobre a cadeia logística necessária para sua manutenção, na qual, em inúmeras ocasiões, quando chega às mãos do comprador, esse equipamento já está obsoleto em sua operacionalidade”, disse Calle.
Essa falta de compatibilidade tecnológica dos equipamentos militares chineses também cria obstáculos quando eles estão em uso e deixam os países compradores com dificuldades para obter peças de reposição.
“Os governos democráticos da América Latina devem ficar em alerta se aceitarem esses tipos de produtos, que depois são inadequados para a funcionalidade de suas forças armadas e, em última análise, resultam em grandes somas investidas em materiais que não têm utilidade efetiva”, concluiu Calle.



