A China está intensificando o uso de tecnologia avançada, como a inteligência artificial (IA), em suas estratégias militares e de desinformação digital, para consolidar sua influência política global. Isso está causando uma preocupação crescente entre especialistas internacionais sobre seu impacto na segurança global.
“A China está inovando no acesso às informações de outros países, com a intenção de consolidar-se como uma potência capaz de exercer domínio e obter benefícios estratégicos, sejam eles militares, econômicos ou políticos”, disse à Diálogo Victor Ruiz, fundador do centro de segurança cibernética SILIKN, no México. “Essa ambição se reflete em sua abordagem militarizada da tecnologia.”
Cientistas de instituições vinculadas ao Exército de Libertação Popular (ELP) usaram a versão inicial do modelo de IA Llama, da Meta, para criar ChatBIT, uma ferramenta orientada para a inteligência militar, informou Reuters. Projetada para processar e analisar informações críticas, ChatBIT supera outros modelos de IA e é quase tão capaz como ChatGPT-4.
“Esta é a primeira vez que há evidências significativas de que os especialistas militares do ELP estão investigando e aproveitando sistematicamente o potencial dos LLM [grandes modelos linguísticos] dos modelos de código aberto, especialmente os da Meta, para fins militares”, disse à Reuters Sunny Cheung, membro associado da ONG Fundação Jamestown, especializada em tecnologias emergentes e de uso duplo da China, incluindo IA.
Meta distribui modelos de IA como Llama, com restrições para evitar o uso militar, de armas e espionagem, mas sua natureza pública dificulta seu controle. Google reiterou a Reuters que qualquer uso pelo ELP não seria autorizado e violaria suas políticas de uso aceitável.
A Corporação da Indústria de Aviação da China, ligada ao ELP, usou Llama 2 para treinar estratégias de guerra eletrônica aerotransportada, indicou Reuters, que acrescentou que o modelo de IA também está sendo utilizado para a segurança interna, especificamente na vigilância policial, para processar grandes volumes de dados e melhorar a tomada de decisões.
Do roubo à inovação
Inicialmente, a China copiava dispositivos de hardware e software do Ocidente, adaptando-os para uso interno sem a necessidade de um departamento de desenvolvimento. Posteriormente, os comercializava em outros países, tornando-os acessíveis e, em muitos casos, instalando equipamentos de espionagem e rastreamento, uma prática que ainda está em andamento, explicou Ruiz.
“Com o avanço da IA, a China expandiu sua estratégia, usando tecnologias como Llama e outros modelos de IA para fins de desinformação. Essa evolução tecnológica apresenta riscos significativos, pois as campanhas chinesas não operam isoladamente, mas estão interconectadas”, continuou Ruiz. “A IA acelera a análise de dados, facilitando a identificação de alvos importantes, como infraestruturas críticas e capacidades militares.”
“Em cenários de conflito, ela poderia adotar táticas semelhantes às da Rússia na Ucrânia, atacando as telecomunicações para bloquear, espionar e difundir informações falsas. Isso confundiria o inimigo sobre suas reais capacidades”, alertou Ruiz. “A IA amplifica essas operações, simulando vulnerabilidades ou pontos fortes estratégicos e destacando campanhas de desinformação que alteram o cenário militar.”
Glassbridge
Em 2024, Google bloqueou centenas de sites e domínios associados a Glassbridge, um grupo formado por quatro empresas chinesas, acusado de operar redes de notícias falsas, como parte de uma campanha de influência. Desde 2022, mais de 1.000 sites associados a essa operação foram bloqueados por disseminarem narrativas estratégicas disfarçadas de conteúdo legítimo, informou o portal norte-americano The Record News.
Essas páginas fingiam ser mídias independentes, adotando uma abordagem local e modificando suas mensagens para afetar audiências regionais específicas. Seu objetivo era apresentar desinformação disfarçada de notícias confiáveis, uma estratégia que os investigadores também identificam em campanhas de desinformação russas e iranianas.
“Esses sites representam outra maneira pela qual a China pode executar ataques estratégicos. Longe de diminuir, é de se esperar que seu número aumente à medida que as necessidades do governo chinês se intensifiquem”, disse Ruiz. “Para isso, eles usam pequenas empresas para fornecer hospedagem e criam sites disfarçados de mídia independente.”
Os sites criaram centenas de domínios falsos que replicavam conteúdo pró-China, como artigos de Global Times, de propriedade estatal, e tópicos relacionados a reivindicações territoriais no Mar do Sul da China, Taiwan, Falun Gong e outros lugares sensíveis.
Os domínios se concentravam em regiões estratégicas, como Europa Oriental, Oriente Médio, África, Ásia, Estados Unidos e comunidades da diáspora chinesa, apresentando-se como fontes locais de informação. Além disso, as empresas modificavam e compartilhavam conteúdo em várias redes de sites, reforçando as narrativas alinhadas aos interesses da República Popular da China.
“Além disso, muitos meios de comunicação tradicionais estão reproduzindo notícias provenientes dessas fontes, criando uma percepção de legitimidade entre o público”, explicou Ruiz. “A falta de ferramentas para verificar sua autenticidade, juntamente com o uso de fotos enganosas geradas por IA, dados e estatísticas, torna difícil distinguir se são falsas ou verdadeiras.”
Paperwall, uma nova ameaça
“É crucial revelar essas campanhas, pois Pequim está intensificando suas atividades agressivas nas esferas das operações de influência (IO), tanto online quanto offline. No âmbito digital […], as IOs chinesas estão adotando novas táticas e aumentando significativamente sua atividade”, diz um relatório publicado por Citizen Lab, da Universidade de Toronto, sobre uma campanha de influência coordenada pela China, que Citizen Lab chamou de Paperwall.
Os sites de Paperwall fingem ser mídias de notícias locais em países da Europa, Ásia e América Latina. Em fevereiro de 2024, Google removeu de Google News mais de 100 sites de Paperwall. Esses domínios combinavam artigos copiados, conteúdo estatal chinês, comunicados à imprensa e teorias da conspiração.
Investigadores alertaram sobre o fenômeno chamado Pink Slime [lama rosa], no qual a Internet é inundada por sites de notícias falsas, em grande parte geradas por IA de países como Rússia, China e Irã. “Esse problema é agravado por ferramentas como ChatGPT e o colapso do jornalismo local legítimo nos EUA e em outros países”, indicou The Record News.
“Isso representa um desafio para a mídia local, que precisa inovar suas práticas jornalísticas e intensificar suas investigações, para combater a desinformação massiva e de rápida difusão, que atrai os usuários. Além disso, é fundamental que o público exerça o bom senso e adote uma abordagem analítica e crítica diante das informações que consome”, concluiu Ruiz.


