A competição pela liderança tecnológica global tornou-se um eixo estratégico. A China busca consolidar sua influência em setores como redes 5G, inteligência artificial (IA), guerra eletrônica e controle digital. Essa expansão, apoiada por uma política estatal agressiva, gera inquietação por suas implicações diretas na segurança e estabilidade da América Latina.
Relatórios de diversas fontes internacionais, entre elas o Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR) e o Real Instituto de Serviços Unidos (RUSI), destacam que Pequim sistematizou capacidades de guerra eletrônica e ciberdefesa, por meio de uma estratégia de fusão civil-militar.
De acordo com especialistas, a China busca desenvolver sistemas de interdição cibernética e espacial, incluindo satélites com capacidade de interferência e criação de alvos falsos, bem como sistemas capazes de desativar comunicações ou radares inimigos. Essa estratégia é apoiada pelos crescentes investimentos da China em infraestrutura digital no exterior, por meio do destacamento de redes 5G, cabos submarinos de fibra óptica, centros de dados, sistemas de navegação por satélite e IA. Há preocupação com relação à utilização potencial dessas tecnologias para fins de vigilância ou censura nos países receptores, acrescenta o relatório.
Esteban Jiménez, chefe de Tecnologia da empresa costarriquenha de cibersegurança Atticyber, disse à Diálogo que o destacamento de 5G na América Latina está limitado pela necessidade de aplicar padrões internacionais de segurança na cadeia de suprimentos. “Existem normas como a ISO 28000, que estabelecem critérios para componentes e células de telecomunicações”, explicou, e alertou que “os equipamentos de origem chinesa não cumprem esses requisitos técnicos”.
Infraestrutura crítica e soberania tecnológica
O think tank norte-americano Council on Foreign Relations (CFR) documentou a participação de empresas chinesas em redes 5G e projetos digitais em países como Brasil, México e Peru, apesar das advertências sobre os riscos associados ao uso de equipamentos da Huawei. Esses investimentos são direcionados para infraestrutura estratégica, como IA, cidades inteligentes e sistemas de vigilância.
Outras empresas chinesas, como ZTE, Hikvision e Dahua, instalaram sistemas de telecomunicações e videovigilância na Argentina, Brasil e Equador, consolidando sua presença por meio de alianças com distribuidores regionais. De acordo com a ONG internacional Access Now, que se concentra nos direitos civis digitais, essa infraestrutura representa riscos significativos para a privacidade, a proteção de dados e a soberania digital.
A falta de transparência em alguns desses acordos suscitou controvérsias. Em fevereiro, o Instituto Guatemalteco de Segurança Social assinou um acordo com um distribuidor local da Huawei, para a implementação de uma “solução integrada de recuperação cibernética”, informou o jornal guatemalteco La Hora. “A empresa ofereceu um desconto adicional para garantir a adjudicação”, acrescentou.
Segundo explicou Jiménez, a China promove a flexibilização regulatória por meio de vínculos diretos com líderes nacionais, com sérias consequências visíveis. “Na Costa Rica, o Instituto Costarriquenho de Eletricidade se viu envolvido em um caso que levou à demissão de vários altos executivos, por sua ligação com a Huawei em atividades reguladas e proibidas”, acrescentou. “Na sequência do incidente, o governo impôs restrições à empresa em contratos públicos.”
Cooperação espacial e uso duplo
A China reforçou sua presença espacial na América Latina. Em abril de 2024, Pequim organizou o primeiro Fórum de Cooperação Espacial China-Estados da América Latina e do Caribe. Também promoveu a criação do Comitê Conjunto de Cooperação Espacial do bloco BRICS, do qual o Brasil é membro fundador, para o intercâmbio de dados de satélite.
A infraestrutura espacial da China na região também suscitou preocupação por sua dupla utilização. A maior estação espacial não doméstica da China fica no deserto patagônico da Argentina e faz parte de sua Rede Espacial Profunda. Pequim também mantém estações na Bolívia, Brasil, Chile e Venezuela. A falta de transparência nos acordos levanta questionamentos sobre seu uso dual, civil e militar.
Jiménez destacou que em vários países perdeu-se o foco técnico na avaliação de tecnologias sensíveis. “Essas decisões devem passar por comitês especializados e independentes. Quando são politizadas, comprometem a segurança e a integridade das infraestruturas nacionais.”
Guerra eletrônica e projeção hemisférica
De acordo com o jornal Financial Times, a China desenvolveu sistemas de guerra eletrônica baseados em IA, capazes de detectar e neutralizar ameaças sem intervenção humana. Essas “armas cognitivas” interferem em radares, bloqueiam comunicações e alteram o ambiente eletromagnético do adversário, antecipando sua resposta.
O think tank Center for Strategic & International Studies (CSIS) relata que a China instalou estações de escuta eletrônica em Cuba, com capacidade para interceptar comunicações no sudeste dos Estados Unidos. Essas operações respondem à sua doutrina de controle do espectro, que combina guerra eletrônica e operações psicológicas.
Essa guerra eletrônica, que utiliza o espectro eletromagnético para interferir, proteger ou explorar sistemas de comunicação, é hoje uma capacidade operacional central. A Estação Espacio Lejano, localizada na província de Neuquén, Argentina, operada pela entidade Controle Geral de Seguimento e Lançamento de Satélites da China, uma subunidade do Exército Popular de Libertação, tem cobertura em todo o Hemisfério Sul.
Na Venezuela, Pequim financia estações na base aérea Capitán Manuel Ríos, administradas pela corporação China Great Wall Industry, com conexão direta à sua rede de satélites, indica The Washington Post. Além disso, o jornal argentino La Nación relata um aumento no número de portos sob o controle da China na região, o que poderia completar suas capacidades logísticas e tecnológicas.
A região apresenta alta vulnerabilidade. “Em muitos casos, as tecnologias são integradas antes de haver uma regulamentação adequada, quando deveria ocorrer o contrário: estabelecer normas claras antes de sua implementação”, recapitulou Jiménez. “A América Latina é uma das regiões menos preparadas para enfrentar incidentes ou ataques relacionados a essas tecnologias.”